25/03/2021 às 17h52min - Atualizada em 25/03/2021 às 17h31min

FUNK: MÚSICA RUIM PARA QUEM?

A presença do remix brasileiro na 63ª edição do Grammy Awards reacende os debates sobre o gênero

Cleciane Vieira - Revisado por Mário Cypriano
Cardi B inclui trecho da versão remixada, feita por Pedro Sampaio, de “WAP” em apresentação do Grammy - Imagens: Instagram pessoal @iamcardib e @pedrosampaio / Montagem: Cleciane Vieira

No dia 14 de março, ocorreu a 63ª edição do Grammy Awards, palco de uma das apresentações mais faladas dos últimos dias: a performance do hit “WAP”. As rappers Cardi B e Megan Thee Stallion surpreenderam a todos ao incluírem na apresentação um trecho da versão funk da música remixada pelo DJ e cantor brasileiro Pedro Sampaio. “Obrigada Brasil, por sempre me mostrar amor, eu tive que mostrar amor de volta”, tuitou Cardi B, sobre a apresentação. 
 
A cantora também escreveu que se apaixonou pelo funk do BR ao ouvir “Onda Diferente”, de Anitta e Ludmila. A musa já apareceu em suas redes sociais cantando e ouvindo músicas de outros artistas brasileiros como Zezé Di Camargo & Luciano e MC Mirela. 
 
(Trecho da performance de WAP - Créditos: Latino Gang Traduções)
 
No Brasil, a homenagem repercutiu bastante e o grande público celebrou o quanto o nosso funk chegou longe. Por outro lado, houve quem acreditasse que não havia motivos para tanta comemoração. O produtor musical Rick Bonadio criticou a comemoração do público e protagonizou discussões em seu perfil do Twitter, e também em uma live com a GabilyEm uma de suas publicações ele compara distintos gêneros musicais, numa aparente intenção de dizer que o funk não produz boa música.   
 
“Já exportamos Bossa Nova, já exportamos Samba Rock, Jobim, Ben Jor. Até Roberto Carlos. Mas o barulho que fazem por causa de 15 segundos de Funk na apresentação da Cardi B me deixa com vergonha. Precisamos exportar música boa e não esse ‘fica de quatro!’”, comparou. Bonadio ainda reforça que “o Funk precisa evoluir”.

 

Engana-se quem acha que esse tipo de comentário é apenas uma opinião. Existe uma estrutura preconceituosa em nossa sociedade que, infelizmente, parece estar longe do fim. 
 
O doutorando em Música (USP) e professor de Música Clássica, Thiago Souza (mais conhecido como Thiagson), investiga o Funk em seu doutorado. Em seu Mestrado ele pesquisou sobre a legitimidade musical do Funk e o porquê de muitas pessoas se sentirem autorizadas em desqualificar o gênero. Em entrevista cedida ao Lab Dicas Jornalismo, Thiagson comentou sobre a crítica do Bonadio.
 
“Acho que tem uma repetição histórica, ‘uma mania de passado’ como dizia Paulinho da Viola. Só consigo ver um pré-conceito e uma visão um pouco classista e racista. Quando ele diz que ‘o Funk tem que evoluir a melodia’, tem um racismo implícito aí, porque tudo aquilo que é considerado música boa é o que vem da música branca europeia”, afirma o professor.
Acreditem, problemáticas como essa não são “mimimi”. Devemos refletir para podermos avançar como humanidade, pois sem reflexão não há movimentos positivos. É um avanço quando uma artista como a Cardi B lembra dos brasileiros e leva nossa cultura para o palco de um evento como o Grammy, mas devemos pensar em todo o contexto. 
 
