18/09/2020 às 09h11min - Atualizada em 18/09/2020 às 08h56min

Noite veloz: 90 anos de Ferreira Gullar

Grande nome da poesia maranhense

Adélia Fernanda Lima Sá Machado - Editado por Bruna Araújo
Academia Brasileira de Letras, Brasil Escola
Revista Época
No dia 10 de setembro de 1930 nascia em São Luís, capital do Maranhão, José de Ribamar Ferreira, que logo viria a ser conhecido como Ferreira Gullar, um dos grandes nomes da poesia nacional.

Na sua adolescência, acreditava que o poema estava ligado a pessoas já falecidas, pois não acreditava na sua modernidade, com isso, pensava que todos os poetas já haviam falecido. Mas com o tempo, aos dezenove anos de idade mais precisamente, começou a descobrir novos nomes, um poema mais moderno/atual, foi quando conheceu a escrita de Carlos Drumond de Andrade e Manoel Bandeira.

Com o conhecimento desses grande poetas da  modernidade, Ferreira começou a se arriscar e experimentar esses estilo, poema moderno, e o seu lema constituía em; sem a presença de fórmulas, baseada em uma frase de Gauguin: “Quando eu aprender a pintar com a mão direita, passarei a pintar com a esquerda, e quando aprender a pintar com a esquerda, passarei a pintar com os pés”.

Com esse estilo, o livro "Luta Corporal" foi lançado, em 1954, alguns poemas do livro intencionaram uma presença de grande linguagem poética, o que fez com que surgisse um grupo, ao qual Gullar logo viria a participar, o grupo Neoconcreto, nascido em 1959. Esse grupo contava com a presença de artistas plásticos e poetas do Rio de Janeiro, onde possuía a finalidade de provocar o surgimento da literatura brasileira, de uma poesia concreta.

No período como participante do grupo lançou alguns livros para fazer jus ao movimento e sua finalidade, dentre eles estão: livro-poema, depois, o poema espacial, e o poema enterrado, este sendo o seu último dentro do grupo, afastou-se para fazer parte da luta política e revolucionária.

Com o intuito de chegar nas mãos do leitor popular, no período de 1962 e 1966, ele publicou três poemas com estilo de cordel. Depois desse, teve grande protagonismo no mundo político, entrou no Partido Comunista, depois desse passo, seus poemas foram cada vez mais para o viés político, lutando contra a Ditadura Militar. Por este motivo foi preso e processado na Vila Militar e passou anos de exílio.

Durante e depois da prisão e exílios, Gullar continuou escrevendo, entre seus principais escritos, o durante o exílio em Buenos Aires, foi que se destacou, o famoso “Poema Sujo”, considerado a sua obra-prima, o seu poema possui mais de cem páginas.
 

Poema Sujo (trecho)
Ferreira Gullar
 
turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
 
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho que o universo fabrica
e vem sonhando desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre as folhas de
banana entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras) como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia

Em 1980 Ferreira Gullar, publicou o livro “Na Vertigem do dia" e "Toda poesia”, no qual reuniu todos os poemas já produzidos por ele, um compilado de poesias.
 
É notório perceber que é impossível falar de poesia brasileira sem falar de Ferreira Gullar, importante dentro e fora do Maranhão, pois apesar de ter passado uma boa parte da sua vida no Rio de Janeiro, ele conseguiu levar o nome de suas raízes por onde passou. Ele veio a falecer em dezembro de 2014
 
Em 10 de setembro do corrente ano, foram muitas as homenagens ofertadas ao poeta maranhense, pela lembrança de seu aniversário, onde faria 90 anos. A TV Mirante, afiliada da Rede Globo no Maranhão, produziu uma linda matéria com a presença de amigos, familiares e fãs, com o intuito de deixá-lo vivo na memória da comunidade, além disso, muitos portais de notícias produziram matérias com o intuito de apresentar sua trajetória.
 
Ferreira Gullar, sem dúvidas, marcou a história do Brasil com seus escritos com a presença de modernidade, luta e com linguagem de fácil compreensão.
 
Algumas obras de Ferreira Gullar:
 
A luta Corporal (1954)
Poema Sujo (1985)
Barulhos (1987)
Toda Poesia (1950-1980)
Muitas Vozes (1999)
 

 

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »