30/08/2019 às 18h55min - Atualizada em 30/08/2019 às 18h55min

Revolução

Revolucionar também significa girar de ponta cabeça o mundo de cada um. Uma mudança abrupta nos conceitos e certezas individuais talvez seja a forma mais radical de revolução

Yorrana Maia - Editado por Millena Brito

Revolução:

Revolucionar também significa girar de ponta cabeça o mundo de cada um. Uma mudança abrupta nos conceitos e certezas individuais talvez seja a forma mais radical de revolução.

Essa palavra possui vários significados e histórias para contar. Sem saber bem o motivo, essa redatora se apegou a uma explicação dita há anos por um professor de história de ensino médio: “toda vez que o mundo gira de cabeça para baixo, tem-se uma revolução”. O comum é associar essa palavra à grandes acontecimentos na França em 1789 e na Inglaterra em 1760. Mas, revolucionar também significa girar de ponta cabeça o mundo de cada um. Uma mudança abrupta nos conceitos e certezas individuais talvez seja a forma mais radical de revolução.

A história que se segue é exemplo de um mundo que virou de cabeça para baixo. O mundo de uma jovem de 19 anos e de seus professores e colegas de faculdade. A jovem se chama Juliana H. dos Santos e no início deste ano entrou no curso de jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). O que há de revolucionário nisso? Bem, Juliana é a primeira aluna cega do curso de jornalismo nos 59 anos da universidade. Antes, no entanto, de falar o porquê desse ato revolucionário, o melhor é fazer jus a definição do professor e contar a história por detrás do ato.

Juliana foi diagnosticada com glaucoma congênito (quando se nasce com a doença) e perdeu totalmente a visão aos 12 anos de idade, depois de cair em uma aula de educação física no CEBRAV (Centro Brasileiro de Reabilitação e Apoio ao Deficiente Visual) e deslocar a retina, até então podia distinguir cores. Mas o glaucoma nunca antes havia mudado sua percepção de que poderia ser diferente dos demais. Até os 12 anos ela corria, pulava e brincava como qualquer criança faz e frequentava o CEBRAV como alguém frequenta um clube.

Depois de perder a visão essa percepção começou a mudar. Como pré-adolescente, Juliana queria um diário, só que escrever em braille tornava o diário muito volumoso e isso “simplesmente não servia”, segundo ela. A menina nunca deixou de ser menina, nunca deixou de ser criança, de correr, de pular, brincar, sonhar e escrever seus sentimentos, como tantas outras meninas por aí, porém essa menina  se encontrou frustrada em situações básicas, como escrever em um diário. 

Durante seus anos de colégio, Juliana passou por duas mulheres que a influenciaram. Uma delas foi sua professora de português, Maria Quitéria, do Colégio Estadual Murilo Braga e a outra foi a escritora e psicopedagoga, Clara Dawn. Essas duas mulheres guiaram a jovem inexperiente pelo mundo ilimitado da prosa, poesia e literatura. E o resultado?

 

“Faz tempo que ando me procurando. Me procuro pelas ruas, pelas vitrines das lojas, pelas frestas dos espaços que eu nem sabia que existia... (...) A moça da padaria me vende sonhos sem nem me perguntar quais são meus objetivos. O guarda de trânsito insiste em me multar sem compreender porque tenho corrido tanto em alta velocidade para lá e para cá. (...) Desliguei os fones e ativei o coração, joguei fora o que não presta e reciclei o que é considerável. Será que agora dá? Dá para fazer as pazes com o mundo e beijar a vida, dá para não cansar de recomeçar, dá para continuar.... Será que dá? Se não der, em que ponto a gente pega aquele ônibus de retorno para a via principal?”


Uma escritora se descobriu. A jovem que antes resistia para escrever em seu diário, agora se viu ávida para escrever sobre tudo e todos. Alguns dos seus textos são postados em sua conta no Instagram (@juli_ribeirooo), com a intenção de alcançar leitores. Sua escrita tem como objetivo fazer com que cada leitor, por mais diferente que seja, se identifique com suas palavras e se emocione ao ler, como ela, ao escrever. “Uma escrita humanitária”, como chama.
 

“Sinto-me em branco
Uma página ainda por escrever
Uma história sem ser contada.
Virgem!
Virgem de voz e de vontades
Virgem!
Sou, por consideração própria, uma criatura embrionária
Medrosa, ainda não nasci de minha gravidez crônica
Esperançosa, não quis abortar-me.
Pequena, pequena
Mas virulente demais para causar brisa
Desprovida de talento lírico para passarinhar
E pouco imediatista para tornar-me borboleta.”


Juliana escreve sobre temas diversos do ser. Preocupações de uma jovem que ainda não está preparada para ser adulta; paixões que vêm e vão; a importância do amor próprio; e experiências de uma pessoa com deficiência em um mundo desinformado.
 

“Não tem jeito. Uma hora a conta por ser quem se é chega! (...) Arranha as entranhas, causa, confusão, dá vontade de virar alienígena. Se reconhecer e aceitar indivíduo, com vontades particulares, é um processo para fortes! (...)”


Sua descoberta pela escrita e pela vontade de contar histórias a levaram ao curso de jornalismo e as propagandas de acessibilidade a fizeram escolher a PUC-GO. Então, lá estava ela em seu primeiro semestre de faculdade, longe do conforto de seu colégio e da tutela de suas guias literárias. Juliana estava pisando em solo novo e à sua frente um longo caminho desconhecido se estendia, a começar por uma disciplina: fotografia.

No seu primeiro dia de aula de fotografia, Juliana pensava que não ia fazer nada e, por isso, estava sem expectativas. Mas, a professora e fotógrafa, Déborah Borges, sabendo de antemão que teria a primeira aluna cega do curso, pesquisou maneiras para incluí-la nas aulas práticas e descobriu para surpresa de Juliana e de seus colegas que não precisava de nada fora do comum para incluí-la, bastava dar uma Canon a ela e deixá-la fotografar.

O fato até então desconhecido para Juliana, seus colegas e para Déborah é de que há décadas deficientes visuais são fotógrafos profissionais. No Brasil, alguns exemplos são Teco Barbero, João Maia, Valdir da Silva e Helio Neto Baragatti. Logo, não foi difícil entregar uma câmera a Juliana e vê-la fotografar. Não foi difícil, mas foi revolucionário. O mundo de todos os presentes começou a girar e a girar quando viram Juliana encostar seu rosto na Canon e registrar uma foto. Ouvia-se ao fundo o som das palavras “Liberté, Egalité, Fraternité” ressonando como tambores.

O mundo virou de cabeça para baixo naquele momento. A jovem menina que um dia não quis escrever em braille em seu diário, descobriu que pode fotografar. E a professora e os alunos aprenderam que a primeira aluna cega da faculdade é uma pessoa com voz, corpo e alma. Uma pessoa que perdeu a visão aos 12 anos e nunca foi em uma Paraolimpíada, ou apareceu em um programa da televisão com “sua incrível história de superação”. O que mudou todos os conceitos e certezas individuais até mesmo da própria Juliana, naquele dia foi a constatação de que ela é uma jovem estudante de jornalismo, que sonha em ser reconhecida por sua escrita. Nada mais e nada menos. E isso, senhoras e senhores, se não é revolução, não sei mais o que é.  
  
 
 
 
 


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