“O funk estar no Grammy é uma coisa muito boa, mostra como o gênero pode ser universal, mas temos que usar o senso crítico. O funk que faz mais sucesso, mesmo que tenha expressões como o ‘fique de quatro’, é sempre um funk mais higienizado, um funk que dialoga com camadas sociais mais elitizadas. É importante que o funk se internacionalize, mas é preciso se perguntar: ‘que funk é esse que está sendo exportado? Será que é esse que toca nas favelas?’ e a resposta é: não!”, reflete Thiago. Não se pode pesar a mão ao falar de algo que se limita conhecer. Parte da sociedade assume um posicionamento negativo sobre o funk, porém com um conhecimento quase nulo.  
 
(Thiago Souza, doutorando em funk - Foto: Instagram/@canaldothiagson)
 
O crítico musical Regis Tadeu também conversou conosco e, ao ser perguntado sobre a Cardi B ter levado parte do remix de Pedro Sampaio ao Grammy, ele respondeu que “da mesma forma como ela incluiu esse trecho, poderia incluir um outro trecho qualquer, de uma outra canção, de um outro artista, que não necessariamente fosse brasileiro. Uma pequena sampleada, nada além disso, nada que justificasse as pessoas aqui do Brasil ficarem inundando as redes sociais com mensagens de júbilo”. 
 
Para o crítico, não tem o que comemorar e nem sentir reconhecimento internacional, “é uma coisa muito mínima”, disse. Ele também acredita que a reação do público “é mais uma síndrome de vira-lata que voltou a aparecer aqui entre os brasileiros, que ao receber qualquer tipo de migalha de artista internacional já se acham o máximo. Só quem é fã muito idiota acredita nesse tipo de marketing patético”, afirma.
 
(Regis Tadeu, na Jovem Pan - Foto: Instagram/@regis.tadeu
 
Bem, se foi marketing, acho que deu certo. Se a maioria dos Br’s não valorizam o funk, os gringos valorizam, doa a quem doer. Música é arte, independentemente do seu estilo. Ela foi criada e carrega em si o valor musical, o contexto social, cultural e econômico. Todos os estilos devem ser valorizados e respeitados.
 
Existe uma entrevista (que é facilmente encontrada no YouTube) que a Anitta cedeu ao Brazil Conference at Harvard & MIT, em 2018, onde a cantora fala sobre a rejeição ao funk. Anitta disse: “A rejeição ao funk é única e exclusivamente porque veio da favela, (...) não tem como a pessoa cantar coisas que não condizem com sua realidade. 'O barquinho vai, a tardinha cai’; você não tá nem vendo isso. O funkeiro nada mais faz que cantar a realidade dele, então se ele acorda e abre a janela e vê gente armada, se ele vê gente se drogando ou vê gente se prostituindo, é a realidade dele, acaba sendo normal. (...) Pra você mudar o contexto da letra que tá no funk, você tem que mudar o contexto da realidade de quem tá naquela área.” 
 

O Funk é ou não é Cultura? 


Nos anos 70 surgiram ritmos populares como o Black, Soul e Funk. Suas aparições além dos bailes eram por meio de equipes de som como Furacão 2000, Black Power e Soul Grand Prix. Em 1980 os bailes funks começaram a ser influenciados pelas batidas mais rápidas do subgênero Miame Bass, e com o tempo os DJs foram buscando outras referências nas músicas de artistas negros até chegar no funk como conhecemos hoje.

A história do gênero por si só refuta a ideia de que o funk não seja cultura, inclusive, protegida por lei. 
No Art. 215 da Constituição da República Federativa do Brasil diz o seguinte: “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais”. 
 
A jornalista Fernanda Souza documenta por meio de fotos e matérias jornalísticas as pesquisas que ela faz sobre o Funk, além de produzir conteúdo e promover discussões de políticas públicas sobre o assunto. Ela nos traz um pensamento sobre o gênero ser ou não ser Cultura.
 
