02/04/2021 às 16h35min - Atualizada em 02/04/2021 às 15h29min

Ataques à imprensa e violência contra jornalistas cresceu mais de 150% em 2020

O aumento desses casos está estritamente ligado às atitudes adotadas pelo presidente e seus apoiadores

Bruna Gomes - Editor: Ronerson Pinheiro
Foto: Presidente Jair Bolsonaro durante conversa com a imprensa e apoiadores no cercadinho da residência oficial - Reprodução: Arquivo/Antônio Cruz/Agência Brasil

Em 2020, os ataques a jornalistas no Brasil cresceram mais de 150% em comparação ao ano anterior. Os dados foram divulgados na última terça-feira (30), no relatório anual da Associação de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). As agressões, ofensas e intimidações representam quatro em cada cinco casos reportados. De acordo com o parecer sobre violações à liberdade de imprensa, nos últimos meses os ataques a jornalistas no Brasil se tornaram cada vez mais frequentes. No ano passado foram registradas mais de 180 intimidações diretas a profissionais dos veículos de comunicação. E pelo menos quatro em cada cinco casos destes ataques foram feitos por políticos, com destaque para o presidente Jair Bolsonaro.

Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o aumento desses casos está estritamente ligado às atitudes adotadas pelo presidente e seus apoiadores e ao descrédito da imprensa. A Abert classificou os dados como alarmantes, sobretudo durante a pandemia da Covid-19 com o distanciamento social, que ao invés de haver redução nos casos houve um aumento. Entre os meses de março a julho de 2020 foram registrados 59 ataques, isso representa um crescimento de 600% em relação a 2019, tendo em vista que no mesmo período foram apenas oito casos. 

Índices de violência no país

O Relatório da Violência publicado pela Fenaj em janeiro deste ano, apontou que o Centro-Oeste foi a região que mais registrou ataques a jornalistas no país, com destaque para o Distrito Federal que teve 120 ocorrências. Em segundo lugar está o Sudeste que passou a ocupar a condição de segunda região mais violenta para o exercício da profissão, com 78 ocorrências (28,26% do total).

No Sul do país foram 30 casos de agressão aos profissionais. Pelo segundo ano consecutivo o Paraná foi o estado com o maior número de ocorrências. No Nordeste ocorreram 19 casos de violência contra profissionais. Entre os estados da região, o Ceará continuou sendo o mais violento para a categoria, com sete casos. 

A região Norte registrou o menor percentual (5,44%) de ataques a profissionais da comunicação no país. Mesmo assim, as agressões têm sido cada vez mais frequentes. No fim de outubro do ano passado, o jornalista e apresentador, Romano dos Anjos, da TV Imperial, afiliada da Record TV em Roraima, foi sequestrado e torturado por bandidos que invadiram sua residência enquanto ele jantava com a esposa. Meses antes ele havia denunciado esquemas de desvio de dinheiro que eram destinados ao combate da Covid-19 no estado. O caso segue em investigação e até agora ninguém foi preso.

Ataques a jornalistas

Em agosto de 2020, ao gravar uma matéria que tratava sobre o aumento das vendas pela internet, a jornalista da TV Assembleia Roraima, Yasmin Guedes, foi hostilizada por uma motorista. A gravação estava sendo feita na Avenida Jaime Brasil, no centro da cidade, local que possui muitas lojas e comércios. “Nós fomos interceptados por uma pessoa que começou a desferir palavras bastante ofensivas, ela falou que tinha ódio da gente e que a imprensa era manipuladora e falou que a gente deveria parar de perseguir os empresários.”, conta.

Para a jornalista e advogada Simone Santos, a Constituição Federal é clara ao assegurar o direito à liberdade de expressão. “Isso é um direito fundamental de cada pessoa e coletivo, pois é assegurado pelo jornalismo como fruto do trabalho profissional.”, explica. Ela ainda destaca. “Quando essa liberdade de expressão passa a ser restringida isso dá espaço ao autoritarismo e censura.”, finaliza.

Recentemente uma equipe de reportagem da TV Imperial foi ameaçada enquanto gravava as rotas clandestinas entre o Brasil e a Venezuela. Muitos imigrantes percorrem esses trajetos para entrar no município de Pacaraima, já que a fronteira com o país vizinho está fechada há um ano devido a pandemia. O Jornalista Bruno Perez e o cinegrafista Carlos Paiva foram ameaçados por um brasileiro que atravessava a fronteira ilegalmente. De acordo com o repórter, ele e a equipe foram ameaçados pelo homem. “Nós estávamos filmando o fluxo das trilhas quando esse brasileiro foi até a nossa equipe e começou a ameaçar e xingar a gente. Além disso, ele apontou o dedo na minha cara e disse que ia me matar.”, conta.  Apesar de toda a situação, a equipe não sofreu violência física e as imagens coletadas durante a agressão foram veiculadas na reportagem que foi exibida na TV. 

Com o aumento acentuado de ataques à imprensa e aos jornalistas, os sindicatos regionais junto à Fenaj vêm cumprindo o seu papel de defender a categoria, denunciando as agressões ocorridas, cobrando das autoridades competentes apuração dos casos, além da identificação dos culpados e a consequente responsabilização e punição dos agressores. 

Segundo a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de Roraima (Sinjoper), Adriana Cruz, o sindicato regional também presta apoio por meio de denúncias públicas e outras assistências quando necessário. “Seguimos os protocolos da Fenaj e acompanhamos de perto todos os ataques à categoria. Temos apoiado também moral e emocional, por meio do contato direto de um dos nossos dirigentes, com o jornalista agredido, sempre que possível.”, explica.

Na última quinta-feira (1º), mais um jornalista teve sua integridade ameaçada em Roraima. O apresentador Diego Santos, do Grupo Norte de Comunicação, recebeu em sua casa um envelope com duas munições na caixa de correios da residência onde mora em Boa Vista. Junto com as balas, havia um bilhete com o seguinte recado: "A medida exata para silenciar qualquer denúncia". No mês anterior, o jornalista havia sido processado por chamar o governador do Estado, Antônio Denarium (PSL), de genocida devido às medidas adotadas por Denarium no enfrentamento à Covid-19. 

Após as ameaças recebidas pelo jornalista, a Polícia Civil de Roraima abriu um inquérito para investigar o ocorrido.


Editora-chefe: Lavínia Carvalho


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