16/02/2021 às 12h12min - Atualizada em 16/02/2021 às 11h53min

Consumo consciente e preços baixos influenciam aumento dos brechós no Brasil

Entenda o motivo do crescimento de compras e vendas de roupas em brechós

Maria Fernanda Melo - Editado por Larissa Barros
Reprodução / Pexels
No século XIX, a primeira loja de peças e objetos de segunda mão foi criada no Brasil. A Casa de Belchior, localizada no Rio de Janeiro, tornou-se tão popular que o nome, com o passar do tempo e a informalidade da língua, deu origem ao termo ‘brechó’. Entretanto, mesmo tendo que quebrar preconceitos e tabus relacionados a compra de produtos usados, o número de consumidores desses locais tem aumentado significativamente nos últimos anos. 

De acordo com o relatório de inteligência do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), divulgado pelo site Sul21, entre os anos de 2010 e 2015, o número de brechós aumentou em 210%. Os motivos que explicam essa expansão são diversos, e variam desde encontrar peças com valores mais baixos até a preocupação ambiental sobre a produção de roupas. 
 
“O No Name hoje é minha vida. É meu trabalho, e meu orgulho.” É assim que a proprietária do brechó on-line No Name, Pâmela de Oliveira, 27 anos, expressa o quão importante ele é para si. Em seu relato, ela conta que a abertura do brechó abriu portas para a independência financeira, novas amizades, e experiências que ainda não havia vivido. Além de transformar a visão que as pessoas à sua volta tinham sobre brechó.

"Minha mãe me levava em alguns quando era pequena, mas não éramos frequentadoras assíduas. Passei a frequentar e gostar deles, depois de entrar na faculdade de Design de Moda. Estudante, com pouco dinheiro, vi nos brechós um mundo onde poderia encontrar roupas diferentes e até únicas por um preço super acessível”, conta Pâmela sobre como os seus garimpos começaram.

A empresária afirma que seu interesse sobre esse mercado começou com a venda de algumas de suas peças por meio do Facebook. Após ter um retorno positivo das clientes ela se animou, e a partir disso, o No Name surgiu. “Iniciei com 8 peças garimpadas e um instagram do zero. E  para minha surpresa, quando ingressei de cabeça no mercado, notei o quanto estava crescendo”, disse.

 
Acessibilidade 
De acordo com dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), em colaboração com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), nos anos de 2018 e 2019, seis a cada dez consumidores de roupas compraram peças de segunda mão, sendo que, 96% ficaram satisfeitos com a aquisição. Esses dados evidenciam o crescimento desse mercado, também defendido por Pâmela. 

“Há diferentes brechós no mercado hoje. A maioria é online, por sua maior abrangência de clientes. As pessoas cada vez mais procuram preço baixo, roupas boas e bonitas.” Ela ainda completa que não é fácil, como se parece, trabalhar sozinha, porém os brechós são muito acessíveis para investir. 

Porém, com o baque econômico de diversos setores com a pandemia da covid-19, os brechós também precisaram se adaptar às mudanças. 
 
“Sofremos muito. Vi amigos fecharem seus brechós, brecholeiros tendo que abrir mão do sonho do brechó físico. Amigos recomeçando do zero, outros aprendendo a vender digitalmente.” A venda on-line foi uma saída, visto que a visibilidade do meio digital contribuiu para que muitos continuassem funcionando. “Hoje temos clientes fiéis, e de todos os lugares do Brasil”, conta.

Para Daniella Barros, 31 anos, designer de Moda e cliente assídua de brechós, os brechós possuem uma característica social: demonstrar o quão necessário é que os vestuários tenham um valor mais acessível. "Precisamos pensar que uma parcela da população não tem acesso aos direitos básicos, dirá comprar roupas de primeira mão", destaca.

A designer explica também que, com a economia solidária, mais pessoas conseguem ter um lucro em cima de determinada roupa, "isso faz girar a economia entre os pequenos, tirando a hegemonia de grandes marcas".
         
As diversas curadorias 
Para cada brechó, existe uma seleção do que será vendido ou não. Caminhando desde a curadoria vintage [peças de 20 anos atrás] até as grifes de luxo, é certo que algo agradará você e seu bolso. As opções são inúmeras, e isso facilita o processo de busca pelo item ideal. 

A criadora do No Name, Pâmela, explica que "existem brechós que não garimpam peças com avarias [dano/estrago], por exemplo. Além disso, há também os que aceitam, pois seus clientes são mais flexíveis, e até mesmo mais 'raiz'". No entanto, ela destaca que é improvável "a venda de peças destruídas e com avarias irreversíveis”.
    
Bazar e brechó: é a mesma coisa?  
Respondendo a pergunta acima, não! Bazar e brechó possuem suas diferenças. O primeiro é realizado, em especial, de forma beneficente. Nesse caso, o preço das peças são muito baixos, variando entre R $1 e R $5. Além disso, é comum as peças estarem expostas em amontoados de roupas, pois é um local mais bagunçado. 

Já os brechós são mais profissionais. Esses locais costumam ser bem organizados e cuidadosos com seus itens. Os brecholeiros possuem um cuidado maior na curadoria dos seus itens, o que aumenta o preço em comparação aos bazares. Mas, ainda assim, é mais acessível que muitas lojas convencionais.  
 
No papel de cliente
Ainda sobre o seu início em brechós, Daniella explica que "a consciência em relação ao meio ambiente surguiu quando ela completou 17 anos, e comecei a estudar mais sobre o assunto."  Por amar moda, ela notou que ao comprar desses locais, o benefício era ainda maior.

"Eu vim de uma família que não possui muitas condições financeiras, e na qual muitas mulheres fazem as próprias roupas. Passar a peça de mãe para filha ou de prima para prima, nunca foi um problema", conta Daniella.
 
Sendo cliente fiel das peças de segunda mão, histórias não faltam, entre elas, uma teria marcado bastante a sua vida. "Duas irmãs tinham brigado e uma delas para se 'vingar' doou as roupas da outra para um brechó. Quando a irmã descobriu, foi atrás de reaver ao menos essa saia porque tinha sido um presente importante." Ela conta ainda que, sem pensar duas vezes, devolveu a peça.

 
Consumo consciente 
Por fim, outro fator que evidencia o aumento na busca por brechós é, sobretudo, a preocupação socioambiental. A conscientização sobre a moda do reuso e sobre o descarte inadequado da produção têxtil, por exemplo, é cada vez mais presente.   

De acordo com Daniella, apesar do Brasil ser rico em recursos naturais, boa parte da produção têxtil, infelizmente, ainda resulta em impactos ambientais. Para ela, ao comprar peças de segunda mão as pessoas contribuem com a preservação ambiental.

Já a proprietária do No Name, explica que optar por uma peça de brechó não se resume a vestir uma roupa usada, mas, "em encontrar um tesouro, ter algo único, ter sua personalidade exaltada, amar o meio ambiente e agradecer o que ele forneceu para aquela roupa que já existe há mais de 20 anos".

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