05/02/2021 às 11h18min - Atualizada em 05/02/2021 às 11h03min

A vida de quem?

Vendemos o nosso livre arbítrio em troca de constante informação em nossa tela. Será?

Bianca Costa - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: "Réseaux sociaux, tous accros"/Reprodução: Youtube
Assim como respirar ou tomar banho, a sensação de controle é uma necessidade constante para mim. Nós, humanos, levamos conosco desde o berço o desejo de estar no controle da situação, seja ela qual for, desde segurar a própria mamadeira até estar ciente de todos os fatos ao nosso redor. A sensação de controle nos dá a tranquilidade de saber o que vem a seguir, e as redes sociais são a ferramenta perfeita para alcançá-la (ou ao menos prometem ser). 
 
Durante minha árdua busca pelo controle, esbarrei com as redes sociais: dentro delas a vida parece tão intuitiva, natural e controlável; são realmente atrativos importantes para aqueles que, como eu, não conseguem deixar de tentar colocar o caos nos ombros e amarrá-lo em si mesmo a fim de controlar tudo o que dele pode sair.
 
Aos poucos, como já está previsto na lei natural das coisas, a vida escapa do meu controle e, por um momento, segue livre para me perturbar. Nessa hora, as redes sociais deixam de ser uma ferramenta e se tornam uma condição: condição de conhecimento, de felicidade, de controle; para tudo se manter nos eixos preciso checar minhas redes. E, assim, eu me torno mais uma usuária. 
 
Segundo o documentário "O dilema das redes", disponível na plataforma de streaming Netflix, existem apenas duas indústrias que chamam seus clientes de usuários: a de drogas e a de softwares. Com a promessa de melhorarem os momentos atuais de nossas vidas, elas ganham cada vez mais “viciados”, incapazes de se desligarem da bela realidade alternativa que lhes foi permitida criar.

Mais e mais novos “usuários” de redes surgem a cada dia, rompem a tênue linha entre a busca do controle e a perda dele e deixam de ser meros espectadores. Eles se tornam o próprio produto, à venda para quem melhor conseguir entregar a tão deseja sensação, o vigor e a leveza de poder controlar quem seguir, quem curtir, quem xingar. Qual vida eu quero ter hoje? A musa fitness, a ativista rebelde, o viajante aventureiro?

Nós nos perdemos nas inúmeras possibilidades de quem podemos ser e nos esquecemos de quem somos; esquecemos também da verdade intrínseca: a vida não se controla, vivemos como crianças segurando o controle do videogame com tanta paixão que nem percebemos que o cabo estava, esse tempo todo, desconectado.
 
Porém, o controle que temos, essa possibilidade de brincar com os botões, por si só já é magnífica. Mesmo que eu não decida quando vou morrer ou quando o Capitólio dos Estados Unidos da América será invadido, eu ainda posso brincar com os botões.

Quando decido me desconectar das redes por alguns dias o controle não passa a ser meu, mas eu estabeleço limites de o que o controle pode fazer comigo. Meu controle pode não estar conectado ao videogame; ele, no entanto, certamente está conectado a mim. 
 
Dentre as milhões de decisões que eu não posso tomar ou situações que eu não posso prever, existem uma ou duas coisas que eu posso sim decidir: praticar a literatura ao invés de ler sobre a opinião de terceiros acerca dela; posso também decidir abrir mão do controle de informações externas e me concentrar nas informações que o meu corpo me dá. 
 
Brincar com os botões é o único controle que eu posso ter, mas a partir de hoje é o único controle que eu quero ter. Como diz Cazuza: "vida louca vida, vida breve. Já que eu não posso te levar, quero que você me leve", se é você quem tem o controle então eu escolho que quem me controle seja você. Mas será que vendi meu livre arbítrio em troca de vida? Não.
 

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