18/12/2020 às 11h18min - Atualizada em 18/12/2020 às 11h11min

Joaquim Nabuco: o grande abolicionista

Revolucionário e liberal, Joaquim Nabuco defendeu com toda força a causa dos escravos no Brasil, assunto que, à época, era visto como um tabu

Isabel Dourado - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Joaquim Nabuco

Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo é conhecido como um homem revolucionário, lutador e liberal. Nasceu em Pernambuco, no ano de 1849. O pai, José Tomás Nabuco de Araújo, político famoso, foi eleito deputado e precisou voltar ao Rio de Janeiro. Deixou o pequeno Nabuco aos cuidados da madrinha, Dona Ana Rosa Falcão de Carvalho, e seguiu com o resto da família para a corte. 

No engenho, Nabuco teve os primeiros contatos com os escravos. Viu-os em todas as condições imagináveis. Uma ocasião a qual marcou sua vida foi em uma tarde quando, sentado no patamar da escada exterior da casa, um jovem negro desconhecido, de cerca de 18 anos, se abraçou aos pés de Nabuco e suplicou pedindo "pelo amor de Deus" que o fizesse ser comprado pela madrinha para que o escravo o servisse.

Ele procurava trocar de senhor porque sofria maus-tratos, diversos castigos, e ele tinha fugido. Esse episódio foi o traço inesperado em que Nabuco descobriu a natureza da escravidão com a qual ele vivera até então familiarmente, sem suspeitar a dor que ela ocultava. 

Aos dez anos, Nabuco iniciou a educação e a formação literária no colégio Dom Pedro II, em Friburgo, dirigido pelo barão de Tautphoue, Joseph Herman. O barão era um educador reconhecido e influenciou Nabuco por toda a vida. Apesar do irmão Siezando ter tido uma relação mais próxima com o barão, Nabuco criou um laço de amizade que perdurou até os últimos dias da vida do educador.  

Certo dia, quando estava no quarto, ouviu que o pai tinha mudado do partido conservador para o partido liberal. Fiel discípulo do pai, espelhava-se em grande parte nas coisas que ele falava. Seguir os caminhos do pai na política estava nos planos dele.

Depois de escrever alguns versos quando tinha 15 anos, Nabuco trocou uma correspondência com Machado de Assis, que era dez anos mais velho do que ele. Machado fez um elogio generoso aos versos. “De uma certa idade em diante, pretendo me não aplicar mais à poesia... quando minhas faculdades centradas pelo estudo e pela meditação se puderem aplicar ao positivo, ao exato deixarei de queimar incenso às musas", respondeu Nabuco ao jovem crítico literário. 

Apesar de não se considerar poeta e fazer críticas severas ao próprio trabalho, era notável o amor às letras que o jovem tinha. A poesia estava na moda e muitos jovens escreviam em segredo; outros chegavam a publicar em livros sem muito valor editorial.

Em 1865, Nabuco tornou-se bacharel em Letras. Foi para São Paulo cursar o primeiro ano da Academia e na época já se denominava como estudante liberal. Desde o primeiro ano fundou um pequeno jornal. Ele prezava muito a independência de jornalista e a emancipação de espírito.

Apesar de assistir florescer um interesse pela política, Nabuco era um jovem curioso que tinha interesse em diversos assuntos. Das viagens, do espetáculo do mundo. Em 1879, surgiu Joaquim Nabuco na Câmara dos Deputados, como um estreante que jamais seria esquecido, não apenas pela sua eloquência e talento, mas porque surgiu com o debate que era considerado, à época, um tabu: a escravidão. A carreira de Nabuco começou sob o apoio do partido liberal, um dos dois grandes partidos da monarquia no Brasil. 

Tomás Nabuco foi, sem dúvida, referência de homem revolucionário para o filho. Coube-lhe, em primeiro lugar, acabar inteiramente com o tráfico de africanos que Eusébio de Queirós, seu antecessor, ferira de morte. Joaquim Nabuco escolheu alguns traços para definir a personalidade e a influência do pai na obra "Um estadista do Império".

Em um comício no Recife, antes da eleição, referira-se ao assunto "proibido", dizendo que a grande questão para a democracia brasileira não era a monarquia, mas a escravidão. Nabuco foi o chefe e o iniciador do movimento pela libertação dos escravos. A campanha abolicionista foi um episódio de grande luta e a mais comovente da história do Brasil.

A causa do abolicionismo foi a sua grande paixão e também uma das suas grandes pelejas. Nabuco sonhava com a lei que determinasse o fim da chaga que fez tantos homens cativos. Em discurso aos seus eleitores no Recife, em 1884, ainda quatro anos afastado da vitória final, mas já em toda sua força, e tendo já libertado duas províncias, o Ceará e o Amazonas.

No parlamento, fez-se logo de "advogado dos escravos", embora isso lhe devesse alhear ao apoio do partido e lhe custar a cadeira na legislatura imediata. Viu-se cercado de um grupo pequeno de idealistas e revolucionários como ele. Eram cerca de dez, mas votaram com ele em todas as suas tentativas de trazer o assunto da abolição à discussão.  Em dezembro de 1880, ele embarca para a Europa durante o recesso parlamentar e estabelece contatos com sociedades abolicionistas.

Nabuco, vendo-lhe cortada a carreira política, a qual sacrificou a diplomática, e precisando trabalhar, resolveu exilar-se. Conseguiu o cargo de correspondente do Jornal do Comércio em Londres. Levado pela fascinação que tinha pela Inglaterra, residiu em Londres por mais de dois anos. 

Foi no exílio que escreveu a obra "O abolicionismo". Na obra, ele tratou de analisar com intensa tomada de posição a negatividade da escravidão para o Brasil da sua época e para o futuro. Recheado de denúncias contra a estrutura social, não poupou nem a igreja católica por sua omissão. No Brasil, enquanto isso, o ideal da emancipação continuava a crescer, principalmente sob a inspiração do jornalista José do Patrocínio, que foi grande aliado de Nabuco.

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