07/07/2020 às 23h26min - Atualizada em 09/07/2020 às 01h00min

Elza Sores

O que a trajetória de uma mulher que não desistiu de seus sonhos pode nos ensinar nos dias de hoje?

Vanessa Costa - Editado por Luhê Ramos
https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/politicas-para-mulheres/ligue-180
Revista Metrópoles

Na língua portuguesa, empoderamento significa tomada de poder. Essa é uma das palavras que podem representar Elza Soares. Mulher, negra, periférica, sonhadora e construtora de seu espaço no meio musical. Elza Gomes da Conceição, nascida e criada na Favela Moça Bonita bairro de Padre Miguel no Estado do Rio de Janeiro, filha da lavadeira Dona Rosária e do pedreiro Avelino. 

A infância marcada pela fome e poucos recursos, não a impediam de ser uma uma menina alegre e faladeira, que gostava de correr atrás de pipa e bola com os meninos do bairro. A música era presente em sua casa. Seu pai arranhava em alguns instrumentos e ele e Elza sempre faziam duetos nos poucos e raros momentos de lazer em família.

Aos 13 anos, foi obrigada pelo pai a casar, com um homem que a violentava fisica e emocionalmente. Aos 14, tornou se mãe pela primeira vez. Com ele, Elza teve 7 filhos. Viúva aos 21 anos, casou se com o ex jogador de futebol Mané Garrincha, também violento, alcoólatra e passava longos períodos sem trabalho devido ao vício. Com ele viveu  17 anos e teve mais um filho. Dos 8 filhos 4 são falecidos.

Com a vida marcada por tragédias e dificuldades financeiras, o sonho de ser cantora a movia. Um fato que marca o nascimento da carreira, foi a participação de Elza no extinto programa de calouros de Ary Barroso, em 1953, para um concurso musical que pagaria um valor significativo para que ela pudesse suprir as despesas da casa e dos filhos. Elza foi, cantou, venceu. 

Depois dessa apresentação começou a ousar mais, procurar e aceitar convites para cantar na noite. Sofreu inúmeros preconceitos por parte da família, porque onde é que já se viu uma mulher casada com filhos cantar na noite? E por parte dos contratantes em muitas festas, preto não podia subir no palco pois era uma afronta a sociedade. Mesmo com todos esses episódios de lutas e glórias, Elza nunca desistiu de seu sonho: a música. Ela sentia o chamado em seu peito. De 1960 a 2018 foram gravados 36 álbuns.

Em 2015, Elza se reinventou gravando o álbum 'A Mulher do fim do mundo', como se auto-intitula. A discografia é marco importante depois de tantas perdas, nãos, crises de depressão, exclusão social e envolvimento com drogas. Elza se superou mais uma vez, e com ele recebeu 4 importantes prêmios da música.

Aos 90 anos, a plenos pulmões, Elza diz não ter medo da morte: “isso é perda de tempo”. Em fevereiro de 2020, foi homenageada pela Mocidade Independente de Padre Miguel, sua escola de samba do coração. Com o enredo "Elza Deusa Soares", o desfile levou a plateia às lagrimas de emoção e ao êxtase com sua energia vibrante. No último dia 4/7  fez uma live para o projeto #OndaNegra do Sesc com 98.370 visualizações pelo Youtube.


Mas o que além de história a trajetória dessa mulher nos mostra nos dias atuais?

São décadas dedicadas a criar e produzir arte. Elza, escancara o Brasil das possibilidades, para aqueles que foram secularmente marginalizados: os negros, as mulheres, a comunidade LGBTQI+ e, sobretudo, o povo pobre batalhador. De acordo com dados do Governo Federal, de janeiro a julho de 2018, o 'Ligue 180' registrou 27 feminicídios, e 547 tentativas de feminicídios. No mesmo período, os relatos de violência chegaram a 79.661.


Na tentativa de relacionar a vida de um ícone com a realidade, conversamos com alguns personagens da vida real. 

