29/08/2022 às 17h23min - Atualizada em 29/08/2022 às 16h51min

365 dias: Trilogia reforça a objetificação da mulher

Após lançamento do terceiro filme, história é encerrada com polêmicas e romantização de relacionamento abusivo.

Giuliane Fagundes - Revisado por Flavia Sousa
Laura e Massimo tem um relacionamento conturbado. (Foto: Reprodução/Netflix/Karolina Grabowska)

‘365 dias’, na tentativa de se tornar um grande sucesso como Cinquenta Tons de Cinza, apostou no erotismo buscando atrair a atenção do público, no entanto, desde o lançamento do primeiro filme em 2020, a história é envolvida por temas problemáticos, como a naturalização de um relacionamento abusivo e a objetificação da mulher. Baseados nos livros da autora Blanka Lipinska, os filmes bateram o recorde de 0% de aprovação no Rotten Tomatoes, site com a avaliação de comentaristas especializados, no entanto, apesar da reputação negativa, a história de Laura e Massimo é popular na plataforma de streaming Netflix.

 

O primeiro filme “365 dias” conta a história de Laura Biel (Anna-Maria Sieklucka), uma mulher insatisfeita com o relacionamento monótono, que ao tentar trazer um pouco de diversão à sua vida, viaja com os amigos e o namorado para a Itália, onde em seu aniversário, conhece um homem misterioso, Massimo Torricelli (Michele Morrone), um jovem italiano líder da máfia, em que anos após o ataque que ocasionou a morte de seu pai, encontra a mulher que viu em seus sonhos e esta obsessão o leva a sequestrar Laura, a mantendo presa em sua casa, onde ela tem 365 dias para se apaixonar por ele. 

 

A personagem é privada de sua liberdade para ceder aos caprichos de um homem que não aceita ser contrariado e faz o impossível para ter o que deseja em suas mãos. Ela tenta escapar, mas não obtém sucesso, sendo forçada a presenciar o temperamento explosivo do homem, que não respeita sua privacidade e se exibe com outra mulher em sua frente para fazê-la ceder aos seus encantos. Laura é tratada como uma posse, um objeto, um desejo nutrido pela mente perturbada de um homem poderoso. Após muitas investidas de Massimo, ela cede e os dois embarcam em um relacionamento sem diálogo, em uma série de cenas eróticas, onde o amor é confundido pelo desejo, obsessão, posse e controle, em que a mulher é tratada como um objeto.

 

Controle e desejo 

 

A relação entre Massimo e Laura é retratada ao público como uma história de amor, que se desenvolveu durante a convivência forçada, porém, o filme reforça a seus telespectadores a naturalização de um relacionamento abusivo.


Apesar das diversas problemáticas, o filme foi um dos mais assistidos na Netflix em 2020. 

 

A sequência ‘365 dias: Hoje’  não se diferencia do primeiro filme e repete a mesma fórmula, desta vez, com o casamento de Massimo e Laura, onde a polonesa tem de encarar a conturbada e regrada vida de uma esposa do chefe da máfia, que a segue e controla a sua vida a cada passo. Entre atritos e desavenças, Laura presencia uma suposta traição de Massimo e foge com Nacho (Simone Susinna), o jardineiro da mansão, sem ter o conhecimento de que ele é um dos maiores inimigos de seu marido. O mafioso surge na trama para trazer um contraponto a história do casal original, em que ele tenta mostrar-se como o oposto de Massimo, sendo um homem mais delicado, atencioso e um amigo para Laura, que se sente atraída por ele desde o primeiro instante. 

 

Novamente, durante o segundo filme, não há nenhum diálogo simples ou profundo entre Laura e Massimo e o casamento é preenchido por intermináveis cenas de sexo explicitas para chamar a atenção do telespectador e desviar a simplicidade que há no roteiro.  

 

Laura continua sendo tratada como um objeto por dois homens, um prêmio, em que é envolvida em um jogo de manipulação e mentiras que coloca sua vida em risco. 

 

Liberdade e independência feminina 

 

O terceiro filme, ‘365 dias finais’ lançado em 19 de agosto de 2022, trazia em seu trailer a perspectiva de que Laura finalmente buscaria um pouco de liberdade e independência, no entanto, a personagem, mesmo após sua quase morte, continua no mesmo ciclo vicioso dos filmes anteriores, desta vez, presa a dois homens que de formas diferentes, querem tê-la como uma posse. A ausência de um pensamento independente controla a personagem desde os primeiros segundos em que Laura sequer pensou em escapar de uma vida perigosa, mas agindo como uma obrigação sua viver para dois homens e não para si. 

 

Em nenhum momento é pensada a possibilidade de Laura fugir e encontrar a sua liberdade e independência em outro lugar. A personagem é guiada por um desejo fantasioso, se submetendo a relacionamentos conturbados e vivendo uma história que não oferece a opção de um final diferente, onde a mulher não necessita de qualquer homem para ser feliz e ter a sua liberdade. 

 

Ao contar este tipo de história, é naturalizado uma vida e um relacionamento incorretos, retratando as formas abusivas e tóxicas como significado de amor, sentimento este que não existe nesta trilogia. Recheados de cenas de sexo para atrair a atenção de seus assinantes, os três filmes, mesmo com as problemáticas em torno de si, atingiram milhões de visualizações, demonstrando que não haver filtros ao contar histórias como estas, em que mesmo de maneira negativa, buscam apenas a popularidade em meio ao público, deixando uma influência e uma mensagem incorreta a aqueles que os assistem.

 

Leia mais em: 365 Dias: um filme que colabora para a cultura do abuso


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