14/07/2020 às 09h56min - Atualizada em 14/07/2020 às 08h43min

O que não aprendemos em 60 anos de "O sol é para todos"

Douglas Augusto - Editado por: Lavínia Carvalho
Depois de dois anos e meio escrevendo e capturando memórias da infância, Harper Lee finalmente lançaria o livro "O sol e para todos". Publicado em 11 de julho de 1960, o público viria a conhecer as aventuras de Scout, a narradora de seis anos, irmã do Jem e amiga do Dill. E mais do que isso, as desigualdades e preconceitos que aquela pequena cidade fictícia, Maycomb, do interior do Alabama da década de 30, tinha a esconder. Depois dos 60 anos do lançamento, será que essa assimetria social e prejulgamento racial ainda assombram as cidades nada fictícias de "Maycombs" de hoje?
 
"— Se esqueceu do almoço hoje, foi? — perguntou a Srta. Caroline. O queixo do Walter voltou a contorcer-se.
— Si’ stôra.
A Srta. Caroline dirigiu-se à sua escrivaninha e abriu a carteira.
— Aqui tem vinte e cinco centavos — disse ela ao Walter.
— Vai e come na feira da cidade hoje. Pode me pagar amanhã.
O Walter abanou com a cabeça... Quando o Walter abanou a cabeça pela terceira vez, alguém sussurrou:
— Vai lá Scout, diz pra ela!
O meu conhecimento particular da tribo dos Cunninghams diga-se, na verdade, um
dos seus ramos — foi adquirido através dos acontecimentos do Inverno passado. O pai do Walter era um dos clientes do Atticus. Uma noite, após uma conversa sombria na nossa sala de estar sobre o morgadio, antes mesmo de sair, o Sr. Cunningham disse
— Não sei quando é que lhe vou poder pagar, Dr. Finch.
— Walter, que essa seja a menor das tuas preocupações — respondeu o Atticus... Perguntei ao Atticus se algum dia o Sr. Cunningham ia nos pagar.
— Não em dinheiro — respondeu o Atticus—, mas ele vai pagar antes do ano acabar. Vai ver. E vimos. Certa manhã eu e o Jem encontramos um monte de lenha para o fogão no nosso pátio dos fundos. Uns dias mais tarde, apareceu um saco cheio de nozes nas escadas lá de trás. Juntamente com o Natal veio um grande cesto de salsaparrilha e azevinho.

Na Primavera seguinte, quando encontramos um saco cheio de cebolas, o Atticus disse ao Sr. Cunningham que ele já tinha mais do que pago sua dívida.

— Por que é que ele te paga assim? — perguntei.
— Porque é a única forma que ele tem de me pagar. Ele não tem dinheiro.
— Atticus, somos pobres?
O Atticus abanou com a cabeça.
— De fato somos. Jem franziu o nariz.
— Somos tão pobres como os Cunninghams?
— Nem tanto. Os Cunninghams são gente do campo, lavradores e a Depressão atingiu-os em cheio...

O problema das sucessões hereditárias era apenas uma das muitas aflições do Sr. Cunningham. Os hectares que não tinham sido abrangidos pelo morgadio foram completamente hipotecados e a pequena soma de dinheiro proveniente da sua exploração ia toda direitinha para os juros. Se o Sr. Cunningham mantivesse a boca calada, podia conseguir um emprego através da WPA, mas a sua terra seria arruinada se ele a abandonasse. Por isso, estava disposto a passar fome para manter o seu quinhão e tomaria a decisão que muito bem entendesse."
Harper Lee nos apresenta um lugar claramente dividido, onde adultos e crianças sabem o seu "papel social" e nada pode fugir disso. E a pessoa que nos ajuda a construir mentalmente esse "universo" de ruas em que pretos não podem pisar do lado "a" da calçada e onde filhos dos pobres participam apenas do primeiro dia de aula para cumprir a lei, é uma criança.

A autora traz toda a expectativa ingênua de uma menina aos seis anos para usar a suas palavras sem filtro à sociedade da época. Não demora para conhecemos também o Atticus, pai da narradora, advogado, homem que vive por seus princípios e decide defender a causa de um homem preto acusado injustamente por estuprar uma mulher branca, cuja a pena seria a morte.
"— Todos os advogados defendem pre... negros, Atticus?
— Claro que sim, Scout.
— Então, por que é que o Cecil diz que ’ocê defende preto? É que ele deu a entender que faz alguma coisa fora do comum.

O Atticus suspirou:
— Neste momento estou defendendo um negro... chama-se Tom Robinson. Vive naquela pequena casa que fica além da lixeira da cidade... "

A estudante Raquel Silveira, de 19 anos, sendo uma mulher preta, avalia "O Sol É Para Todos" como um livro sexagenário, mas que de ultrapassado não tem nada. "O fato de o livro ser narrado por uma criança torna a experiência da leitura ainda mais especial, pois Scout, a pequena narradora, reproduz diversas vezes ensinamentos racistas que aprendeu, mas nem ela mesma sabe onde. Em um momento de sua vida, Scout se vê em uma situação conflituosa pois seu pai está disposto a defender um homem negro no tribunal, e, por isso, seus colegas de classe começam a ofendê-los. Dessa forma, sem perceber, ela aprende que até o fato de estar associado com um negro, mesmo que de forma profissional, é algo ruim", diz. 

Segundo ela, é esse mesmo pensamento que leva os Ewells a acusar Tom Robinson de estupro. "Na cabeça racista deles, era vergonhoso demais sentir desejo por negro, era preferível se expor para toda cidade como vítimas de violência por um homem negro. Mas principalmente, por um motivo: eles sabiam o peso que tinha a palavra de um homem branco contra a palavra de um homem negro. O livro se mostra atual quando não precisamos ir longe pra compreender a seletividade racial do nosso sistema penal. Não podemos esquecer o caso Rafael Braga, por exemplo", finaliza. 



NÃO É UM CASO ISOLADO

Era junho de 2013, milhares de pessoas reunidas no centro do Rio de Janeiro para se manifestar contra o aumento da passagem de ônibus. E andava não muito longe dali Rafael Braga, morador de rua e catador de produtos recicláveis, que foi preso pois andava com dois produtos na mão que foram considerados como “artefato explosivo ou incendiário” pelos policiais e pelo juiz responsável pelo caso. Os produtos eram uma água sanitária e um desinfetante Pinho Sol.

Rafael Braga se tornou o símbolo da falta de justiça, da seletividade penal e racismo institucional, onde pessoas da favela e pretos são presos, julgados e condenados pois o tom da pele foi a único objeto de estudo dos casos. Rafael, infelizmente, é apenas mais um da lista de casos que acontecem todos os anos no Brasil e no mundo. Caso George Floyd, caso da menina Ágatha, caso João Pedro, caso Miguel...

Lee nunca esperou que o livro se tornasse uma representação tão grande assim. “Eu nunca esperei nenhum tipo de sucesso com ‘Mockingbird’, eu esperava por uma morte rápida e indolor nas mãos dos críticos, mas, ao mesmo tempo, eu também esperava que alguém fosse gostar do livro a ponto de me encorajar. Publicamente.” disse a autora em 1964.

Mas livros como O sol é para todos tem se mostrado cada dia mais necessários e atuais. Toms Robinsons continuaram sendo condenados enquanto cidades como Maycomb forem normalizadas.
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