26/11/2021 às 01h07min - Atualizada em 26/11/2021 às 00h32min

A importância da representatividade negra na literatura infantil

Literatura é reconhecida como umas das melhores formas de expressão e representação da diversidade, além de ser essencial para educar e informar, proporcionando uma quebra de paradigmas e preconceitos necessária desde a infância até a idade adulta

Emily Prata - Editado por Andrieli Torres
Ilustração: Reprodução/Internet

A literatura clássica infantil, assim como a adulta, possui uma grande falha no quesito representatividade racial. Tanto pelo fato de brancos terem possuído o privilégio da educação e letramento durante séculos, quanto pela estrutura social desses períodos. Mas hoje a sociedade passa por mudanças e compreende a necessidade de representação racial nas histórias infantis.

 

No Brasil, se tem uma predominância cultural de valorizar e privilegiar os valores étnicos-raciais brancos, principalmente os de raízes européias, a cultura e padrão estético negro, africano e indígena, sempre foi esquecido, colocado de lado na história. Assim convivemos com ideologias, desigualdades e estereótipos racistas. Apesar desses estereótipos, ou para superá-los, no ano de 2003, foi sancionada uma lei que garante a inclusão do estudo das culturas afro-brasileiras no currículo escolar.

 

A cultura negra por muito tempo foi marginalizada e cercada de diversos preconceitos, assim como a imagem do negro sempre foi colocada de forma negativa, seja dentro dos filmes, séries e novelas, mas também na literatura, seja ela adulta ou infantil. Mas com esse novo cenário que a lei proporciona, a cultura negra e africana tem uma possibilidade de visibilidade e reconhecimento, fator essencial para estimular a produção de conteúdo literário infantil que trazem cada mais protagonismo negro. 

 

HISTÓRICO

 

Os livros infantis são utilizados por professores, pais e bibliotecários para estimular as crianças a descobrirem os prazeres da leitura, além de ser uma forma de estimular o desenvolvimento emocional e intelectual das crianças. O livro proporciona, além disso, diversão e entretenimento, sendo utilizado como forma de distração e recreação. As histórias infantis podem e devem ser usadas para estes fins. 

 

Os livros infantis surgem no século 18, na França, e aos poucos vão se expandindo por toda a Europa, com o objetivo de fazer a criança acompanhar a vida social e cultural dos adultos. Ao longo do tempo ela vai se alinhando aos objetivos educacionais, com o objetivo de formar e informar crianças e jovens, essa vertente só surge no Brasil ao longo do século 20, com o surgimento da imprensa régia. 

 

Diversos autores representaram, nesse período, a Literatura Infantil brasileira. Entre eles, destacam-se: Carlos Jansen (Contos seletos das mil e uma noites, Robinson Crusoé), Figueiredo Pimentel (Contos da Carochinha), Coelho Neto e Olavo Bilac (Contos Pátrios), Tales de Andrade (Saudade), José Saturnino de Costa Pereira (Leitura para meninos) e Laemmert (Aventuras do Barão de Münchhausen). Nesse período, a literatura é centrada em um público em que os brancos eram os únicos com acesso integral ao letramento e à educação, então as histórias eram voltadas para eles.

 

IDENTIDADE

Em um mundo onde as histórias são contadas do ponto de vista dos privilegiados, é essencial que as minorias marginalizadas tenham conhecimento de suas origens, representação na mídia e na história. Para as crianças, essa representação é ainda mais importante, no meio de tantas histórias com estereótipos em que elas não se encaixam, que haja também aquelas em que elas possam se ver nos personagens, que mostram que independente de sua origem etnico-racial, podem ser o que quiserem. "Toda criança negra pode ser protagonista de qualquer história", afirma a escritora brasileira Isabel Cintra, autora dos títulos "A Princesa e o Espelho" e "O Pequeno Grande Alfaiate".

 

Os primeiros livros que foram lançados nos Estados Unidos, chegam no Brasil com a importante missão de mostrar para as crianças negras que elas podem e devem ser protagonistas de suas histórias, além de discutir o racismo e como ele deve ser combatido, deixando claro sempre, que elas podem ser e estar onde almejam. "Os contos de fadas são especiais, clássicos e os mais famosos são nórdicos. Tudo isso contribui para que se veja com naturalidade os personagens brancos, só que a própria história diz que na África sempre houveram reis e rainhas. E, por isso, eu vejo com um certo incômodo o fato de não existir personagens negros neste gênero da literatura infantil tão especial", relata Isabel.

