11/04/2021 às 15h13min - Atualizada em 11/04/2021 às 15h05min

“Queernejo”: a representatividade na música sertaneja

Artistas LGBTQI+ criam nova tendência e conquistam espaço no gênero musical

Juliana Rodrigues - Revisado por Mário Cypriano
O estilo traz a diversidade dentro de um gênero com características fortes - Foto: Fatima Soares / Pinterest.
A ligação da música sertaneja com a comunidade LGBTQI+ iniciou nos anos 90 com a dupla Rosa & Rosinha. A comunidade alertava que os cantores não retratavam a essência do movimento no sertanejo. Com figurinos da cor rosa, homens heteros se apresentavam como homossexuais vindos do interior, misturando o humor às músicas que transformavam os gays em motivo de piada. Em março de 2021, a dupla anunciou a separação após 28 anos de carreira.

Com ajuda da tecnologia, os jovens cantores do interior do Brasil criaram uma nova ação para fortalecer a diversidade da comunidade no gênero musical. “Queernejo” é o termo usado pelos artistas LGBTQI+ que buscam o espaço no sertanejo brasileiro. Nessa tendência, existem também as ações “Pocnejo”, “Dragnejo”, “Lesbinejo”, “Transnejo”, etc. Essa nova vertente retrata muito além da música, pois são cantores que procuram representatividade, respeito e um lugar dentro do gênero musical que ainda é caracterizado pelo homem do interior, branco, hetero, que sofre de amor pela mulher amada.
 
“Acredito que a cena ainda seja pouco conhecida. A maior parte do público não sabe que existe um movimento. Pelo menos pro público geral, esse movimento ainda é uma novidade”, afirma André Piunti, jornalista e criador do site Universo Sertanejo na Uol. 
Piunti ainda diz que a “música sertaneja sempre foi popular e trabalhou pra ser cada dia mais abrangente. É fundamental que todos estejam inseridos dentro dela. Esses artistas só tem a acrescentar ao gênero”.
 

Dificuldades no Sertanejo


Ainda hoje, o gênero musical é considerado preconceituoso. O blogueiro Marcão, do site Blognejo, relata que é difícil os artistas se assumirem no sertanejo, mas que algumas cantoras já começaram a quebrar esse estereótipo.
 
“Para o LGBTQI+ é mais complicado, pois tem uma série de preconceitos que é cultivado dentro do sertanejo. A gente está começando a ter cantoras que começam a manifestar publicamente em relação as próprias orientações sexuais, como Lauana Prado e Luíza, da dupla Luiza & Maurílio”.
Marcão também aponta outra dificuldade: algumas pessoas conversadoras que são importantes dentro do estilo e criticam as novas culturas, orientações etc.

“É um segmento ligado ao agronegócio, por consequência, também já é ligado a tradições mais antigas. E como o sertanejo depende muito do dinheiro que gira no agronegócio através das feiras, acabam tendo de obedecer ainda que indiretamente certas 'regras' impostas aos longos dos anos”, afirma.

Para aumentar a representatividade da comunidade dentro do sertanejo, Piunti recomenda o apoio à causa para que os artistas possam produzir ótimos projetos.
 
“É necessário que o meio abrace o movimento, que as gravadoras entendam (todas elas já estão de olho). Pelo lado dos artistas, é importante que haja trabalhos interessantes, músicas boas, boas produções”, relata.

Artistas do Queernejo


O movimento “Queernejo” começou em 2019 com o cantor Gabeu lançando a canção “Amor Rural”. Depois disso, vários artistas se inspiraram e decidiram assumir fazendo parte da nova vertente, aumentando a presença da comunidade no sertanejo. Outros artistas, mantém a privacidade, embora tenham assumido romance, como a sertaneja Lauana Prado e Verônica Schulz, além da cantora Luíza, da dupla com Maurílio, que atualmente está com a ex-bbb Marcela Mc Gowan.

Confira abaixo os nomes dos artistas que levantam ainda mais a bandeira do arco-íris na música sertaneja.
 

Gabeu


O artista nasceu em Franca, interior de São Paulo. Filho do sertanejo Solimões, da dupla Rio Negro & Solimões, Gabeu já afirmou em entrevista que o pai sempre o apoiou muito após assumir a homossexualidade. Ele lançou “Amor Rural” pelas redes sociais em 2019.
 
 

Alice Marcone


A cantora é a primeira mulher trans negra do sertanejo. Ela é pioneira no “Transnejo”. Alice nasceu em Valinhos, interior de São Paulo, mas conheceu o novo “Queernejo” na capital paulista, onde achou a sua vocação. No ano passado, divulgou a sua primeira canção, "Noite Quente”.
 
 

Gali Galó


A cantora é lésbica não-binária, tem a influência do sertanejo por conta da infância que passou em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Gali entrou no sertanejo após saber da repercussão de Gabeu. Em 2020, lançou a música “Caminhoneira”.
 
 

Reddy Allor


A primeira artista do “Dragnejo” é de São José do Rio Preto (SP), performada por Guilherme Bernardes. O artista chegou a fazer dupla com o irmão Gabriel. Entretanto, depois que terminou a parceria, criou a Reddy. O hit inicial foi “Tira o Olho”, que teve o compartilhamento da cantora Marília Mendonça no Twitter.
 
 

Zerzil


O cantor é mineiro de Montes Claros e se identifica como gay não-binário. Luta “por uma música sertaneja mais viada”, assim como descreve nas redes sociais. Atualmente, Zerzil mora na capital paulista e seu primeiro sucesso foi “Garanhão do Vale”.
 

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