30/01/2020 às 16h05min - Atualizada em 30/01/2020 às 16h05min

A mulher no mundo geek

Maria Cecília - Editado por Bárbara Miranda

Com o movimento feminista que luta por a igualdade entre gêneros, nota-se uma evolução de pensamento quando compara-se a mulher ao homem, porém a sociedade continua muito machista e, infelizmente, no mundo geek ainda é muito comum esse tipo de atitude. Contudo, apesar de ser considerado um ambiente majoritariamente masculino, a mulher tem elevado cada vez mais a voz para dizer que podemos ser nerds sim.

É possível encontrar cada vez mais representatividade feminina nesse universo, desde a personagens incrivelmente fortes e inteligentes, como a Jean Grey de X-Men, a autoras geniais, como a J. K. Rowling, dona da saga Harry Potter. Que inclusive sofreu bastante no começo de sua carreira justamente por ser mulher, recusada por 7 editoras, quando foi aceita, o editor exigiu que o seu nome fosse abreviado e não utilizassem suas fotos nos livros, pois os pais e meninos não aceitariam ler uma ficção escrita por uma mulher.

Sem contar as diversas vezes que o mundo foi salvo por mulheres corajosas, que apesar de muitas vezes estarem sexualizadas, como no caso da Mulher Maravilha, mostram que são muito além do que um rosto bonito e são capazes de fazer qualquer coisa que um homem faça. Um exemplo disso é deixado bem claro por a Mística, personagem de X-Men, que em uma de suas falas durante o último filme da saga, X-MEN Fênix Negra, fala que esse nome deveria ser mudado para X-Woman.

E para explanar um pouco mais sobre o assunto foi feita uma entrevista como Ábia Ramos, estudante de jornalismo na UESPI, Picos e fotógrafa.

Entrevista:

MARIA CECÍLIA: Você considera o mundo nerd um pouco machista?

ÁBIA RAMOS: Atualmente isso melhorou muito. Mas antes e não distante, com certeza. A começar pela sexualização da mulher. Sempre houveram excelentes heroínas, mas tanto dentro como fora do universo Geek elas eram sexualizadas.[...] E além desse aspecto, nós meninas que gostamos do mundo Geek, nem sempre fomos recebidas com facilidade. Sempre houveram aqueles que diziam: "Isso é coisa de menino!". Se você brincava de herói ou simplesmente simpatizava por um herói homem, já era motivo de estranheza. Porque se você é menina e quer gostar de herói, você tem que ser ou preferir a Mulher Maravilha ou a Jean Grey. Eu particularmente, sempre gostei mais do Homem de Ferro!

CECÍLIA: Te incomoda sempre ter que provar realmente ser geek para não ser acusada de poser?

ÁBIA: Sim, incomoda! E muitas vezes isso refletiu muito em mim. Eu sempre dizia: "Não me chame de nerd, não sou digna de tamanha honra. Mas aprecio muito!". Eu pensava assim porque nunca tive acessibilidade as HQs, nem sempre tive ao cinema para acompanhar a todos os lançamentos, e haviam filmes e séries que eu nunca tive como assistir também. [...] Só parei de me importar com isso, quando percebi que o me faz uma Geek não é o meu nível de conhecimento sobre tudo, mas o quanto eu me interesso por isso, o quanto eu gosto. E sim, eu gosto muito!

CECÍLIA: É possível enxergar uma leve mudança na caracterização das personagens femininas hoje, como a Capitã Marvel, mas a uns 20 anos atrás a maioria delas era sexualizada. Você percebia esse tratamento? Te ofendia de alguma forma?

ÁBIA: Observando hoje, sim, é nítido esse tratamento. Antes, além do fato de ser criança e não perceber esses aspectos, a sociedade da época não se atentava em defender essas pautas. [...] Como eu disse, por não perceber anteriormente esse tratamento, eu nunca cheguei a me ofender. Ao tomar mais conhecimento, não em tudo, mas em alguns momentos sim, chega a ser constrangedor. A sexualização no mundo Geek é algo muito real, e acontece tanto para a mulher como para o homem, isso é fato. A questão é que é mais normal ressaltar as habilidades dos homens, enquanto na mulher, a sensualidade. Então acho que sexualização sempre vai haver para ambos, e tirando é claro, a sexualização exacerbada e o cunho machista (que hoje em dia é muito menor se comparado a antigamente), é até algo que faz parte. Mas o que deve mudar é a reação a isso. As mulheres são lindas sim, mas elas não são apenas um rosto ou um corpo bonito, elas tem habilidades incríveis que merecem destaque muito mais do que os seus aspectos físicos. [...]

CECÍLIA: Como você se sente ao ver personagens como a Hermione Granger, de Harry Potter e a Okoye, de Pantera Negra, que representam a mulher como forte e inteligente e exploram muito além do lado físico?

ÁBIA: Eu acho incrível! Me sinto inspirada. Na minha visão pessoal, nunca me vi como exemplo de padrão de beleza. Quando criança, sempre fui a magrela que usava óculos e tagarelava demais (o que não mudou muita coisa), e isso reforçava ainda mais a figura de nerd, que para época, era pejorativo, o que é outro absurdo: como alguém pode ser criticado e perseguido por inteligente? Mas usando os exemplos citados, muito me orgulha e inspira ver mulheres como a Hermione e a Okoye. Muito mais do que lindas mulheres, elas representam coragem e inteligência! E "só isso" não vale muito mais do que qualquer uma característica física? Quantas mulheres super inteligentes, criativas, corajosas, determinadas e com milhares de outras características incríveis existem por aí? E o quanto isso é visto e apreciado nelas? Em um mundo que desde sempre foi muito superficial, onde muitas vezes as pessoas se atraem por meras características físicas fúteis, é genial exaltar a beleza interior, a intelectualidade, a coragem, porque características assim é que são relevantes e tornam alguém incrível. Quanto mais valor derem a isso, mais as pessoas saberão apreciar as qualidades corretas, até as características físicas e fúteis se tornarem algo irrelevante. E isso vale para todos, sejam mulheres ou homens.
 

REFERÊNCIAS

GNIPPER, Patrícia. Garotas nerds e geeks: contam como enfrentam meios machistas. In: GNIPPER, Patrícia. Garotas nerds e geeks: contam como enfrentam meios machistas. CanalTech, 23 nov. 2015. Disponível em: <https://canaltech.com.br/entretenimento/garotas-nerds-e-geeks-contam-como-enfrentam-meios-machistas-53115/>. Acesso em: 27 jan. 2020.


RODRIGUES, Gabriel. A realidade da desigualdade de gênero: enfrentada no mundo geek. In: RODRIGUES, Gabriel. A realidade da desigualdade de gênero: enfrentada no mundo geek. [S. l.], 7 jun. 2017. Disponível em:<https://mulherespordireitos.wixsite.com/mulherespordireitos/single-post/2017/06/07/A-realidade-da-desigualdade-de-g%C3%AAnero-enfrentada-no-mundo-geek>. Acesso em: 29 jan. 2020.
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