20/12/2021 às 11h11min - Atualizada em 08/11/2021 às 00h42min

Um messias entre nós – perigo à vista?

Quando uma figura que se diz messiânica promete a salvação, mas não oferece muito mais do que ilusões a seus seguidores.

Rafael Dias - Editado por Larissa Bispo
Cena da graphic novel “O Messias” (Batman: The Cult, 1988, DC Comics) //Reprodução: Google Imagens
Sobre messias e autoridades políticas

“Messias: [Religião] Segundo o judaísmo, o descendente humano do rei Davi, capaz de restaurar Israel e o reino de Davi. [Religião] Para o cristianismo, Jesus Cristo. [Figurado] Aquele que é muito esperado. [Figurado] Quem toma frente de algo (religião, partido político, sociedade etc.). Etimologia (origem da palavra messias). Do aramaico mesiha; pelo latim messias.ae.”.
  
Entre todos os pensadores que se debruçaram sobre o tema sociedade, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920) sempre merece ser lembrado. Graças a ele, analisar contextos relacionados a sistemas de dominação – nas quais um indivíduo ou um grupo deles se propõe a comandar, enquanto o restante das pessoas deste meio, por exemplo, uma comunidade, cidade, estado ou país, reconhece tal liderança e aceita ser comandado – tornou-se uma tarefa mais simples.

Para o estudioso, existem três tipos de dominação em um ambiente social e com base neles é constituída a chamada legitimidade de uma autoridade política.

Quando ocorre o tipo tradicional, quem obedece é chamado de súdito; quem lidera é o senhor ou patriarca, competindo a este último governar com base na defesa e preservação de costumes e tradições. É possível até mesmo ao líder agir conforme sua vontade, o que pode lhe dar ainda mais poder. Sultanatos árabes ou tribos africanas exemplificam bem este tipo.

Em outras vezes, pode surgir uma autoridade política carismática, baseada essencialmente na fé popular em um líder. Este é dito um profeta e recebe o apoio dos seguidores ou apóstolos. Tudo se baseia no carisma do líder, que recorre a mecanismos como oratória para exercer influência e associa sua imagem a milagres, fatos mágicos ou sobrenaturais junto ao povo. Por isso, precisa sempre demonstrar força e constância, nunca fraqueza ou hesitação. Caso contrário, pode ser abandonado pelos fieis que, nestas circunstâncias, se julgam enganados.

Por fim, outro tipo vislumbrado por Weber é o legal ou burocrático, baseado nas leis. Aqui, há regras para se chegar ao poder e se adquirir autoridade, geralmente por meio de eleições, bem como limites sobre a atuação do mandatário. Todos possuem não apenas direitos, mas também deveres dentro da sociedade.
 
Uma ideologia chamada fascismo

O ano era 1922; o local, a Itália; o ideólogo, Benito Mussolini (1883-1945); o objetivo, realizar a Marcha sobre Roma no dia 28 de outubro, pressionando o então rei Vitor Emanuel III, a nomear Mussolini como seu primeiro-ministro; o resultado, uma forma de governo de extrema direita baseado na ascensão do Partido Nacional Fascista italiano.

A partir deste evento, que se espalharia em outras partes do mundo, como a Alemanha, na forma do nazismo, o mundo conheceu a ideologia do fascismo. Nela, determinadas características sempre eram encontradas: um sistema de governo unipartidário; a adoração de um líder político visto como o salvador da nação; o desprezo pelo liberalismo e por ideais de esquerda; a vitimização de determinados setores da sociedade, favoráveis ao governo, cujas demandas deveriam ser atendidas; a discriminação e a perseguição de opositores; o uso da retórica e do discurso nacionalista, voltado para a mobilização da população; e o controle total do Estado sobre tudo e sobre todos.

Mesmo com o fim da Segunda Guerra Mundial, tal ideologia não foi plenamente extinta, apresentando resistência ao longo das décadas seguintes e, inclusive, servindo de norte para governos no século XXI.
 
Enquanto isso, em uma cidade chamada Gotham City
 
O ano era 1988; o local, os estúdios de criação artística da editora DC Comics; os envolvidos, o roteirista Jim Starlin, o desenhista Bernie Wrightson e o colorista Bill Wray; a missão, ingrata, lançar uma graphic novel e nela colocar de joelhos um lendário personagem das histórias em quadrinhos, aclamado mundialmente por sua legião de fãs; o resultado, a história Batman: O Messias.

Encorajados pelo sucesso da saga Cavaleiro das Trevas, iniciada por Frank Miller dois anos antes, a equipe concluiu o projeto. Ao contrário daquela saga, na qual o homem morcego era retratado já envelhecido, nesta, Batman contaria com outros tipos de problemas, causados por um novo antagonista: o carismático líder religioso diácono Joseph Blackfire.

Atuando incógnita, o vilão arrebata uma legião de seguidores, a maioria formada por indigentes e pessoas sem maiores perspectivas, e os reúne de forma clandestina nos esgotos da cidade. Falando de forma moralizadora, Blackfire se julga uma figura messiânica e salvadora de uma cidade corrupta e violenta. Para isso, não mede esforços em aplicar um conceito radical que considera a cura diante da lepra: sequestrar e assassinar um por um os criminosos da cidade – ou aqueles convenientemente vistos por ele ou seus asseclas como uma ameaça à salvação, dentre eles, cidadãos comuns, jornalistas e políticos.

