29/09/2020 às 10h44min - Atualizada em 29/09/2020 às 10h44min

Grande Hotel: um fantasma no centro da cidade

Abandonado há mais de nove anos, o edifício que marcou gerações está em situação precária

Lavínia Carvalho

O prédio de número 3455, agora passa despercebido aos olhares que cruzam a Avenida Leopoldino de Oliveira, principal de Uberaba. As paredes, já sem pintura, misturado à infiltração evidente, denunciam o abandono do local. O complexo do Grande Hotel e Cine Metrópole, foi o primeiro edifício erguido no Triângulo Mineiro e uma das principais referências arquitetônicas da região nos anos 80. Atualmente, é inventário do Patrimônio Histórico de Uberaba e encontra-se em estado de degradação sem nenhuma pretensão de reforma.

 

Em 2016, após a morte do último dono do local, o ex-prefeito de Uberaba, Hugo Rodrigues, o prédio ficou como herança para alguns membros da família Rodrigues da Cunha. “Por ser um local privado, a nossa iniciativa [do patrimônio] é apenas manter a preservação do local e a política de inventário”, ressalta o representante do Patrimônio Público de Uberaba, professor e historiador, Gustavo Vaz.

 

Até o momento não existe nenhum projeto de restauração do local. “Ele tem um dono, então reforma ou restauro, não há nenhuma pretensão por parte do poder público, porque faz parte da iniciativa privada”, afirma. A informação mais recente sobre reforma do prédio, é a de um projeto que estava em análise no Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico de Uberaba (Conphau), para transformar a área do cinema em estacionamento e restaurar o hotel para que voltasse a funcionar, mas até agora nada foi feito. 

 

Patrimônio Histórico 

 

O representante do Patrimônio Histórico de Uberaba, Gustavo Vaz, conta que o prédio do Grande Hotel foi inventariado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais  (IEPHA) em 1987. “O inventário é um instrumento de preservação do patrimônio cultural, regulamentado em Uberaba pela lei 10.717, que requer a proteção da fachada desses imóveis”, explica. 

 

Segundo o historiador, Guido Bilharinho, a proteção de prédios históricos ou de valor artístico-arquitetônico é complicada. “A maneira como é efetuada, fazendo recair exclusivamente sobre os respectivos proprietários todo o ônus de conservação e manutenção, com a agravante dos órgãos públicos os multarem quando consideram que eles não os estão protegendo como devia, é questionável”, afirma.

 

Ainda segundo ele, nesse sistema, além dessa dificuldade, os proprietários ainda saem prejudicados pela desvalorização dos imóveis e  restrição de comercialização. “Ninguém, em sã consciência e saúde mental, adquire imóveis nessas condições. Os proprietários não podem ampliar ou demolir seus velhos (e muitas vezes decrépitos) imóveis. Só um grande grupo empresarial, hoteleiro ou não, poderá adquiri-lo e modernizá-lo. Entretanto, não há a possibilidade de preservá-lo, sem que nele sejam exercidas atividades lucrativas”.

 

A história 

 

Inaugurado em 12 de fevereiro de 1941 e construído em apenas 15 meses no estilo Art Decó, o prédio do Grande Hotel de Uberaba e Cine Metrópole, marcou os anos 80. Luxuoso e moderno para a época, o empreendimento foi o primeiro edifício erguido no Triângulo Mineiro, com  6.945,93m² de área construída. Sua história foi marcada pelos bailes frequentados pela classe boêmia, pela hospedagem do ex-presidente Juscelino Kubitschek e do cantor Roberto Carlos e pelo Cine Metrópole, um famoso cinema de rua que naquela época reunia públicos de todas as idades.

 

O historiador, Guido Bilharinho, conta que o Grande Hotel foi construído e dirigido por uma empresa cinematográfica, a São Luís, que como o próprio nome indica indica, tinha por finalidade a direção e exploração comercial de cinemas, prova disso é o Cine Metrópole, o maior e melhor cinema da empresa. Por volta de 1960 foi construído, ao lado do prédio primitivo, um moderno anexo com dezenas de apartamentos e um luxuoso restaurante no piso térreo.

 

Memórias 

 

Cenário de grandes histórias de amor, o Grande Hotel marcou gerações. Os pais de Bianca Rezende Senne, por exemplo, se conheceram enquanto eram funcionários do local. Ele, o Sr. José Olegário Sene e ela, a Maria Abadia De Oliveira.“Minha mãe era noiva há cinco anos e foi trabalhar lá como telefonista, segundo ela, foi amor à primeira vista. Ela largou o noivo pra ficar com ele. Isso foi em 1968, eles casaram depois de 6 meses de namoro”, relembra Bianca. 

 

Com a infância marcada pelo lugar, Bianca se recorda dos seus dez anos e dos momentos que brincava de tocar o piano na sala de estar do hotel. “Minha mãe fazia um trabalho no sanatório espírita e eu não tinha com quem ficar, ela me deixava lá com meu pai, todas as quartas-feiras. Eu chegava e ia direto pro piano tocar, dele eu ia para a máquina de datilografia, e em seguida corria pro andar da copa, a sala do meu pai ficava nesse andar, o que pra mim ótimo porque eu não saia da cozinha”, se diverte.

 

Segundo ela, o sentimento ao ver o prédio atualmente é de desalento. “É uma mistura de indignação com tristeza, é muito triste vê-lo como está, ainda mais sabendo que meu pai deu o sangue por aquele lugar, deixou de passar momentos com a família pra ‘tocar aquilo lá’, eu passo lá na frente toda semana e o sentimento é muito ruim”, desabafa. “Meu sonho é que ela reabra e eu possa trabalhar lá. Se daqui 10 anos reabrir e eu já estiver na minha área, largo tudo pra ir trabalhar lá”. 

 

Quando o jornalista Jorge Alberto Nabut ainda nem sonhava em nascer, o prédio foi construído, entretanto, anos mais tarde ele tornou-se um dos frequentadores do Cine Metrópole, e se recorda até hoje dos filmes que assistiu e do tempo em que se exigia uso de paletó e gravata para os homens. “Filmes românticos e faroeste dominavam a programação, mas sempre foram filmes norte-americanos. Eles não exibiam os brasileiros, nem latino-americanos, nem europeus. Independente do filme, o sucesso era o mesmo. Filas enormes nos fins de semana. Era programa social obrigatório”, conta.

 

Segundo ele, os  cinemas deixaram as ruas e foram para os shoppings, mas nada parece ter mudado. “É ainda o cinema norte-americano que domina, sem chances para produções maravilhosas da Ásia, Oriente Médio, Europa, que só temos acesso frequentando cinemas de Rio de Janeiro e São Paulo. A história se repete. Será sempre assim”, observa.

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