13/01/2022 às 19h03min - Atualizada em 13/01/2022 às 18h22min

A reflexão sobre estereótipos culturais levantada por espectadores de Emily In Paris

O sucesso da série levantou diversos pontos que incomodam os franceses, mas além disso levantou-se o questionamento sobre como outras diversas culturas também são padronizadas

Emily Prata - Editado por Andrieli Torres
Reprodução: Netflix

Trazendo a rotina de uma jovem norte-americana que trabalha com marketing, que acaba sendo selecionada para passar um ano trabalhando em Paris, Emily em Paris foca na introdução da protagonista, interpretada por Lily Collins, aos costumes franceses, assim como suas relações amorosas e de trabalho. A atração como um todo tem uma proposta mais caricata e escapista, onde o objetivo não é desenvolver temas sérios e reflexivos, mesmo que estes estejam presentes, mas com foco no entretenimento leve e engraçado. Guiando o espectador não só pelas belas paisagens parisienses, mas também na jornada de erros e acertos de Emily, assim como daqueles que a cercam.

 

A série produzida pela Netflix, é um dos maiores sucessos da plataforma de stream, lançada em outubro de 2020, a série coleciona não só o sucesso mais uma série de polêmicas em torno da forma com que retrata a cultura e personagens franceses. Apesar disso, foi a série de comédia mais assistida na plataforma e estreou sua segunda temporada em dezembro de 2021 e a visibilidade da atração garantiu não apenas uma, mas duas novas temporadas. Para muitos, o ponto forte da série é justamente o conteúdo raso e a forma caricata com que os personagens são retratados e os conteúdos leves propostos, mas as críticas são justamente nesses mesmos pontos.

 

Apesar de boa parte do público achar a atração divertida e aceitar que os exageros e a forma caricata com que os personagens são retratados, outros reclamam dos estereótipos trazidos pela série, tema que virou discussão nas redes e pelos próprios franceses. Alguns dos estereótipos observados pelos espectadores foram:

 

PREGUIÇA

 

Na primeira temporada, onde Emily é introduzida ao ambiente parisiense, ela se surpreende ao descobrir que seus colegas de escritório só iniciam o expediente a partir das 10h, o que é verdade, mas isso não afeta o desempenho deles no trabalho. Segundo pesquisa realizada pelo site americano Bustle, a jornada de trabalho deles é realmente mais curta e com mais folgas e feriados, mas ainda assim, a França lidera os rankings de países mais produtivos do mundo. A curta jornada de trabalho continua tendo destaque na segunda temporada, quando os colegas de trabalho da moça acham estranho que ela queira trabalhar aos fins de semana, o que não é uma realidade para os franceses. 

 

SEXUALIDADE

 

Em diversas ocasiões ao longo das duas temporadas da série, os homens franceses são retratados sem pudor algum quando o assunto é sexo, além de estarem sempre tentando seduzir a protagonista. O jornal francês Le Parisien descreve a jornada romântica e sexual de Emily como: “Uma cadeia de constrangedores e irritantes clichês”. Além disso, a infidelidade também se encaixa nesse meio, sendo completamente normalizada e aceita pelos personagens, o que acaba chocando Emily, quando a mocinha descobre que sua chefe possui um casamento aberto e possui casos fixos. 

 

INTOLERÂNCIA

 

Outro ponto que foi muito criticado pelos franceses, foi que a série apresenta os parisienses como grosseiros e intolerantes, a produção mostra que os franceses não gostam de falar inglês e não têm paciência com turistas que não entendem o idioma. Isso fica marcado tanto nos primeiros episódios da primeira temporada, quanto na segunda, quando utilizam a falta de fluência de Emily no francês para excluí-la de conversas e reuniões. Muitos franceses ficaram incomodados com essa retratação, que apesar de haver um fundo de verdade, é apenas consequência de uma grande valorização cultural e que esse é um hábito mais comum entre os idosos. 

