04/09/2020 às 09h57min - Atualizada em 05/09/2020 às 10h00min

Veias abertas: 80 anos de Eduardo Galeano

O eterno contador de histórias

Adélia Fernanda Lima Sá Machado - Editado por Bruna Araújo
El País, obras de Eduardo Galeano
Eduardo Hughes Galeano foi um jornalista e escritor uruguaio que nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu. Em setembro do corrente ano, Eduardo, um dos grandes pensadores da América Latina, estaria completando 80 anos de idade. Ele faleceu no ano de 2015 na mesma cidade em que nasceu. Para que sua trajetória e escritos permaneçam vivos e inundando casas, leitores e inspirando jornalistas, é necessário falar e conhecer sua história.

‘AUTOBIOGRAFIA COMPLETÍSSIMA’
Eduardo Galeano
“Nasci no dia 3 de setembro de 1940, enquanto Hitler devorava meia Europa e o mundo não esperava nada de bom. Desde muito pequeno, tive uma grande facilidade para cometer erros. De tanto errar, terminei demonstrando que ia deixar uma profunda marca da minha passagem pelo mundo. Com a sã intenção de aprofundá-la, tornei-me escritor, ou tentei sê-lo. Meus trabalhos de maior sucesso são três artigos que circulam com meu nome na Internet. Na rua as pessoas me param, para me parabenizar, e cada vez que isso acontece começo a desfolhar a margarida: – Me mato, não me mato, me mato... Nenhum desses artigos foi escrito por mim”.

Um trecho de O caçador de histórias.
 

Eduardo sempre sonhou em ser jogador de futebol, mas observou que não possuía habilidades para tal prática, apesar disso, usou o seu dom da escrita a favor da sua genuína paixão. Escreveu e opinou muito sobre o esporte.

A sua trajetória no mundo do jornalismo teve um primeiro pequeno passo logo aos 14 anos de idade, quando ele enviou uma charge para o jornal El Sol, pertencente ao Partido Socialista. Mas de fato sua carreira na imprensa se firmou nos anos 60, quando ele se tornou editor do jornal Marcha ao lado de grandes nomes como o de Mario Benedetti.

O uruguaio é um grande nome quando se trata do antiamericanismo e anticapitalismo na América Latina no Século XX. Foi através da obra: “As Veias Abertas da América Latina”, publicado em 1971, que se tornou um grande expoente da temática, que inclusive, vale destacar que nos anos 70, período do regime militar no Uruguai, foi duramente perseguido em decorrência dessa publicação.

O livro, uma de suas maiores obras primas, foi alvo de perseguição pelo fato de Eduardo fazer referência a esquerda, onde ele faz uma análise da história da América Latina, desde o processo do colonialismo até o século 20.

No ano de 1973, Galeano foi preso em razão do golpe militar em seu país, três anos depois, devido à grande violência da ditadura argentina, mudou-se para a Espanha. Depois disso continuou escrevendo e publicando várias outras obras, dentre elas: “Memória do Fogo”, mais um de seus destaques também como escritor.

Em 2014, um ano antes do seu falecimento, Eduardo Galeno declarou que não se identificava mais com sua obra anticapitalista, citada anteriormente, “As Veias Abertas da América Latina”, declarou: “Para mim, essa prosa da esquerda tradicional é extremamente árida, e meu físico não a tolera.” Demonstrando que com o tempo as visões e posicionamentos são reconstruídos.

Eduardo Galeno é conhecido pela publicação de mais de 30 livros, todos com traduções em mais de 20 diferentes idiomas, possuindo temas instigantes e problemáticos desde a época de publicação, até os dias atuais. Suas obras possuem ficção, análise política, História e gêneros ortodoxos.

 Foi destacado no início da matéria a paixão de Galeano por futebol e como ele passou isso para os seus escritos. Vários textos foram escritos por ele possuindo essa temática como central, ele traduzia com enorme leveza e com toques de poesia o jogo que revela vários sentimentos ao redor do mundo. Dentre suas obras sobre essa sua paixão destaca-se o: Futebol ao Sol e à Sombra, uma obra que faz uma revisão histórica do jogo, além de compará-lo com uma performance teatral e com a guerra. Seuguem um trecho dessa obra.

Trecho do livro: Futebol ao Sol e à Sombra:

Confissão do autor

Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna de pau que já passou pelos campos do meu país. Como torcedor, também deixava muito a desejar. Juan Alberto Schiaffino e Julio César Abbadie jogavam no Peñarol, o time inimigo. Como bom torcedor do Nacional, eu fazia o possível para odiá-los. Mas Pepe Schiaffino, com suas jogadas magistrais, armava o jogo do seu time como se estivesse lá na torre mais alta do estádio, vendo o campo inteiro, e Pardo Abbadie deslizava a bola sobre a linha branca da lateral e corria com botas de sete léguas, gingando, sem tocar na bola nem nos rivais: eu não tinha saída a não ser admirá-los. Chegava até a sentir vontade de aplaudi-los. Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: - Uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre - sem me importar com o clube ou o país que o oferece.

Obras e prêmios de Eduardo Galeano:

As Veias Abertas da América (1971)
Dias e Noites de Amor e Guerra (1978)
Os Nascimentos (1982)
As Caras e as Máscaras (1984)
O Livro dos Abraços (1989)
Espelhos (2008)
Caçador de Histórias (2016)
 
Eduardo Galeano é autor de mais de 30 obras, com mais de 20 traduções, grande nome no jornalismo e na literatura, que merece ser eternizado pela sua história, trajetória e grandes pensamentos.
 
 
 

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