Paulo Carvalho Moura é presidente do Fã Clube Elza Soares, criado em 2015. Acompanha a vida e oobra da cantora há 8 anos. Questiono a ele o motivo da criação do fã clube e prontamente me responde que foi despertado pela voz poderosa, e logo se viu pesquisando trajetória, vida e obra da artista. O fez sentir a necessidade de construir e pertencer a um espaço de representatividade que fosse um acervo da carreira dela, com laços entre os admiradores. “Penso que uma artista da grandeza dela, com uma obra inquestionável e uma contribuição monumental para nosso povo tinha que receber todas as formas de valorização, respeito e, principalmente, a difusão desse trabalho, ainda mais num país em que a memória é tão curta. Um artista só existe em virtude de seus fãs e Elza sempre teve o melhor dos gestos com os seus, uma generosidade, amor e carinho sem tamanho”, relata.

Estudante de psicologia (fonte preferiu não ser identificada) e a primeira mulher de sua família a cursar ensino superior, viu Elza pela primeira vez em 2016 falando sobre representatividade e esse assunto lhe abriu um novo horizonte. Acredita que historiadores e pensadores devem incentivar essa geração a se libertar dessas amarras mostrando os fatos. Para ela, “o racismo e o feminismo andam juntos e dão demonstrações diárias. "Recentemente fiz uma entrevista de emprego para área administrativa, quando cheguei ao local, antes de me apresentar perguntaram se era para vaga de limpeza", conta.

Simone Siqueira, é percursionista e assim como Elza, apaixonada pela música desde criança. Já nessa época, ouvia do tio que tocava pagode com amigos no quintal de casa. “Vai pra lá que você é menina, menina não toca”, diziam a ela. Até que aprendeu pelo olhar, pelo sentir e enfim ganhou a atenção e ensinamentos da família.

Simone, toca percussão geral e é autodidata em todos os instrumentos que compõem essa categoria. Ainda aos 13 anos, montou seu primeiro grupo de samba e começou a fazer apresentações em festas na escola e em aniversários de amigos. Em 2007, pediu demissão de emprego formal, no qual tinha sete anos de carteira assinada, para viver de música e se dedicar ao Charme, grupo de samba raiz formado apenas por mulheres. Dois anos depois, o grupo acabou porque o marido da vocalista não queria mais que ela fizesse shows, “fiquei revoltada e vendi todos os instrumentos que tinha”, comenta.

Se afastou da música. Depois de algum tempo, o marido de Simone, percebendo que a música lhe fazia falta, foi lhe presenteando a cada data com um instrumento diferente “presente não se vende” e assim voltou a tocar dessa vez como freelancer, dessa forma vive com o que ganha com a música, amando o que faz. Ainda hoje, com uma agenda cheia, se vê em situações de preconceito no próprio meio musical, tendo que de alguma forma provar que é mulher e aguenta o pandeiro.

Lisandra Beraldo, pedagoga e pós graduada em ensino infantil, diz que “Elza sempre esteve presente nos almoços de domingo. Minha família não perde uma oportunidade para se reunir e ao som de muita música”. Nascida na década de 80, numa família constituída majoritariamente por mulheres, sendo todas empregadas domésticas, o objetivo era ter boa patroa, pois assim teriam um emprego garantido. Sua mãe foi a primeira mulher da família a concluir ensino superior, aos 45 anos, com incentivo dos filhos já adultos. Relata também sua própria dificuldade em concluir a graduação que teve início 5 anos após a formação no ensino médio, quando conseguiu um emprego para custear, uma vez que não podia contar com auxílio financeiro dos pais.

O empoderamento é a tomada de poder, o grito de justiça. A representatividade é essencial. O ser humano é capaz de conquistar seu espaço mesmo que a cultura patriarcal, preconceituosa e racista mostre o contrário ao longo dos séculos.

Por fim, a trajetória dessa pioneira que encontrou eco nos movimentos sociais, grita e encontra uma legião de correspondentes para somar a luta e cultura. Sua existência é uma reafirmação da esperança. É, portanto, uma lição de vida.
 


Referências:
CAMARGO,Zeca.Elza.Rio de Janeiro. Editora Leya,2018.
Fã Clube Oficial Elza Soares, 2015. Disponível em: https://faclubelzasoares.wixsite.com/avozdomilenio

 

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