 

O contato cada vez maior com os valores e traços culturais africanos ajudam as crianças a construir uma memória cultural cada vez mais rica, mas além de estudar esses pontos somente nas salas de aula, um novo mercado se abre para autores negros. O ensino das culturas não-brancas nas escolas e universidades abrem para as pessoas um novo horizonte de conhecimento e possibilidades. Para os autores, receber esse novo tipo de conhecimento traz uma nova leva de histórias para contar, histórias essas que estão cada vez mais diversas e representativas.  "O passado é uma forma de abrir a conversa com as questões do presente", relata em seu trabalho o historiador e escritor Allan da Rosa. 

 

REPRESENTATIVIDADE

 

A falta de representatividade afeta, dentre muitas outras coisas, a autoestima de crianças negras que crescem cercadas de estereótipos brancos e modelos que pouco refletem sua realidade, reforçando a ideia de que elas são erradas e construindo padrões de beleza inalcançáveis. Essas crianças e adolescentes acabam desenvolvendo problemas de autoestima e aceitação, e diversos outros males, como a depressão. O cantor e compositor Martinho da Vila, falou em entrevista sobre sua experiência e o impacto da falta de representatividade em sua infância:

 

“Ninguém da minha geração estudou sobre África. Estudávamos reis, rainhas, gregos, mas África nunca. Para nós, era um continente formado apenas por uma grande floresta, animais e negros que vieram escravizados para Brasil. De repente me vi na África. Voltei para cá e comecei a falar que aqueles países iam ficar independentes”, conta.  

 

Trazer personagens pretos para as histórias infantis são essenciais para que as crianças possam não só se virem nas histórias, mas incentivar uma busca por suas identidades, adquirindo coragem e confiança para desvendar os valores reais da vida. O ator, escritor e roteirista Lázaro Ramos teve sua estreia na literatura com a obra Caderno de rimas do João, que conta a história de João, um menino negro que explica assuntos complexos da vida através da poesia.

 

“Tem um personagem como esse, que é um personagem negro, que é baseado no meu filho e que traz uma representatividade para as crianças que forem ler. O herói da nossa história é esse menino encantador e o ponto de vista dele”, explicou.

 

O livro de Ramos se une a diversos outros títulos espetaculares que vem aparecendo cada vez mais para o público, livros escritos por autores não brancos para o público negro, aguns deles são: O mundo começa na cabeça, Prisca Agustoni; Uma princesa nada boba, de Luiz Antonio; Flora, de Bartolomeu Campos de Queirós; A bonequinha preta, de Alaíde Lisboa de Oliveira e diversos outros. 

 

MERCADO

 

A importância dessa representatividade se destaca ainda mais quando observa-se o crescimento de público para esses novos produtos, o público infantil é cada vez mais crescente e ativo de livros que tragam essa gama maior de representatividade. Publicados por pequenas e grandes editoras, além de selos independentes, os livros infantis com protagonistas negros, escritos por autores não-brancos, são um seguimento conscistente no Brasil atualmente, havendo, não só um bom número de publicações, mas também um público cada vez mais rico.


 A proprietária da livraria especializada em autores negros, Africanidades, Ketty Valêncio fala sobre o assunto. "Eu penso muito na minha infância. Minha introdução à literatura foi através dos mitos dos orixás. Minha geração desconhecia literatura infantil com recorte étnico-racial”, conta. Segundo a pesquisadora e blogueira Luciana Bento, especialista no assunto, a lei de 2003, anteriormente mencionada, foi um dos fatores essenciais para a produção cada vez maior desse conteúdo. "Tivemos um boom de publicações com personagens negros", afirma Luciana, ao comentar o impacto da lei. 

 

O crescimento desse mercado é essencial para estimular e valorizar a voz de artistas e escritores pretos na literatura, que historicamente não possuíam as mesmas oportunidades que escritores brancos não só na literatura, mas em outros diversos setores da sociedade.
 

Porém, independente do mercado disponível, seja ele crescente ou minoritário, é importante que não só essa diversidade étnica e cultural sejam colocadas na literatura, mas que elas sejam ouvidas, vozes essas nas quais não só crianças, mas também adultos que não tiveram essa representatividade na infância, sintam-se representados e ouvidos.


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