16/10/2020 às 09h22min - Atualizada em 16/10/2020 às 09h18min

Visagens, assombrações e riqueza cultural

Reflexos da cultura paraense em lendas urbanas

Flavia Rocha - Editado por Bruna Araújo
Capa do livro/ imagem capturada pela autora

Por muitos anos, um costume muito forte em Belém do Pará era o seguinte: durante à tarde (após a chuva das três horas, claro), você reunia um grupo de pessoas, juntava umas cadeiras e conversava até anoitecer. Eventualmente, a conversa chegava em temas mais sombrios e cada um tinha a oportunidade de contar se já tinha tido um encontro com alguma visagem ou assombração. Os antigos, isto é, avôs e avós geralmente tinham as melhores histórias, com mais detalhes. Já as crianças só escutavam, com um pouco de medo, mas já ansiosas para compartilhar as histórias com seus amigos no dia seguinte.


Pelo costume da oralidade, as histórias iam passando de boca em boca, de geração em geração, até que já fosse de praxe que todos soubessem. Hoje, há diversas coletâneas de lendas feitas por autores paraenses, mas uma das mais famosas, sem dúvida é “Visagens e Assombrações de Belém”, de Walcyr Monteiro. A primeira edição foi lançada em 1986 e desde então, o livro foi usado em diversas escolas da região como material paradidático. 


O nome “Visagens e Assombrações” não poderia ser mais adequado. De acordo com o Dicionário Aurélio (1995), visagem significa “fantasma”; já assombração significa “Pavor motivado pelo encontro ou aparição imaginária de coisas sobrenaturais”, e grande parte das histórias contadas no livro caem em uma dessas categorias.


Muitos desses contos são provenientes dos interioranos do estado do Pará, que trouxeram essas histórias para a capital e transmitiram esses conhecimentos ao povo de Belém. Presentemente, fazem parte da crença não somente dos interioranos, mas também da população belenense.


A funcionária pública Célia Oliveira um dia foi uma dessas crianças que escutavam os avós contarem essas histórias, num misto de medo e admiração. “Nos anos 70, eu e minhas irmãs morávamos no bairro de Canudos. Vivíamos com nossa avó, que era de Castanhal. De tardinha, quase ‘pra’ noite, ela nos reunia na sala de casa e contava histórias. A minha memória mais antiga é sobre a história da moça do táxi”, afirma Célia.


“A moça do táxi” é uma das lendas mais famosas em Belém. Os antigo dizem que havia uma moça moradora da cidade, e que todos os anos em seu aniversário, o seu pai pagava um táxi para fazer um passeio por Belém. Contam que mesmo após sua morte, ela ainda fazia esse passeio e dizia ao motorista para cobrar em certo endereço no dia seguinte. No entanto, ao chegar na residência indicada, o motorista recebia a notícia: a moça que ele descrevia já estava morta há muito tempo. Em seu livro, Walcyr Monteiro explica que há diferentes versões dessa lenda (apresentam divergências como qual o endereço dos pais da moça, ou qual era o percurso que ela pedia para o motorista fazer), mas a acredita-se que a moça do táxi seja Josephina Conte, sepultada no cemitério de Santa Isabel. Os antigo acreditavam que o espírito de Josephina poderia operar milagres.


A lenda da Matinta Perera foi uma dos contos que vieram do interior para a cidade. Na calada da noite, os moradores do local começam a ouvir assobios muitos altos, do tipo que ecoam por todos os cômodos da casa. Segundo os antigos, é a Matinta Perera que faz tal barulho e você deve prometer tabaco a ela para que o silêncio volte a reinar e todos possam dormir tranquilos. Dizem que na manhã seguinte, uma senhora de idade aparece para coletar o que foi prometido. No livro, Walcyr Monteiro conta que no bairro da Pedreira, um dos mais antigos de Belém, houve aparições da Matinta.


Essas histórias de visagens e assombrações e lendas urbanas, como a da “A moça do Táxi” e a da “Matinta Perera” estão incluídas no contexto de lendas, por misturar fatos reais com o fantástico. Já histórias como da “Cobra-grande”, que para muitos ribeirinhos é a explicação para o surgimento de alguns dos grandes rios da região amazônica, enquadra-se como mito, por ser uma história fantasiosa que tenta explicar como algo passou a existir. A Cobra-grande também fez migração e acredita-se que ela mora embaixo da cidade de Belém. E se um dia ela se mexer, a cidade irá afundar. Essa história ganhou força no contexto urbano após um tremor ter sido sentido pelos moradores da cidade na década de 70.


Essas histórias refletem a cultura de Belém, principalmente relacionada à religião e ao espiritualismo. Crenças relacionadas ao cristianismo, à Umbanda e a outros saberes de origem indígenas que não conseguimos mais nomear faz com que histórias relacionadas a almas consideradas milagrosas, como a moça do táxi, e seres mitológicos como a Matinta Perera encontrem um solo fértil para se perpetuarem. Mesmo que indiretamente, todos os moradores têm contato com religiões e crenças diversas que ajudam a formar a cultura belenense que temos atualmente.


Agora, essas histórias são bem antigas; tanto que se você pedir para duas pessoas contarem a mesma história, você receberá duas versões diferentes. Com a mudança do espaço e a introdução de novos, saberes, a crença inabalável nesses contos começa a se perder. Mas ainda assim, poucos moradores dispensam as crendices de forma completa. Há um senso de respeito. Melhor não mexer com esses seres do que se arrepender depois. 


“Eu acredito que todas essas histórias tem um fundo de verdade”, conta Célia Oliveira. “Eu contei essas histórias para os meus filhos no passado e hoje em dia conto para os meus netos. Não apenas pela questão das crendices populares, mas porque essa é a nossa cultura. Quero que eles sintam orgulho de viver em lugar tão rico”, afirma.
 
  "Visagens e Assombrações" é dividido em cinco partes: a primeira é coletânea de contos; a segunda é a descrição do Culto das Almas, qual devotos rezavam para as chamadas almas milagrosas (como Josephina Conte, a moça do táxi); logo após, o autor faz uma síntese histórica da cidade (que na época ainda era chamada de Distrito de Belém) e mostra a importância politícia-econômica da Belém de 1972; a quarta parte é uma primeira abordagem de interpretação dos fenômenos; e por fim, a conclusão do autor. Há também fotografias referente ao Culto das Almas e notas de jornais.


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