 

ESTEREÓTIPOS

 

Mas Emily em Paris não é a primeira e nem será a última série ou filme a reforçar estereótipos culturais, de qualquer que seja o país ou cultura, latinos, asiáticos e árabes sofrem com os mesmos estereótipos há anos. A cultura latina é uma das mais estereotipadas em Hollywood ao longo do tempo, em sua maioria, como pobres, criminosos e não letrados no inglês, sendo sempre colocados como personagens cômicos ou mafiosos.

Mas essa imagem negativa nunca foi questionada, o que levanta os motivos de as comoções apenas serem geradas quando esteriótipos não beneficiam países de primeiro mundo, enquanto culturas não americanas e europeias são marginalizadas e padronizadas. 
 

O ator brasileiro Wagner Moura, falou sobre a constante luta para quebrar esses padrões:

 

“Em Hollywood é quase sempre o latino violento ou o sexy. Realmente isso não representa esse grupo. Quando vi Diego Luna em Rogue One, fazendo um personagem com seu sotaque mexicano, pensei: ‘Podemos interpretar o cara de Star Wars, mas também médicos e engenheiros. Nem sempre temos de estar relacionados à violência e pobreza, mesmo que saibamos que elas existam na América Latina’”

 

Países latinos não são os únicos que sofrem com estereótipos, mas são, sem sombra de dúvidas, os mais afetados, o que afeta não só a forma como outros países nos veem, mas também limita a oportunidade dos atores latinos em ganharem espaço nas telas. O famoso filtro laranja, é uma das ferramentas mais utilizadas para retratar países emergentes, trazendo uma sensação de constante calor, onde todo mundo está sempre suado, além da constante sensação de insalubridade. 

 

Os países asiáticos também sofrem com esses estereótipos preconceituosos há anos, desde a popularização da indústria cinematográfica, caricaturas preconceituosas dos costumes asiáticos é reproduzida em produções de sucesso, em uma tentativa de homogeneização cultural. Além da constante reprodução da prática de yellowface, onde personagens que originalmente são asiáticos, são representados por atores brancos, diferente do blackface que é constantemente combatido, o yellowface acaba passando despercebido e é ignorado pelos diretores e produtores de cinema. 

 

Somado a isso temos a reprodução dos mesmos perfis de personagens, que inicialmente eram misteriosos e ameaçadores, ao longo dos anos passa-se a focar nas artes marciais e atualmente asiáticos são reproduzidos como nerds e gênios.


Os personagens de origem árabe não sofrem apenas com a estereotipação, mas também com uma forte xenofobia, que pode ser observada apenas na frequência com que aparecem nas produções e quando aparecem é propagado o cliché de que “todos os árabes são terroristas”. A nação e sua cultura são totalmente demonizadas nas obras de cinema, quando não acontece isso, é apresentada como exótica e retrógrada. Além de que atores de origem árabe não têm nem mesmo espaço para contarem e incorporarem essas histórias, assim são sempre representados por atores não árabes. 

 

Esses são apenas alguns dos diversos estereótipos produzidos por Hollywood que passam despercebidos por não afetarem países norte-americanos ou europeus, a reflexão gerada pela representação caricata em Emily em Paris deveria se estender para outras diversas produções, bem mais ofensivas. Não que os pontos levantados pelos franceses não sejam válidos, mas diversas outras culturas foram homogeneizadas e reproduzidas sobre uma luz negativa de forma bem mais brutal. A atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu, que interpreta Sylvie Grateau, chefe de Emily na série, respondeu às críticas de maneira reflexiva:
 

“Os franceses sabem rir das outras pessoas, mas não sabem rir de si mesmos”.  

É importante, novamente, destacar de que se trata de uma série de comédia e caricata, onde o principal objetivo principal é o entretenimento e não profundas reflexões e representações exatas, as críticas que reclamam sobre a perfeição da vida parisiense que Emily Cooper leva deve lembrar que esse é o objetivo da produção. O espectador desse tipo de atração está buscando uma válvula de escape da sua realidade, logo a série cumpre seu objetivo de maneira magistral. 

 

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