28/04/2019 às 10h41min - Atualizada em 28/04/2019 às 10h41min

Entrevista | Cientista político fala sobre a atual conjuntura política do Brasil

Bhreno Vieira é cientista político formado pela pela Universidade Federal de Pernambuco

Samuel D´Paulla - Editado por Naryelle Keyse
BHRENO VIEIRA
Imagem: Arquivo pessoal
Para entender um pouco a nova conjuntura político-administrativa do Brasil conversamos com o cientista político Bhreno Vieira. Em suas afirmações vemos que o atual cenário político é um momento singular para o povo brasileiro.

Confira abaixo a entrevista completa em que o cientista comenta as consequências das interferências da família do presidente Jair Bolsonaro no Governo.

Qual o valor histórico da influência da família do presidente em assuntos do governo e na própria articulação política?
            
Pois bem, vale lembrar ao leitor que a história política brasileira sempre foi recheada de eventos e situações em que os atores históricos confundiam-se entre aquilo que era público e privado. Se olharmos na história imperial, a Marquesa de Santos, amante do imperador D. Pedro I, conseguiu nomear figuras como seu pai e irmãos para a máquina pública e mais recentemente vimos aqui no estado de Pernambuco o aparelhamento da burocracia estatal pela família Arraes, por exemplo.

É importante notar, que essa confusão (entre o público e privado) desde do período que chamamos de “Nova República” (pós-Constituição de 88) não chegou a ocupar e figurar os bastidores do Palácio do Planalto, salvo algumas exceções, como a primeira-dama Roseane Collor (ex-mulher do presidente Collor) que não influenciava nas decisões do governo; porém, chamava atenção pela ostentação de bens materiais e uma submissão ao marido. Ou situação similar, mas não durante a Nova República, aconteceu na década de 50, onde Alzira Vargas que ocupou a chefia do Gabinete Civil durante o mandato do pai (Getúlio Vargas), influenciando em suas decisões políticas.

Então, podemos concluir que estamos vivendo um momento singular, mas não sobrenatural na política brasileira. Até porque, é muito comum ocorrer na política estadual, o controle de determinadas famílias nos governos estaduais ou municipais, algo que de certa forma se enquadra na “velha política”, vício que o presidente combateu durante todo o período de campanha. E então, porque singular? Pois, é a primeira vez, que termos um presidente que tem um filho na Câmara e outro no Senado. E ambos, interferem nas decisões e ações do pai.

Quais consequências  essas interferâncias da família Bolsonaro tem na administração do Governo?

Há muitas consequências. Até agora, estamos assistindo um governo suicida e sem nenhuma coordenação, seja ela interna (dentro do Gabinete) ou externa (com o Congresso e demais poderes). Há momentos de coordenação aqui e ali em torno de determinados temas, mas não podemos dizer que há uma base de apoio no Congresso.

As urnas foram generosas com o presidente, tivemos um Congresso majoritariamente formado por partidos de centro-direita ou direita. Utilizando a metáfora de um professor de Ciência Política, “é como se Bolsonaro ganhasse na MegaSena, gastasse todo o seu dinheiro comprando uma Ferrari e ao sair com ela na rua, acabasse batendo e ainda não tivesse pago o seguro”. E isso é perceptível por meio de pesquisas de opinião pública que atestam a sua queda de popularidade, demostrando que o patamar de apoiadores voltou aos números que ele tinha no final de 2017.

Um dos motivos para isso, seria a interferência dos filhos. O governo é fruto da junção de grupos conflitantes do Brasil, como o “lava-jatismo”, o antipetismo, o antissistema, o conservadorismo de costume, o olavismo, o desejo de “lei e ordem”, os liberais e as Forças Armadas. São grupos conflituosos, e a gestão não seria fácil. O tanto que eu até brincava quem Bolsonaro irá “trair” primeiro? E para piorar a situação, os filhos não o ajudam a colocar ordem “na casa” e criam ainda mais crises.

Durante a transição e os primeiros 100 dias, assistimos um dos filhos desmoralizar o Supremo Tribunal Federal, um filho sob suspeita de receber dinheiro ilegal e possuir relações com a milícia do Rio, e outro que foi pivô na queda de um ministro e se vê enrolado em suspeitas de uso irregular de dinheiro na campanha do PSL: e ambos falando em nome do pai e influenciando as decisões políticas. Além do conflito entre Carlos e Mourão que estampou as capas dos principais boletins de notícia desta semana. Algo que, que entra em contradição com o discurso de campanha de Bolsonaro, pois pregava que iria combater a ‘velha política”, mas até agora ele mesmo não se mostrou distante dessas práticas.

Como essa ingerência da família de um presidente em assuntos governamentais é vista ao redor do mundo e o quais as consequências? 

 
Podemos dizer, que a eleição do Jair é fruto do contexto internacional que estamos vivendo, que está marcado pela ascensão de líderes populistas autoritários por via democrática, como Trump nos Estados Unidos, Erdogan na Turquia ou Viktor Orbán na Hungria. É natural que esses o apoiem, mas até entre os políticos de direita ou extrema-direita como Marine Le Penn, segunda colocada nas eleições francesas (extrema-direita) e Sebastián Piñera (direita), presidente do Chile à reações contrárias. Há um apoio simbólico de Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro de Israel), mas até onde vai não posso argumentar, pois até agora não vimos reações práticas e imediata nas relações entre os países.
 
Mas as democracias europeias e a China, principalmente, estão até agora tentando compreender qual é o rumo que o Brasil irá tomar, pois até o momento o que tem acontecido em um dia, acaba voltando-se atrás na manhã seguinte. E realizar negócios e acordo comerciais em um terreno instável mina a confiança dos investidores e a credibilidade na economia brasileira. E um dos filhos do presidente ocupa um cargo importante neste assunto, que é o Eduardo Bolsonaro (atual presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional), que assume um alinhamento a Trump de maneira incondicional. Até onde essa submissão a Trump vai nos levar? E o que ganhamos com isso? Então, há cálculo de custo e benefício que precisa ser feito para guiar as decisões do Brasil e até agora não está sendo realizado. Tanto no que refere-se a política externa e em outras áreas prioritárias do governo.

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