01/04/2021 às 22h56min - Atualizada em 01/04/2021 às 22h23min

Minoria uigur é alvo de intolerância religiosa na China

Regime chinês prendeu minoria étnica do oeste do país por razões ligadas à religião, como ter barba longa e usar véu

Sara Moreira - Editado por Roanna Nunes
Foto: Salvatore Di Nolfi/EPA
As perseguições contra determinados grupos nunca estiveram tão evidentes quanto está nos últimos anos. Em 2020 presenciamos protestos gigantescos por conta da morte brutal de George Floyd, que trouxe o movimento Black Lives Matter (Vidas Pretas Importam), criado em 2013, à tona novamente. Agora em 2021 estamos presenciando diversas manifestações em prol do movimento Stop Asian Hate (Pare o Ódio a Asiáticos), desde o começo da quarentena por conta da pandemia do coronavírus, asiáticos que vivem no ocidente estão sofrendo fortes ataques racistas e xenofóbicos.

Na noite do dia 16 de março um homem armado entrou e atirou nas pessoas que trabalhavam em duas casas de massagens em Atlanta, nos Estados Unidos. O incidente deixou oito pessoas mortas, entre elas seis mulheres asiáticas. Este foi o estopim para que pessoas asiáticas que vivem nos EUA fossem para as ruas protestarem, e nas redes sociais não foi diferente, diversas personalidades se manifestaram, entre eles o grupo sul-coreano BTS, a atriz canadense Sandra Oh e a atriz Ana Hikari estrela de Malhação — Viva a Diferença.

O caso mais recente está acontecendo na China onde os uigures uma etnia majoritariamente muçulmana estão sofrendo forte perseguição religiosa e cultural. Eles estão presos em dezenas de campos de concentração, chamados de campos de “reeducação” pelas autoridades do país. Famílias inteiras foram detidas e sofriam perseguições por autoridades chinesas.

De origem turcomena, os uigures habitam principalmente a Ásia Central. Os uigures são uma das 56 etnias oficialmente reconhecidas pela República Popular da China. Há também algumas comunidades uigures no Paquistão, Cazaquistão, Quirguistão, Mongólia, Uzbequistão e Turquia. Além de pequenas comunidades em bairros de grandes metrópoles como Pequim, Xangai, e também Toronto e Vancouver, no Canadá.

O governo chinês justifica que as prisões ocorrem devido o “combate ao extremismo religioso”. A emissora norte-americana CNN teve acesso a documentos do governo da China e alguns dos motivos para as detenções dos uigures são: prática ilegal de orações; uso de local não autorizado para orações; usar véu no rosto; ter uma barba longa; ter uma esposa que usa véu no rosto; “Possível radicalização” por ter familiares com tradições religiosas; peregrinação não autorizada.

De acordo com estimativas independentes, mais de um milhão de homens e mulheres foram detidos na extensa rede de campos. Alguns grupos de direitos humanos relatam que o governo chinês eliminou gradualmente a liberdade religiosa e outras liberdades dos uigures, culminando em um sistema opressor de vigilância em massa, detenção, doutrinação e até esterilização forçada.


O governo chinês nega esses dados e explica que, na verdade, se trata de “centros de treinamento profissional”, onde os uigures podem aprender o mandarim e se afastar da tentação islâmica.
 
FOTO: Reprodução/BBC

Relatos em primeira mão de dentro dos campos são raros, mas vários ex-detentos e um guarda disseram à BBC que experimentaram ou viram evidências de um sistema organizado de estupro em massa, abuso sexual e tortura.

Tursunay Ziawudun, que fugiu de Xinjiang após sua libertação e agora está nos EUA, disse que mulheres eram retiradas das celas “todas as noites” e estupradas por um ou mais homens chineses mascarados. Ela disse que foi torturada e posteriormente estuprada em grupo em três ocasiões, cada vez por dois ou três homens.

Ziawudun já falou com a imprensa antes, mas apenas do Cazaquistão, onde viveu com medo constante de ser enviada de volta à China, segundo ela. Disse também acreditar que se revelasse a extensão do abuso sexual que vivenciou e presenciou e fosse devolvida a Xinjiang, seria punida com mais severidade do que antes, por isso relatou estar com vergonha.

Países ocidentais impuseram sanções a autoridades na China por abusos de direitos contra o grupo minoritário uigur, de maioria muçulmana. As sanções foram introduzidas como um esforço coordenado pela União Europeia, Reino Unido, Estados Unidos e Canadá. O secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, Dominic Raab, disse que o tratamento dado aos uigures equivale a “violações terríveis dos direitos humanos mais básicos”.

Para além da guerra comercial, os Estados Unidos têm exercido pressão política contra o governo da China devido à repressão contra a minoria uigur. Pela primeira vez, o governo de Joe Biden acusou formalmente a China de cometer um “genocídio” contra a minoria muçulmana uigur em Xinjiang. A declaração foi assinada pelo secretário de Estado e consta no Relatório sobre Práticas dos Direitos Humanos, publicado na última terça-feira (30).

 
“Na China, as autoridades governamentais cometeram um genocídio contra os uigures, que são predominantemente muçulmanos, e crimes contra a humanidade incluindo aprisionamento, tortura, esterilização forçada e perseguição contra os uigures e membros de outras minorias étnicas e religiosas”, diz a apresentação do documento assinado pelo secretário Antony Blinken.
Segundo uma das porta-vozes do Ministério das Relações Exteriores, a chinesa Hua Chunying, a acusação “é uma grande mentira que viola o direito internacional”. Para a representante, o governo norte-americano “fabrica uma mentira atrás da outra, muito ultrajantes, como aquelas relativas ao genocídio e ao trabalho forçado”. “Isso é um verdadeiro absurdo”, acrescentou.

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