06/08/2021 às 09h25min - Atualizada em 06/08/2021 às 09h10min

Simone Biles: saúde mental em primeiro lugar

A ginasta desistiu de participar da final por equipes da Tóquio 2020 para cuidar de sua saúde mental

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Talyta Brito
Fonte/Reprodução: Google
Em ano de Olimpíadas os olhos de todo o mundo se voltam para os atletas de alto nível. Pessoas vistas como extraordinárias por seus desempenhos incríveis e performances perfeitas. Neste ano, após o longo adiamento devido a pandemia de Covid-19, estamos vivenciando a Tóquio 2020. Uma grande ginasta chamou atenção para si não por uma notável conquista, mas sim por desistir de competir em etapas finais dos jogos. No último dia 27, Simone Biles desistiu da final por equipes, depois de competir apenas no salto, um dos quatro aparelhos. Ela declarou que estava dando prioridade a sua saúde mental. Foi essa declaração que ganhou atenção e repercussão mundial.
 
 Atletas são vistos, muitas vezes, como heróis ou, até mesmo, como máquinas de executar movimentos determinados. E não, eles não são diferentes de nós, possuem uma estrutura física e psíquica que é afetada por diversos fatores internos e externos. Biles com sua decisão permitiu a problematização da questão da saúde mental que tem grande influência no desempenho dos atletas, e tem sido por vezes negligenciada em meio às exigências diversas do mundo dos esportes. Olhar com atenção para esse aspecto de nossa estrutura não é frescura ou perda de tempo, o ser complexo que somos precisa ser tratado como um todo, todo esse que inclui o aspecto psicológico.
 
A atleta corajosa, Simone Biles, tem 24 anos, é uma ginasta profissional dos Estados Unidos. Ela foi a primeira ginasta na história a obter cinco títulos mundiais na prova do individual geral de ginástica artística. Sua primeira participação nas Olímpiadas foi na Rio 2016, na qual se destacou ao subir ao pódio cinco vezes, com quatro medalhas de ouro e uma de bronze. Biles é especialista em saltos acrobáticos e saídas perfeitas e está entre as melhores ginastas do mundo. Com certeza ela e toda a equipe esperavam aumentar ainda mais esse histórico de conquistas ao participar de um evento grandioso como as Olimpíadas. Então, de repente, ter a percepção que não daria conta e declarar sua dificuldade, foi um ato de muita coragem, o qual despertou mundialmente os olhares para a importância da saúde mental.
 
Afinal o que realmente aconteceu para essa tomada de decisão por Biles? O stress sofrido pela atleta desencadeou algo denominado “twisties”, uma desconexão entre cérebro e corpo, que faz perder a noção de espaço e movimento.  A atleta declarou a jornalistas o que sentiu: "Não entendi o que aconteceu. Não sabia onde estava no ar".  Isso pode comprometer a capacidade do atleta de pousar em segurança após uma manobra e, assim, provocar lesões físicas. Com prudência decidiu que o melhor para si, no momento, era cuidar da saúde mental, para não correr o risco de afetar também seu corpo físico devido a esse quadro.
 
O psiquiatra Daniel de Barros, em seu canal no YouTube, fez algumas considerações sobre a atitude de Simone Biles e alertou para a necessidade de priorizarmos nossa saúde mental. Algumas questões levantadas por ele para reflexão foram: será que vale a pena levar o nosso esforço até o sacrifício pessoal? Será que vale a pena a gente adoecer pelo nosso trabalho? Vale viver uma exaustão por um resultado?
 
Daniel de Barros ao interpretar a decisão de Simone Biles resume da seguinte maneira: “A gente não é máquina, não é um instrumento que entrega resultados de forma linear e ascendente, a gente tem limite, e eu preciso preservar a minha integridade”. Ele pondera que o dia a dia dos atletas e as pressões que vivem pela entrega de resultados não se comparam com nossa rotina comum, o estresse vivido por eles é devido a cobrança pela entrega do melhor sempre. Nós podemos fazer um trabalho apenas na média, aceitável, e ainda assim, sermos bons no que fazemos, entretanto para os atletas não existe essa possibilidade do mais ou menos, precisam dia a dia dar o melhor. É nesse contexto de exigência que a atitude de Biles deve ser considerada, ela entendeu seu limite e a hora de parar.
 
O psiquiatra considera que o mundo está mudando e acredita que isso é reflexo de duas coisas: dessa nova geração que entende que o trabalho é importante, mas não é tudo, percebem que “a gente não é só trabalho”. E, além disso, é reflexo da pandemia de Covid-19 a qual “tornou a saúde mental um assunto de manchete, a saúde mental se tornou importante, se tornou um assunto de primeiro plano”. Ele destaca como positiva essa mudança atual e aponta um legado da Tóquio 2020:
 
“Nós como sociedade valorizando a saúde mental das pessoas. Isso é o grande legado dessas Olimpíadas, eu acho que, talvez esse seja o maior marco, a maior mudança, que essas Olimpíadas vão ter, foi trazer essa discussão para o primeiro plano.”
Mesmo tendo desistido de participar de várias finais Biles ainda conquistou duas medalhas na Olimpíada de Tóquio: uma medalha de prata, na trave, e outra de bronze, por equipe. No dia 3 de agosto Biles conquistou a medalha de bronze na trave de equilíbrio. Ela se despede das Olimpíadas com mais essas conquistas, entretanto sua maior contribuição histórica será sua corajosa atitude em admitir a necessidade em cuidar de sua saúde mental e despertar o mundo esportivo para esse aspecto essencial na vida dos competidores e no cotidiano de todos nós.  
 

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