29/11/2021 às 03h16min - Atualizada em 29/11/2021 às 02h16min

Entenda o Burnout, a realidade dos que "queimam por completo"

Em 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluirá a síndrome em sua lista de doenças

Irion Martins - Editado por Ynara Mattos
Zenklub, Datafolha, OMS, Entrementes.
Foto: iStock/Reprodução.
Era para ser só mais um dia normal na vida dessa fonte que não quis se identificar, mas o que seria mesmo o normal?, o que é normalizado é, de fato, normal?, começou a questionar a psicóloga do Sistema Único de Saúde (SUS), de 31 anos, desde que passou a viver episódios de ansiedade, surtos e alto grau de estresse. Dona de uma rotina que não é sua, completamente agitada e que dedica 14 horas do dia ao trabalho, a também funcionária de um centro de tratamento para crianças autistas se viu correndo, pela primeira vez, contra um tempo que o relógio não marcava.

Àquele dia, em meio a crises de choro e alguns gritos, ela pôs o primeiro pé na empresa e imediatamente decidiu, sozinha, que era hora de cuidar da própria saúde mental. Disparou a correr em direção contrária, reconhecendo todos os sinais de alerta que sua graduação lhe permitia identificar. Eram, literalmente, os primeiros passos apressados de uma longa e paciente jornada de autocuidado que ninguém poderia fazer por ela. E quem lhe julgaria atrasada?

 

“Eu tive o diagnóstico faz, aproximadamente há três meses. Estou muito melhor porque estou medicada e eu sou psicóloga também, então eu sempre fiz terapia. Inclusive, foi isso que me fez procurar a psiquiatria, porque eu já estava identificando em mim um sintoma de estresse agudo, não conseguia dormir, tensão constante muscular, agitação motora, a minha fala estava muito acelerada... Mas eu só fui entender que era Burnout, mesmo, quando eu tive o episódio de não conseguir entrar no meu trabalho.”


Do inglês “queimar por completo”, Burnout designa uma síndrome caracterizada pelo esgotamento físico e emocional no ambiente de trabalho, com impactos diretos na eficiência ocupacional. A patologia, ainda pouco abordada na área médica, já se expressa de forma alarmante na vida dos brasileiros. Segundo dados da Secretaria Especial da Previdência e Trabalho, só em 2020 mais de 576 mil pessoas foram afastadas devido a transtornos mentais e comportamentais. Outro levantamento, do Zenklub com o Datafolha, mostrou que 64% dos brasileiros não têm nenhum tipo de benefício para cuidar do seu emocional.
 

“Temos de entender que vivemos com um receio e um medo constantes”, explica Rui Brandão, CEO do Zenklub, referindo-se ao contexto de pandemia de coronavírus. “Estamos numa altura em que o chão foi retirado. Vivemos com um mal invisível, e se há algo com que não conseguimos lidar é a incerteza. Precisamos de segurança, por isso, agora se fala tanto em segurança psicológica."

 
Em 2022, a Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS) incluirá a Síndrome de Burnout em seu documento oficial. A 11ª edição deste levantamento, que monitora a incidência de enfermidades e visa uniformizar a atuação médica em todo o mundo, colocou, propositalmente, o Burnout fora do capítulo que trata dos transtornos. A justificativa considera que trata-se de um estresse crônico proveniente do local de trabalho, que mais tem a ver com a falta de promoção de qualidade de vida nas empresas.
 
A essa altura da matéria, o percurso da funcionária que não quis se identificar ainda não terminou. Isso porque, além do resgate à própria saúde, sua corrida envolve um processo que caminha a passos lentos na justiça, contra os seus superiores hierárquicos 
o que explica a preocupação em manter seu nome em sigilo.
 

“Quando falei que estar com diagnóstico de Burnout, eu fui chamada pelo setor de Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT)”, conta. “Eles conversaram comigo, perguntaram o que estava acontecendo. Expliquei que o problema envolvia meus superiores e, então, abriram um processo administrativo contra a minha chefia. Mas não mudou muita coisa, na prática. Eu continuei sofrendo o assédio moral e não me recuperei 100% ainda.”, conclui.


Perguntada sobre as características desse assédio, a psicóloga que não se identifica aponta aspectos facilmente identificáveis em relações trabalhistas de todo o mundo. “Ela é uma pessoa muito invasiva; ela não é da minha área e cobra coisas técnicas como se soubesse do que está falando; ela invade o espaço pessoal dos profissionais; ela cria um ambiente de trabalho desgastante; fala mal de todo mundo; coloca uma pessoa contra a outra...”
 
Sobre essas características, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em seu artigo 483, decreta que:

“O empregado poderá considerar rescindido o contrato e pleitear a devida indenização quando:

  • a) forem exigidos serviços superiores às suas forças, defesos por lei, contrários aos bons costumes, ou alheios ao contrato;
  • b) for tratado pelo empregador ou por seus superiores hierárquicos com rigor excessivo;
  • c) correr perigo manifesto de mal considerável;
  • d) não cumprir o empregador as obrigações do contrato;
  • e) praticar o empregador ou seus prepostos, contra ele ou pessoas de sua família, ato lesivo da honra e boa fama;”
 
A CLT não cita o Burnout, mas a síndrome está implicada como possível consequência de todos os contextos do artigo. Agora, a funcionária que não é identificada tenta se equilibrar entre a saúde e o emprego desgastante enquanto espera o cumprimento de medidas legais. Ela acredita que “a redução da carga horária seria o ideal”, mas, numa situação comum a tantos outros funcionários do Brasil, admite que “isso não se alterou e por enquanto é inviável por questões financeiras”. Ao tentar, em sua resposta, encontrar uma solução, também desabafa:

 

“As pessoas ao meu redor não levam a sério. Quando eu digo que ‘as pessoas não levam a sério’, são profissionais da Saúde Mental que trabalham comigo. Então, é bem complicado... As pessoas pensam que nós temos que suportar pressão, sim, e que a chefia pode fazer o que quiser, do jeito que quiser. Eu fui colocada em uma posição de ser destratada mesmo. De ser sobrecarregada. Eu continuo num estado constante de estresse.

No episódio abaixo, o podcast Entrementes, do doutor Dráuzio Varella, conversa sobre o assunto com a especialista Silvia Cury Ismael, gerente do Serviço de Psicologia do Hospital do Coração de São Paulo (HCor-SP).


 
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