Batman, pego de surpresa, termina capturado e é convertido à força, em uma série de rituais envolvendo privação de alimentos, tortura e o emprego de drogas alucinógenas, capazes de tirar a razão do protagonista pouco a pouco. Se, por um lado, o álter ego de Bruce Wayne precisa ser desestabilizado física e psicologicamente para aceitar o messias, os demais seguidores não precisam de muito. As palavras do líder religioso fazem ecos em suas vidas perdidas, uma oportunidade de deixarem a condição de marginalizados e tomarem a cidade para si, mediante atos insanos de violência e extremismo, explicitados ao longo da história em quadrinhos.

Para isso, repetem parábolas sobre a suposta origem santa do líder religioso; acreditam na restauração de um tempo passado, no qual o crime não dominava a fictícia cidade; adoram um totem; recusam-se a pensar por sua própria vontade; atacam qualquer pessoa que julgam estar fazendo algo errado, como se fossem a personificação de uma justiça que julga, condena e executa a pena; colocam-se como vítimas da sociedade e, por isso, destroem e saqueiam casas e ruas; e forçam dissidentes a trabalhos escravos em benefício do diácono, considerado o “caminho, a verdade e a vida”.

Mesmo sendo uma farsa, o reverendo vive às escondidas de modo bem diferente dos seguidores, em um impenetrável e luxuoso aposento. Para a perplexidade de Batman, o discurso radical do líder consegue polarizar Gotham e até receber apoio de parte da sociedade, alheia ao modo de pensar e agir do diácono, mas satisfeita com o ataque a criminosos, feito pelos fanáticos da seita.

Típico exemplo de um líder carismático, Joseph Blackfire pretende deixar um legado em forma de religião e, para isso, não descarta se tornar um mártir enquanto destrói o clássico mecanismo de liderança legal, apontado por Max Weber.
 
Enquanto isso, em um país chamado Brasil
 
O ano era 2018; o local, o Brasil; os envolvidos, grupos de extrema direita; a missão, eleger um discurso supostamente anticorrupção, porém contraditório, com sinais de preconceito a grupos minoritários e de desinteresse pela própria democracia; o resultado, a eleição de alguém com nome de batismo Messias.

Quase três anos depois de uma eleição tumultuada, o mundo visualiza perplexo um país contraditório e polarizado. De um lado, uma parcela de brasileiros, apelidada de “gado”, segue alguém por eles chamado de mito; não se importa com os riscos que corre em plena pandemia, desprezando o uso de máscaras, promovendo aglomerações e criticando vacinas em apoio a um líder isolado internacionalmente e dependente, no plano interno, de grupos políticos em outras oportunidades criticados por ele; defende estranhamente como democrático seu direito de ir às ruas pedir o fim da própria democracia; agride dissidentes em nome do governante federal; coloca-se como vítima diante de inimigos imaginários; condena privilégios de opositores, mas ignora os conquistados – e mantidos – pelo grupo da situação; apoia prisões de quem se manifesta contra o governo; defende a disseminação de mentiras, boatos e climas conspiratórios; enxerga a Ditadura Militar no Brasil (1964-1985) como um regime de progresso e não de opressão; nega a destruição em massa do meio ambiente, embora vista a olhos nus por todos. De outro lado, críticos são considerados antipatriotas por pró-governistas.

Novamente, aqui, vê-se exemplo de apelo ao modelo carismático descrito por Weber; vê-se a rejeição às obrigações e limites estabelecidos em lei.
 
Mera coincidência?
 
Jason Stanley, pesquisador da Universidade de Yale e autor do livro “Como funciona o fascismo – A política do ‘nós’ e ‘eles’”, refletiu sobre o tema em dez capítulos, com um olhar voltado para o Brasil. Segundo ele, a ideologia fascista recorre à exaltação de um passado mítico e supostamente perdido injustamente; faz uso de propagandas baseadas em irrealidade, contradições, puritanismo e inversão de contextos; ataca a liberdade de pensamento; defende a permanência do grupo dominante no poder e o vitimiza diante de opositores; prega a lei e a ordem segundo seus interesses particulares; considera justificável a submissão de dissidentes.

As semelhanças entre a ficcional história em quadrinhos de Batman e o atual contexto político brasileiro não são frutos de mera coincidência: ambas remontam à ideologia iniciada por Mussolini em 1922, relembram modelos de dominação trazidos à luz por Max Weber anos antes, seguem a estrutura lógica apontada por Stanley e são exemplos da relativização do termo “messias”, passível de ser usado como mera massa de manobra social.

Se alguma dúvida ainda resta, vale o resgate ao próprio conceito original de messianismo: um movimento liderado por alguém que pensa no próximo em primeiro lugar, não em si próprio, tudo sem almejar o poder ou a autopromoção. Logo, permitir a distorção do significado real de um messias - um salvador e guia altruísta -, não apenas pode ser equivocado, mas também perigoso. Batman – e os brasileiros – que o digam.
 
 
 

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