30/06/2021 às 15h19min - Atualizada em 24/06/2021 às 01h32min

Leituras coletivas na pandemia e as formas de ler e compartilhar histórias

Leitores vêm nos clubes de leitura a motivação para ler e se reunir virtualmente para debater e trocar ideias

Evellyn Torres - Editado por Talyta Brito
Reprodução/ Pixabay

Seja na Twitch, chamadas de vídeo, grupos no Telegram ou Whatsapp, as pessoas criaram e adaptaram formas de ler em conjunto em meio ao isolamento social.
 

Os encontros para debater livros e compartilhar experiências existem há séculos e já faziam sucesso antes. Com a internet seu alcance aumentou, e com a pandemia do coronavírus, os clubes presenciais migraram para o ambiente digital. 
 

Desde março de 2020 para cá, elas ganharam mais destaque, principalmente nas redes sociais e instagrans literários, os famosos bookstagram. A leitura pode ser um processo individual, mas também consegue ser mais proveitosa quando compartilhada, desde que de maneira segura. Como um meio de espantar a solidão e continuar motivado elas são organizadas, é o que conta as organizadoras e participantes dos clubes.
 

A jornalista e criadora da página @dicasdejornalismo no Instagram, Ana Flávia Lourenço, de 25 anos, é organizadora do “Clube do Livro de Uberaba”, criado em setembro de 2019. Através do clube Ana teve contato com diversas leituras e fez várias amizades. A motivação para criar um surgiu na mudança de cidade, para Uberaba, município no interior de Minas Gerais. Procurei um clube do livro e não tinha nenhum! No início, fiquei um pouco resistente em criar, mas quando criei, me veio de volta a sensação de poder compartilhar histórias incríveis com pessoas tão empolgadas quanto eu.”
 

Com receio de ninguém participar, chamou duas amigas para ajudarem “O primeiro encontro presencial foi um enorme frio na barriga, mas deu tudo certo! Conseguimos encontrar pessoas por meio do instagram e hoje o grupo tem mais de 50 pessoas e o instagram mais de 500 seguidores.”

 


Desde o começo da pandemia, os encontros migraram para o Google Meet - serviço de chamada de vídeo - e debates no Whatsapp, para a escolha das novas leituras de cada mês e sorteios, os gêneros sempre variam. Com 20 leituras coletivas realizadas em 19 encontros, Ana percebeu duas coisas. A primeira é que a quantidade de pessoas nos encontros online é menor, ela explica “As pessoas gostam mesmo da experiência de conversar pessoalmente, bater esse papo em um ambiente agradável" A segunda é “Com o clube do livro eu descobri que amo livros de suspense e ficção científica, gêneros que eu nem pensava em experimentar antes.”

 

Giovanna Sabbatini participou da primeira LC (Leitura Coletiva) esse ano e considerou a experiência incrível. De Campinas, São Paulo, com 20 anos, é estudante de direito e bookstagram. No Insta @_estantedagi, compartilha o seu amor pelos livros, leituras e personagens. 
 

Antes de participar eu não entendia muito bem a dinâmica, achava que não conseguiria acompanhar e que não iria gostar. Eu me enganei! Acabei amando cada segundo. Ter alguém lendo ‘junto’ com você é uma experiência única e torna a leitura mais divertida!.”

Com isso, ela decidiu que iria organizar uma LC. Em maio, divulgou sobre os livros da Cassandra Clare, escritora best-seller norte-americana, famosa pelos livros de fantasia. “Desde o começo do ano queria reler os livros e como é uma série longa e sei que muita gente quer ler mas não tem um incentivo ou motivação diária, eu decidi me tornar esse incentivo e essa motivação", conta. 
 


A LC começa no dia 25 de junho e não tem data para terminar, com um grupo formado no Telegram - serviço de mensagem - para debater os livros, compartilhar fanarts e playlists, além de um encontro no Google Meet ao fim das leituras. Todas as informações para participar estão na insta da Giovanna e nos destaques. 

 

Para ela, a leitura em conjunto e os clubes ajudam a aproximar as pessoas na situação atual, “Precisamos aproveitar o melhor possível essa ferramenta que é a internet. Já participei de LCs com pessoas de todos os cantos do Brasil! Além disso, quando você tem alguém lendo junto com você, automaticamente você se sente motivado a ler. Não necessariamente por obrigação, mas por diversão e curiosidade. A discussão no fim do dia, ou no fim da semana, é muito gostosa e te deixa com aquela sensação de quero mais. Poder conversar com alguém sobre uma história, um mundo fantástico, personagens… é algo maravilhoso para todo leitor”, diz. 

 

Mayra Cardozo, com 20 anos, é estudante de jornalismo. Da Zona Norte da cidade de São Paulo participou do primeiro clube de leitura durante a pandemia. Criado por uma amiga, o que a motivou a participar foi seu gosto pela leitura, mas que por conta do tempo não conseguia ler muito. Assim, viu no clube uma motivação.
 