“Deslegitimar o funk enquanto cultura é negar a existência de tradições, vozes e contextos que um determinado grupo vive. Do ponto de vista leigo é comum negar qualquer cultura é impedir a existência do indivíduo. Cultura não é só aquilo que gostamos ou acreditamos ser bom ou não.”, afirma Fernanda.
A grosso modo, cultura é um conjunto de costumes, crenças e manifestações de um determinado grupo social. Todos os grupos sociais possuem cultura, sem exceção, e o que faz um país rico culturalmente é justamente suas diferentes manifestações. 
 
“Dizer que funkeiro é sem cultura, é redutivo e sem coerência. A história e existência da pessoa já é uma cultura. Ela produz inúmeras coisas no cotidiano que dão margem para criação. Exemplo é ter eu lírico por meio de um MC de funk que assume um papel de relatar as vivências de sua quebrada. As vidas das pessoas se tornam narrativas em linhas e figuras de linguagem de forma empírica. Isso é cultura”, finaliza a jornalista. 
 
(A jornalista Fernanda Souza - Foto: Arquivo Pessoal)
 
Alguns dizem que o funk só expressa a objetificação feminina, além de fazer apologia ao crime e ao consumo de drogas, portanto, insistem veementemente que o Funk não é cultura. Temos que lembrar que o Samba, a Capoeira e o Rap também foram alvo de perseguição por serem vistos como imorais aos bons costumes. E o que eles têm em comum com o Funk? Todos são manifestações culturais que tem como origem a cultura afro-brasileira. Coincidência ou racismo? Fica aí o questionamento. 

A música “Bum Bum Tam Tam”, elaborada pelo MC Fioti, que virou o “hino da vacina” no Brasil em homenagem ao Instituto Butantan ao ter produzido a vacina imunizadora contra o COVID-19, foi inspirada em um trecho da Partita em Lá Menor, de uma obra para flauta solo do músico alemão Johann Sebastian Bach, de 1723. A adaptação do trecho erudito para o funk só entrega o quanto o gênero está evoluído e acompanhando as tendências e a diversidade dos tempos atuais. 
 
(Vacina Butantan - Créditos: Canal Kondzilla)
 
O Funk não apenas entretém, mas também é o pão de cada dia para milhares de brasileiros, como Renata Prado, dançarina, professora e pesquisadora de Funk. 
 
“O Funk é uma ferramenta fundamental em minha vida porque eu sou da periferia, nascida e criada na extrema Zona Leste de São Paulo e o funk faz parte do meu capital cultural, e hoje eu consigo fazer esse capital ser rentabilizado para mim. Hoje eu uso da minha cultura pra exercer dos meus direitos trabalhistas e artísticos, então eu vivo do funk. Graças ao funk hoje eu tenho uma profissão e eu tenho muito orgulho disso”, relata. 
(Professora, dançarina e pesquisadora, Renata Prado - Foto: Instagram/@renattaprado)

“(...) Eu só quero ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci...”. Pausa para você, leitor, completar a música. Pronto?! É automático, não é?! Eu sei, eu sei... seja lá onde você estiver, se essa música tocar, você vai saber cantar. Essa letra é de um subgênero do Funk, o Funk Consciente, que fala sobre superação e vivência. Nos faz refletir e entender a visão de mundo de quem está cantando e de quem vive às margens da sociedade. Quem não lembra da Perlla? A cantora foi um dos ícones dos anos 2000, usando letras românticas em suas músicas, típicas do Funk Melody. E o “Bigode Grosso” da MC Marcelly? Essa faz parte do Funk Ostentação. 
 
O que quero mostrar trazendo essas relíquias? Quero te dizer que não existe música ruim. O Funk é “ruim” para quem não o escuta com respeito, não entende, nem quer entender sua história. Para quem não se dá a oportunidade de conhecer o gênero como um todo. Dizer que o Funk não produz música boa ultrapassa a linha de uma simples opinião. 

Do Proibidão ao Funknejo, das mais antigas às atuais, o Funk e seus subgêneros estão aí para todos os gostos. Basta escolher o estilo que mais combina com você e se divertir.

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