23/09/2020 às 12h45min - Atualizada em 23/09/2020 às 12h37min

Carta para Paulo Freire

Franciele Rodrigues - Editado por Bruna Araújo
Reprodução Pragmatismo Político
Querido Paulo, escrevo para lhe contar um pouco sobre nossos dias, mas também como uma tentativa de desafogar a alma, de aconselhar-me, confesso. Por aqui temos atravessado tempos difíceis, sombrios emprestando o termo de Hannah Arendt, mas seus importantes ensinamentos têm nos ajudado muito a atravessá-los.

Desde que você se foi, em 02 de maio de 1997, tivemos valiosas conquistas, permita-me lhe contar algumas, pois sei que ficará orgulhoso: logo após a sua partida, conseguimos mais escolas, institutos federais e universidades públicas e com muito embate eles têm recebido gentes (no plural mesmo) de todas as origens sociais, dos variados pertencimentos étnico-raciais. Eles têm sido progressivamente (povo)adas no sentido mais bonito. Até implementamos, em alguns casos, cotas sociais e raciais. Incluímos Sociologia e Filosofia nos currículos da educação básica. Tivemos mais investimento em nossas ciências.

Você ficaria muito feliz em ver isso, em presenciar filhos e filhas de trabalhadores tendo acesso aos conhecimentos, tendo suas vozes ouvidas, finalmente.

A fome já não estava levando mais tanta gente da nossa gente. Veja você, os aeroportos e shoppings centers não eram mais guetos dos privilegiados, as classes populares passaram a frequentá-los mais e não apenas como mão de obra, mas como consumidores também. A dona Maria conta com sorriso largo que aprendeu a juntar as letras com o seu auxílio, deu entrada na primeira casa própria. Ela manda lembranças. A duras penas, estávamos gestando um projeto de sociedade mais inclusivo.

Como você deve estar imaginando, tudo isso incomodou muita gente. Em 2016, sofremos um novo golpe de Estado e nos nossos sonhos. Desculpe se isso lhe traz lembranças dolorosas, sei o quanto você sofreu com a ditadura de 1964. Mais uma vez à custa dos mais pobres estão beneficiando os mais ricos, dando mais aos mesmos. Imagine, Paulo, que até tentaram criar um tal de movimento "escola sem partido", que a despeito de completo partidarismo, prega a "neutralidade". Tem um pessoal que quer reformar o ensino médio, reafirmando e ampliando as desigualdades socioeducacionais. O projeto, na verdade, reforça aquela ideia que você bem sabe, uma escola de baixa qualidade para os mais pobres e outra para as elites.




Você já tinha nos alertado que seria ingenuidade esperar das classes dominantes uma formação humana que encorajasse a pensar sobre as injustiças sociais. Vemos cada vez mais esse pessoal tem mesmo é medo do que uma educação emancipatória, como você disse, pode causar. Chegaram a tentar deslegitimar seu inestimável legado à educação brasileira, mas temos lhe defendido com toda a garra que você nos deixou.

Neste ano, também atravessamos uma crise sanitária mundial causada pelo novo coronavírus. No Brasil, mais de 138 mil mortes já foram perdidas, segundo dados do Ministério da Saúde. A pandemia tem agravado e escancarado problemas sociais que já existiam como o racismo (negros têm mais probabilidades de morrer do que brancos), a desigualdade econômica (embora a doença tenha atingido, primeiramente, regiões mais favorecidas das grandes cidades, a taxa de mortalidade nos bairros mais pobres tem sido mais alta), e a universalização da educação com qualidade (alunos, sobretudo, das escolas públicas têm encontrado dificuldades de acompanhar o ensino remoto).

Estão tentando fechar escolas, universidades - sim essas mesmas que estavam se tornando mais humanas, querendo torná-las em feudos novamente. Estão atacando direitos dos trabalhadores, a saúde pública. A fome já aparece no horizonte novamente e com ela o nó na garganta.

Sabíamos que não seria fácil tentar distribuir igualdade de oportunidades. Estamos muito preocupados e temos sofrido na carne a violência dos poderes públicos quando tentamos demonstrar nossas ideias e vontades. Com imensa dor lhe informo que professores e estudantes têm apanhado por defenderem suas escolas. Posso ver sua lágrima escorrendo e compartilho dela.

Mas temos reagido a todos esses retrocessos. Você nos disse que é preciso ter esperança, lembra? Que o caminho da história nunca está dado a priori, que somos seres inacabados, passíveis de sermos transformados e de transformar. Cremos que voltaremos a dar outro sentido ao curso da história, iremos voltar a construir uma sociedade mais igualitária, menos excludente.

A distopia não vencerá as muitas utopias que você nos deu e carregamos conosco. Estamos resistindo, acredite!

Assim que possível lhe contatarei novamente. Por aqui sentimos muito a sua falta!
Abraços,

Franciele, professora que divide o coração entre o interior de São Paulo e as bandas do norte do Paraná.

Londrina, 19 de setembro de 2020 ou 99 anos de Paulo Freire!
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