04/12/2020 às 09h40min - Atualizada em 04/12/2020 às 09h26min

Invasão literária!

Em alusão aos dez anos da tentativa de pacificação do Complexo do Alemão, o jornal Voz da Comunidade faz distribuição gratuita de livros

Talyta Brito - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Instagram @renesilva
Comércios fechados, ruas ocupadas por caverões e tanques do exército, veículos queimados em praças públicas, policiais espalhados por todos os lados, população amedrontada. Os estrondos de balas, os quais infelizmente fazem parte da realidade de muitos brasileiros, agora soavam com mais frequência e intensidade. Era domingo, 28 de novembro de 2010, as emissoras de tv de todo o país interromperam suas programações para transmitir aquele momento histórico. Quinto dia de combate entre militares e traficantes, o motivo: o domínio do Complexo do Alemão, agrupamento de 13 favelas localizado na zona norte do Rio de Janeiro. 

Uma década depois, o cenário era outro. Os coletes a prova de bala deram espaço aos uniformes de voluntários, as armas de fogo que outrora predominavam foram substituídas por uma munição de papel. No sábado, a equipe do jornal local Voz da Comunidade promoveu uma invasão diferente daquelas que  acontecem costumeiramente. Em parceria como a Bienal do Rio, foram distribuídos cerca de 15 mil livros para os moradores da localidade. A iniciativa partiu do morador e ativista René Silva, que na época da ocupação relatava de maneira humanizada, através da sua conta pessoal no Twitter, a realidade enfrentada ali.  


                                                             ( Fonte: reprodução - Instagram @bienaldolivro) 

Ao invés de chuva de projeteis, teve chuva de Djamila Ribeiro, Lázaro Ramos, Barack Obama, Geovane Martins e Emicida. Nesse dia as pautas nos jornais mudaram, nada de relatos de apreensão, pelo contrário, era dia de registar rostos alegres - consequência da libertação gerada pela palavra escrita. Quando questionado sobre o impacto da tentativa de ocupação, René Silva, idealizador da invasão literária, declarou:  
 
“Se eu falar que não teve mudança eu seria hipócrita, tivemos algumas mudanças, mas muito pequenas comparadas ao que poderiam acontecer de transformação social durante os dez anos. Dez anos é uma década, nós estamos falando de uma década de praticamente abandono. O que foi feito em relação para manter o teleférico funcionando? Nada! O teleférico parou em 2016, quatro anos parado e ninguém fez nada, ninguém se esforçou para fazer ele funcionar [...] nave do conhecimento fechada, cinema fechado, a biblioteca Parque do Alemão fechada, uma das clínicas da família fechada, quatro bancos que vieram pra cá fecharam, só ficou o banco que já estava antes da ocupação. Então o que a gente vê no total, o balanço que a gente tem nessa década, durante esses dez anos, é que pouca coisa mudou. [...] Eu me lembro muito bem de que na época o então governador Sérgio Cabral, preso, falou que nas emissoras de televisão que a ocupação não seria só da polícia militar, ela seria uma ocupação de cultura, de saúde, de arte e de educação de todas essas áreas que não entraram”. 
( Fonte: reprodução - instagram @renesilva)
 
Atitudes como essas nos fazem sonhar com dias melhores e mantêm viva a esperança de que "daqui pra frente, tudo vai ser diferente!”, como diz René em um vídeo do canal Voz da Comunidade, no Youtube.

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