“Eu gostei demais de ouvir as opiniões que cada uma tinha sobre o livro. Também é interessante como, às vezes, cada pessoa percebe um aspecto diferente do livro que as outras podem não ter notado, então acaba sendo muito enriquecedor.”

Participando desde dezembro de 2020, ela comenta sobre a experiência “O fato de o clube de leitura ter sido criado durante a pandemia fez com que ele fosse ainda mais interessante, por que ele acabou sendo algo para eu fazer com as minhas amigas todo mês, sendo que no momento a gente não tem como sair juntas para algum lugar, por exemplo” Cada mês é feito um sorteio no grupo no Whatsapp para decidir a próxima leitura e as datas. As reuniões são realizadas por chamada de vídeo, na plataforma Zoom. 

 

Raíssa Souza foi conhecer o termo LC durante a pandemia e a sua primeira experiência participando não foi das melhores. Ela conta que foi desorganizada. Com a tentativa falha, conversou com uma amiga e viu que ambas tinham o interesse de ler o livro “Deixe a neve cair” escrito por John Green, Lauren Myracle e Maureen J. Em seguida, organizaram a própria Leitura Coletiva. 
 

2020 foi o ano em que mais leu. Com 18 anos, mora em Aracaju e é estudante de jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe. Criou o bookstagram no mesmo ano, chamado @meuhobbyleitura. Depois da leitura bem sucedida, criou outra no início de 2021 com mais dois amigos. Com aproximadamente oitenta pessoas no grupo do Whatsapp, o objetivo era ler os livros da série ACOTAR, de fantasia adulta, da escritora norte-americana Sarah J. Maas. 

 

 

No final, mesmo com alguns spoilers pelo grupo grande, a LC foi concluída com sucesso. Ela conta que evoluiu para um grupo de desafios “Como o grupo deu muito certo, todo mundo comentava muito, não só sobre ACOTAR, mas sobre vários livros, a gente decidiu que quando terminasse de ler a série, iria ficar um grupo de desafios. A gente dá um prazo e um tema.”
 

Os desafios consistem em ler livros diferentes, como ter uma personagem feminina na capa, ser estrangeiro ou nacional. 

 

Lilach Prates, tem 27 anos e é de Salvador, Bahia. Advogada e escritora, publicou o seu primeiro livro ano passado, “O Vale dos Vaga-lumes”, pela editora Delirium, uma releitura de fantasia mais sombria de Alice no País das Maravilhas. A escritora já realizou diversas leituras coletivas no Telegram e através do seu bookstagram @comamorlilah. Atualmente, realiza as LC e os sprints - momentos para focar em algo, seja ler, trabalhar ou estudar - através da Twitch, plataforma de streaming ao vivo de vídeo.

 

Ela conta que criou um canal na Twitch porque estava com dificuldades para ler o tanto que lia antes. “Mesmo no tempo que eu tinha pra ler, eu não lia porque eu estava procrastinando, tava com problema de ansiedade também. Eu sou diagnosticada com depressão, então é bem complicado e um dos sintomas é a gente parar de fazer aquilo que a gente gosta, né?.”

 

Tendo lido dois livros no ano, resolveu criar o canal e arriscar. “Eu tava até com medo, né? Conversando com minha amiga, Thaís, que também é escritora, eu falei assim ‘poxa, eu fico com medo de não ter ninguém lá pra ficar lá comigo’ E aí, ela falou: ‘não, pelo menos uma pessoa vai ter, que sou eu.’”

 

Agora, o canal da Lilach na Twitch passa dos mil seguidores. Na plataforma realizou as Leituras Coletivas dos livros: Sempre Vivemos no Castelo de Shirley Jackson; A Tríade das escritoras brasileiras, Thaís Cima, Raíssa Arenhardt e Carol Oliveira e; finalizou no dia 30 de junho a obra O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett. Todas as informações de sprint e leituras futuras estão no canal e no Insta da Lilah.
 


Fora da Twitch, organizou a LC no Telegram de “Celeste Dança Sob Covas Rasas”, livro nacional da escritora Thais Cima, ela conta que foi uma das leituras favoritas. Além da experiência de compartilhar histórias e criar uma rotina, Lilach fala sobre a participação das escritoras nas leituras e debates “Os nacionais estão ganhando espaço, mas ainda muito pequeno dentro desse mercado. Tem que impulsionar e motivar cada vez mais a leitura desses livros. E eu fico muito feliz das autoras estarem comigo nessa.” 
 

Para a streamer e escritora, as LCs na pandemia ajudaram, ela diz “Durante a pandemia, eu tive altos e baixos, tanto que durante a pandemia eu escrevi meu livro. Então, não foi assim, totalmente perdido, mas teve um momento que eu estava me sentindo um saco de batatas. Inútil. E eu não conseguia ler, não conseguia escrever e as leituras coletivas e o canal na Twitch me ajudaram muito a voltar a esse ritmo, sabe? Eu leio todos os dias. Eu fico muito feliz com todas as leituras que eu fiz durante esse tempo, porque foi o objetivo ler mais e eu li muito mais.”

 
 

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