02/04/2021 às 09h36min - Atualizada em 02/04/2021 às 09h29min

Poesia feminina: como o isolamento social influencia as poetisas?

A relação entre as fases de produção e o que esperam os leitores

Lívia Oliveira - Editado por Roanna Nunes
Foto: arte de Lavínia Oliveira/Reprodução: Instagram

“Comungando com o caos,

dançando ao ritmo da vida. 

 

Ouvindo o sentir do pulsar 

do silêncio 

do coração e o calor 

do brilho que nasce 

no espaço profundo. 

 

Permitindo que o caos faça

parte de mim

de forma consciente 

dentro do eixo que me conecta” 

- Lavínia Oliveira

Certamente, é enfadonho dizer que a pandemia causada pelo coronavírus tenha mudado bruscamente a rotina e a vida de todo mundo ao redor do globo. Sejam profissionais da saúde, comerciantes, funcionários públicos, políticos, artistas… Qualquer que seja a classe trabalhadora, teve seu trabalho comprometido pelo isolamento. E, em meio a tanto home office e recolhimento, ter a cabeça no lugar para continuar produzindo tornou-se extremamente difícil.

Para as poetisas, a influência desse isolamento social pode ter variado um pouco, mas trouxe mudanças nos textos… Muitas vezes, a inspiração não vem. Se vem, esvai-se rapidamente, mostrando-se tão volátil quanto o álcool que usamos diariamente para nos protegermos do vírus. Como se já não bastasse essa luta para buscar o que produzir, ainda tem a camada de más notícias que recheiam a televisão, todo “santo dia”. Mensagens sobre esperanças ou até mesmo desabafos acerca da situação tornaram-se mais comuns na internet durante esse período.

Seguramente afirmo que toda a reviravolta do último ano tenha, sim, influenciado e mudado minha perspectiva em relação a inúmeras coisas. A melancolia e o desespero não só assolaram, também abraçaram, aninharam, deram beijo de boa noite e um conforto assustador. E isso não só para mim, mas também para Alice Souza, que costuma escrever textos e poemas na plataforma do Tumblr e, assim, desabafa seus sentimentos mais íntimos. Segundo ela, a influência da pandemia foi um pouco negativa para os seus textos, mas que tenta trazer um certo aconchego ao leitor.

“Sem boas vivências e inspirações, não há muito o que escrever. A reclusão e o ócio do isolamento tem matado inspirações, porque de fato, algumas pessoas a conseguem em situações sociais, sobretudo, físicas. Às vezes sento, pondero, e fico a almejar um mísero contato humano, cara a cara, risada com risada, para ver se a mente clareia e consiga pôr algo no papel" ou, quem sabe, no bloco de notas. Para os novos poetas dessa geração, isolar-se do mundo inteiro é voltar-se um pouco para si, por isso questionei: por que não escrever sobre mim, então? Porque se há um vendaval dentro de mim que não consigo controlar, por mais que eu tente, poderia usá-lo como tinta da minha caneta? Assim o fiz. Assim outras poetisas também o fizeram.

Entretanto, Alice, que ainda continua firme e forte com o seu blog de poesia, diz que embora esteja acostumada a ter uma abordagem melancólica, tem escrito sobre “a esperança por dias melhores, uma abordagem mais otimista e esperançosa, é o que o mundo precisa agora”. O mundo certamente precisa de mais esperança, de alguém que segure a mão e diga que vai ficar tudo bem, mesmo que tudo esteja despedaçando por agora. Essa é a mensagem que ela deseja transmitir.

Por outro lado, tem também aquelas que tiveram um pico na sua produtividade durante o isolamento. Lavínia Oliveira costuma escrever textos e poemas para o seu Instagram, com uma visão um tanto pessoal sobre suas experiências e aprendizagem, ela afirma: “Acabei sentindo a necessidade de expandir e ir além dos limites que foram impostos com o isolamento. Nutri minha criatividade e fiz com que ela estivesse cada vez mais presente no meu dia a dia.”

C
omo as influências são diferentes, uma vez que não temos mais contato com os mesmos conteúdos de dois anos atrás, a abordagem poética acabou passando por transformações. “Por se tratar de um período em que todos estamos vivenciando pela primeira vez, as pessoas ainda estão se redescobrindo dentro desse cenário, e a minha abordagem poética também sofreu mudanças com base nisso e diversos outros aspectos”, afirma Lavínia.

Com relação a sua perspectiva de vida durante o isolamento, ela diz que esses acontecimentos são experiências: “Aconteceu e está acontecendo, acabamos sempre visualizando as experiências de forma a observar alguns (ou vários) aprendizados que irão fazer parte das nossas vidas, a partir de agora. Essa perspectiva me possibilitou expandir mais minhas visões e sentidos sobre a vida e a mim mesma”.

Saber qual ponto tocar, como tocá-lo e se deve tocá-lo também é um grande empecilho durante esse período. Assim como Lavínia e Alice, encontrar inspiração tornou-se uma atividade um tanto cansativa para mim, pois não é tão fácil quanto parece. Pensei deveras sobre mensagens de esperança, positividade e sentimentos bons. Remexi meu interior, dos pés à cabeça, chacoalhando a alma para ver se pingava algo, nem que fosse um “tudo vai ficar bem em breve”, no papel.

Eu sabia que eventualmente iria ficar bem, mas não era só isso que se passava dentro de mim. De alguma forma, expor os horrores dos pensamentos soou como um acalento para mim, pois toda essa rotina de isolar-se do mundo pôde "gatilhar", ainda mais, ansiedades e angústias. Então, caso tenha me permitido o monólogo, digo que optei pela honestidade dos meus pensamentos e me rendi à melancolia.

Não obstante, é claro que tudo estará bem em breve e nem sempre haverá melancolia para contar nas poesias. Assim como eu, ambas poetisas nutrem esperanças sobre o amanhã. Lavínia deseja que “tudo esteja o mais seguro possível, que as pessoas possam transitar e realizar suas tarefas cotidianas de forma a se sentirem melhores e que sejam amparadas por profissionais (com psicólogos, especialistas da área) e pelo Governo”Já Alice tem como expectativa o mesmo de todos, que é voltar à rotina de outrora e, quem sabe, até mesmo viajar. 

No final respiro fundo, aceito o caos, porém, sabendo que um dia ele irá se dissipar e todo o agora, virará uma camada de memórias de um tempo que almejamos nunca repetir.

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