18/02/2021 às 20h47min - Atualizada em 18/02/2021 às 20h29min

De lavagem cerebral a crimes hediondos: o que de fato difere uma seita de uma religião?

As seitas macabras e as lavagens cerebrais feitas por elas, podem levar até a morte. É o que a série ‘Save-me’ e os exemplos reais deixam de alerta para a sociedade

Jennifer Valverde - Editado por Roanna Nunes
Josh Boot (Unsplash.com)

Ao contrário do que o imaginativo popular nos apresenta, a seita não é por si só uma doutrinação que busca alienar pessoas para cometer atos que discorrem da normalidade, podendo até levar à morte. De acordo com o dicionário Aurélio, a palavra seita deriva do latim ‘secta’, que significa seguidor, caracterizado pela intenção de trazer pensamentos diferentes do tradicional, pode se estabelecer em vários ambientes como político, religioso, moral e até filosófico. Não se sabe ao certo o início de conjuntos do tipo, porém o ser seita entra em contradição quando se põe em jogo o que é ou não religião. Algumas até se denominam religiões, mas são negadas por outras com perspectivas diferentes e classificadas por estas como seita. 

 

Entretanto, é possível distinguir uma verdadeira religião de uma seita. Na série sul-coreana ‘Save-me’ (2017) podemos ver essa distinção e o quão profunda pode se tornar uma relação com um grupo do tipo. A trama nos mostra o lado obscuro que a seita fictícia apresenta, quando um dos integrantes quer sair dela, além de abordar a alienação na qual as pessoas ficam, quando são ‘fisgadas’ por uma ideologia doutrinadora e de más intenções.


Em 1975,o jornalista Alain Woodrow em seu artigo sobre uma seita na França para o Le Monde expõe sua perplexidade com o nível de alienação vivenciada por jovens da época, os mesmos estavam sendo persuadidos a abandonar tudo o que tinham e toda sua cultura em prol desse conjunto.
 

“Existe, indiscutivelmente, uma discordância entre, de um lado, a rapidez da conversão e o fanatismo dos adeptos e, de outro, a inconsistência do pensamento de Moon sob todos os pontos de vista (doutrinal, filosófico, lógica pura) […] Os fatos nos conduzem a afirmar, portanto, que os jovens sofrem um condicionamento psicológico "tipo lavagem cerebral" (bem codificado desde a Segunda Guerra Mundial) que os torna insensíveis à toda crítica e inaptos a qualquer auto-crítica; tratando-se, freqüentemente, de estudantes ou de quadros de nível superior, seria "falso" ver aí uma simples ingenuidade, ou, inexperiência (Woodrow apud Birman 2000a:28).”

 

Chegando ao ponto crucial que finalmente responde a pergunta acima: quando um indivíduo perde o controle dos seus pensamentos e atitudes, os entregando a uma outra pessoa, percebemos um dos primeiros indícios de que aquela seita não é uma organização ‘religiosa’ comum. 

 

De lavagem cerebral à crimes

 

Uma das organizações religiosas que chocaram o mundo quando se foi exposto os crimes cometidos dentro da instituição, foi a Jesus Army (ocorridos por sua maioria entre 1980 e 1990), que de início se parecia uma igreja cristã comum, mas após investigações foram descobertas algumas situações e crimes cometidos contra fiéis. Os moradores do local, segundo relatos, eram submetidos a uma rotina de trabalho intensa, toda sua renda era entregue e compartilhada, até as roupas e responsabilidades familiares. Segundo testemunhas. a partir dos 12 anos as crianças eram separadas de seus pais e era um hábito comum adultos verem os menores tomando banho ou se vestindo. Acusações de abuso sexual, lavagem cerebral, trabalho forçado, servidão financeira e ‘surras brutais’ de meninos por grupos de homens, acabaram com a acusação de 43 pessoas ativas da seita.


 

Outra seita macabra que ficou famosa foi a de Jim Jones que causou o maior suicídio coletivo da história, o Jonestown. Em 18 de novembro de 1978, 918 pessoas morreram em um misto de suicidio em grupo e assassinatos na seita fundada por Jim, um ‘pastor’ e fundador do Templo Popular, uma seita pentecostal cristã de orientação socialista. O líder tinha ideais ditatoriais e messiânicas. No local as pessoas ficavam praticamente isoladas, tendo como única forma de contato um rádio de ondas curtas. Segundo relatos, Jones promovia punições severas e havia guardas no local para evitar eventuais fugas. Ele falava aos seus seguidores sobre um “suícidio revolucionário”, coisa que havia ensaiado em algumas assembleias. Então, no dia 18 de novembro houve o massacre, aqueles que não se suicidaram bebendo veneno seguindo as ordens de Jim, foram mortos a tiros e facadas. Somente 35 pessoas conseguiram escapar com vida.


 

Existem outras seitas que causaram destruições por onde passam e algumas que só seguem seu percurso de crença normal. Desta forma, vale ressaltar que há importância nos sinais na busca de uma religação espiritual de forma saudável, que difere de grupos que ultrapassam o limite de escolha e das leis. Saber identificar ambientes pode salvar não só eventualmente uma vida, mas toda a comunidade composta por esta. 


 
Referências:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-93132005000100001&script=sci_arttext 

https://brasilescola.uol.com.br/religiao/diferenca-entre-religiao-seita.htm

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2018/08/conheca-historia-de-5-seitas-bizarras-e-assustadoras-da-vida-real.html

https://gazetaweb.globo.com/portal/noticia/2019/07/seita-jesus-army-praticava-lavagem-cerebral-contra-criancas-aponta-investigacao_81447.php

https://www.terra.com.br/noticias/mundo/estupro-lavagem-cerebral-e-agressao-os-abusos-de-criancas-revelados-na-investigacao-da-seita-jesus-army,4e58ad457db8dd15f0feda7cbbd7da5ergcdgeu0.html

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46258859
 

 

 
 

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