16/07/2022 às 17h51min - Atualizada em 16/07/2022 às 17h50min

A sensibilidade por trás da depressão pós parto no filme "Respire Fundo"

Ana Luíza Lima - Editado por Larissa Bispo
Créditos/Reprodução: Google

 

A Mouthful of Air ou Respire Fundo trata-se de um filme que, em tons poéticos, representa a sensibilidade por trás do retrato silencioso da depressão. A obra consegue captar através de determinados enquadramentos e de elementos lúdicos a profundidade por trás de cada ato da protagonista Julie Davis, uma autora best-seller de livros infantis. Julie é a representação de uma figura carinhosa, preocupada e atenciosa com as pessoas que a cercam, principalmente quando se trata de seu marido e de seu filho.

O papel que a jovem mãe começa a exercer com o nascimento de Teddy, seu primeiro filho, revela a dramaticidade e carga que ela aceita ao desempenhar o papel da maternidade. Entretanto, a representação desse papel ganha novos tons ao Julie deparar-se com o “mundo sem cor ou preto e branco”, onde ela diz viver e que é representado em um dos seus livros por sua personagem Pinky, personagem infantil que talvez carregue consigo até mesmo a identificação da própria infância de Julie. 

A figura de um pai ausente e ‘problemático’ é um dos aspectos que persegue a jovem ao longo da trama. Os traumas e medos vividos em seu passado a perseguem e a atormentam de forma dolorosa, de uma maneira que Julie questiona sua própria capacidade de ser uma boa mãe e de não causar tanta dor, arrependimento e tristeza aos filhos ao permanecer em suas vidas. Gatilho que se torna automático quando ela se depara novamente com a possibilidade de pôr em questão sua própria vida, por não saber lidar com o mal que ela poderia lhes causar.

 

Julie busca ao seu redor motivos que a façam continuar tentando. Mesmo com a ida frequente ao psiquiatra e a medicação como a ironia de trazer “cor’’ ao seu mundo, a personagem não encontra motivos para continuar viva. Nem mesmo a escrita, aspecto que seu marido considera algo importante para continuar ajudando sua esposa a lidar com a depressão e a busca por si mesma, consegue trazer a ela a razão e o porquê dela não conseguir se ver sendo uma boa mãe,esposa, filha e amiga.
 

Respire Fundo é delicado em cenas que não precisam ser expositivas para mostrar sua verdadeira mensagem. A depressão de Julie é visível em muitos sentidos e não é preciso exageros ou grandes atos para demonstrar como ela é sorrateira. Sua principal representação se dá através de objetos amarelos, que por grande parte é associado aos brinquedos de seu filho. A espera de uma nova gestão e a autonomia que Julie se dá ao largar os antidepressivos mostra a enorme preocupação que ela tinha ao pensar que isso futuramente prejudicaria sua filha, mas anula suas próprias condições de arcar com aquela decisão. 

 

O arco da narrativa se dá com a morte de Julie, que poder ser representado na história em que escrevia; um monstro que devorava estrelas, ela faz a analogia de que o amor dela era como essas estrelas, às vezes seus filhos poderiam não vê-la, mas seu amor sempre os acompanharia. Esse ato retoma a importante análise quanto ao silêncio que a depressão carrega consigo, Julie não a enxergava, nem mesmo quando ela se perde de si mesma, quando ela se cobrava para ser mais do que perfeita, quando precisava encarar o papel e peso que a maternidade lhe trazia. 

 

A depressão pós parto, em específico, é uma realidade encarada por diversas mulheres e que em muitas condições acabam sendo escondidas e/ou romantizadas  como a protagonista tenta fazer. Segundo a Organização Mundial de Saúde: essa condição acomete até 25% das mulheres em países em desenvolvimento como no Brasil. Ou seja, em média, uma a cada 4 mães brasileiras podem sofrer de depressão pós-parto. 

 

Dessa forma, para além de uma representação cinematográfica, o momento pós-parto trata-se de um período onde muito facilmente as mulheres podem ser acometidas por transtornos mentais. Além do dano referente a saúde mental materna, os prejuízos no vínculo que seriam estabelecidos se torna uma experiência desafiadora como a de Julie. O filme, em seu cuidadoso desenvolvimento, deixa a importante ideia de que a vida não é uma idealização, muito menos um clichê e que a estigmatização do que torna ela dolorosa não precisa ser tão cruel quanto.  

 

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