19/06/2021 às 16h32min - Atualizada em 19/06/2021 às 16h18min

2021: o novo 1984

A famosa distopia do século XX refletida na realidade brasileira

Daniela Palmeira - Brenda Freire
Fonte: Reprodução/ Google

            Em 1948, o jornalista e escritor britânico, George Orwell finalizava um de seus livros mais famosos: 1984. O romance distópico – histórias que retratam uma “realidade” de extrema opressão, desespero ou privação – tornou-se um clássico da literatura por retratar escancaradamente o totalitarismo e o perigo de uma sociedade totalmente dominada pelo Estado. Após ver de perto o estrago das grandes guerras mundiais e agora, o início da polarização da Guerra Fria, Orwell percebeu como o poder excessivo nas mãos do Estado é uma ameaça a toda forma de democracia. 1984 nasce para além de uma premonição do autor, mas sim, como uma forma de alerta.
            A história do livro se passa no ano de 1984, em um superpaís denominado Oceania - um Estado totalitário governado pelo Grande Irmão. A Oceania encontra-se há muitos anos em meio a uma guerra interminável, por isso o país passa por escassez de alimentos e bens de consumo. Todo o esforço, investimentos e desenvolvimentos conquistados, são voltados para a guerra.
Além disso, os moradores desse país são vigiados 24h por dia através de um aparelho chamado tele-tela que está continuamente atrás deles, impedindo-os de fazer qualquer atividade que vá de encontro às ideias do governo. Ao longo da história acompanhamos a trajetória e os devaneios de Winston Smith, um funcionário público que trabalha em dos ministérios que controlam as pessoas da Oceania: o Ministério da Verdade.
            Nesse ministério, Winston é responsável por falsificar documentos oficiais que contrariam os ideais do Grande Irmão, pois esse, nunca erra. Dessa forma, diversos registros históricos são a todo momento modificados e transformados em acontecimentos que favorecem o governante. Em um determinado momento do livro, Winston começa a perceber não só a gravidade dessa atividade, mas que ele também é alvo desse ciclo de informações. Nem ele mesmo se lembra de coisas que aconteceram em um passado recente, não lembra do ano em que se encontra atualmente.... As únicas informações que Winston se lembra, são as palavras do Grande Irmão e dele não há por que duvidar.
           Seguindo fielmente os passos do Grande Irmão, Jair Bolsonaro governa o Brasil. Em diversas declarações por exemplo, o presidente já afirmou que não houve ditadura no país e o que aconteceu foi uma “transição pacífica de poder”. Em uma matéria do site Agência Brasil é destacada uma entrevista em que o presidente participou, afirmando que “Nunca tivemos, nas Forças Armadas, uma política de estado repressiva dessa forma que tentam o tempo todo botar na nossa conta.”, relata.
De encontro a política que vemos refletida em 1984, o presidente desconsidera todos os fatos, estudos e comprovações históricas que comprovam que a ditadura realmente existiu. Ele simplesmente ignora e reverbera em alto e bom som informações falsas, mas que o favorecem em algum nível, seja despertando e convencendo pessoas que essa é a verdade, seja ganhando aliados. Ambos continuarão a ecoar suas palavras. Muitos desses, pior do Winston Smith, não vão se dar conta da manipulação.
           Ainda nesse caminho, agora no Brasil pandêmico de 2021 muito mais próximo de um cenário distópico do que Orwell já ousou imaginar, estamos a todo momento sendo vigiados por nossas tele-telas portáteis, que carregamos sempre em nossos bolsos, leia-se smartphones. Essa oportunidade de se fazer presente e afirmar suas verdades o presidente também não poderia perder. Em live realizada nesta quinta-feira, 17, por meio de suas redes sociais, Bolsonaro disse que contaminação pelo coronavírus é mais eficaz do que as vacinas contra a doença. Segundo o presidente “Todos que contraíram o vírus estão vacinados, até de forma mais eficaz que a própria vacina (...). Quem pegou o vírus está imunizado, não se discute”, conta.
           É assim que mais uma vez milhares de pessoas ligadas as redes sociais, são bombardeadas com informações sem nenhum embasamento. Falas ditas para justificar a morosidade com que se dá o processo de vacinação no Brasil, pois no final das contas é mais eficiente ser contaminado a estar vacinado. Como um estímulo à esse pensamento, o presidente ainda defende a desobrigação do uso de máscara – algo essencial para diminuir a possibilidade de contágio do vírus.
           Na contramão dos achismos de Bolsonaro, o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, o médico Renato Kfouri, em matéria do site Poder 360, afirma que “os dados mostram que às vezes por 4, 5 ou 6 meses dificilmente ocorre alguma reinfecção. Como já temos 1,5 ano de pandemia, a chance de reinfecção aumenta, já que a tendência é que a imunidade se perca com o passar do tempo”. Kfouri diz também que o Brasil só pode relaxar o uso de máscaras quando a taxa de transmissão do vírus for baixa e restringir essa medida agora seria uma atitude prematura que “comprometeria todo o esforço que vem sendo feito para controle da transmissão”, completa.
           O cenário fictício criado por Orwell em muitos momentos pareceu estar distante, ou mesmo impossível de acontecer, no entanto mais do que nunca nos vemos diante dessa realidade como uma possibilidade visível e palpável. A cada dia, governos totalitários se fortalecem e buscam formas de continuar exercendo seu poder. Isso não é uma novidade, nada atual que o mundo já não tenha visto, no entanto é, e nunca deixará de ser uma ameaça a democracia e a liberdade do povo. George Orwell deixa 1984 como um aviso, um conselho de que – nas palavras do autor – “Se não for combatido, o totalitarismo pode triunfar em qualquer parte”.

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