12/02/2021 às 12h30min - Atualizada em 12/02/2021 às 11h38min

Percorrendo os meandros do discurso antipolítico de André Janones

Outubro de 2022. República Federativa do Centrão. Em fim de campanha, candidatos lançam mão de suas cartadas finais. Nenhuma delas decidirá o pleito — a decisão está ocorrendo agora

Thiago de Oliveira - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Reprodução/Google

Fevereiro de 2021. Mesma república

 

Bolsonaro torna a falar sobre uma possível prorrogação do auxílio emergencial. A aprovação popular do presidente, que outrora havia atingido seu ápice durante o benefício, despencou nas últimas semanas. Movimentação previsível. Seitas à parte, Bolsonaro não é unanimidade em canto algum do [mundo] Brasil. A economia dava sinais de baixa há algum tempo; o fim do auxílio emergencial escancarou o buraco que havia sido provisoriamente coberto. 

 

Advogado, 36 anos, mineiro, terceiro deputado mais votado de Minas Gerais e um dos personagens mais populares das redes sociais nos últimos meses, André Janones (AVANTE) forjou um discurso inquebrantável — ao menos em nível de reivindicação. Filiado por quase dez anos (2003-2012) ao Partido dos Trabalhadores (PT), Janones construiu boa parte da sua imagem política nos últimos anos. Esteve no PSC de 2012 a 2018, e nesse mesmo ano migrou para o AVANTE partido pelo qual concorreu às eleições e foi eleito com 178.660 votos. 

 

Para começar a entender em que lugar estamos adentramos, é importante ir à fonte primária. O post mais recente de André Janones em sua página do Facebook tem, até o momento da escrita deste texto, quase 90 mil curtidas. 

“Se você já tá de saco cheio de me ouvir falar em auxílio, é porque você não precisa e nem se preocupa com quem precisa, então SAI DA PÁGINA! Quem manda em mim é meu povo, e enquanto eles quiserem que eu fale e lute pelo auxílio, eu vou obedecer!” 
 

Olhando para o tempo decorrido desde o momento da publicação e para o número de curtidas e comentários, já é possível dimensionar o alcance que Janones possui com seu perfil. E não é mero acaso. O deputado mineiro tem uma retórica extremamente objetiva e mobilizadora. Mas calma lá, daqui a pouco falaremos mais disso.

 

A queda de popularidade do presidente Jair Bolsonaro foi citada no começo deste texto por um motivo. A retórica conservadora de Bolsonaro ajudou na eleição, mas aparentemente atingiu seu teto. Ninguém governa tranquilamente se o povo não tem emprego. Ninguém governa tranquilamente se o povo deixa de comer macarrão para comprar arroz. A criminalidade não diminui se você falar cinco palavras. A qualidade de vida não melhora se você ‘’metralhar a petezada’’ etc. Chega uma hora em que as pessoas não pensam mais em se o país está livre do comunismo, mas sim se o filho dela vai poder comer bem amanhã. A materialidade bate na porta e a ideologia é secundarizada. O povo vai perdendo a esperança. E o Messias tem de ser substituído.

 

Maio de 2018. Brasil parado. Caminhões fecham estradas. Nasce Janones

 

O início da construção do enorme público que Janones possui se deu graças à greve dos caminhoneiros, em 2018. O deputado alinhavou uma estratégia que vem dando certo até hoje: se colocar como o porta-voz das causas populares do momento. E não, não é só fazer um post numa rede social. É tomar o movimento para si e, ao mesmo tempo, transmitir a reivindicação popular com demagogia sucinta e muito bem camuflada. É saber exatamente o que fala e como fala. Mobilizar os sentimentos no momento em que eles estão dispostos a serem mobilizados.

 

À época da greve, Janones ia para a frente de onde estavam os acontecimentos. Todo dia o deputado fazia lives em seu perfil, que contava, em junho de 2018, com aproximadamente 500 mil seguidores. Atingia públicos de direita e de esquerda. Manchetes de jornais do Brasil inteiro o colocaram como ‘a cara da greve dos caminhoneiros’. Vendo que sua estratégia deu certo, André Janones a aprimorou.

 

2020. Pandemia. Auxílio. A maior onda que André Janones já surfou

 

Se colocando como o defensor por excelência do auxílio emergencial, assim como fez na greve dos caminhoneiros, Janones fez seu nome de vez em 2020. Em uma live no seu perfil do facebook em setembro de 2020, Janones, diretamente do seu gabinete, inicia afirmativamente: ‘’Direto de Brasília para todo o Brasil”. Com sua oratória clássica e gesticulando bastante, Janones continua: ‘’Já vou dar a notícia de cara para vocês: o auxílio emergencial não foi reduzido”. Na época, Bolsonaro havia assinado uma MP que faria o auxílio ser reduzido para R$ 300. Pegando os espectadores de surpresa com a afirmação, Janones continua o vídeo, diz que vai explicar, fala sobre termos jurídicos e constantemente reafirma sua atuação na defesa do benefício. A todo momento se coloca como adversário da corja política. Aí está a antipolítica aliada à pós-política. O distanciamento das ideologias em prol da ‘’razão’’. O povo unificado tem a razão, a reivindicação. Políticos têm ideologias. A representação da razão é Janones.

 

Passada boa parte da live, ficamos sabendo que o auxílio não foi de fato reduzido para R$300. Mas ninguém disse isso. A imprensa noticiou uma decisão de Bolsonaro que virtualmente reduziria o valor do benefício. Janones captou aí a chance de fazer um suspense para falar o óbvio: os deputados teriam de aprovar a decisão. As chaves das portas que adentram a subjetividade política brasileira estão nas mãos de Janones. Ele soube como capturar a atenção das pessoas, fazer com que elas assistissem quase que uma propaganda de sua atuação na câmara dos deputados, concordassem com suas reivindicações e ficassem ansiosas para uma próxima atualização da situação. Atualização que ele faz quase diariamente em suas redes sociais. 

 

André ainda diz no vídeo: ‘’O meu compromisso é transformar o congresso nacional num verdadeiro Big Brother, onde você que está me assistindo sabe tudo o que acontece aqui dentro”.

                         
Existem diversos grupos no facebook sobre informações do auxílio emergencial com o nome "André Janones".
 

Longe de ter aprovação do público bolsonarista aliás, boa parte dos bolsonaristas o odeia por ele ter sido do PT , o advogado fala para a maioria da população brasileira. Ele é o centro por excelência. Ele é o cara da urgência, e o brasileiro vive na urgência. Os conceitos de esquerda e de direita por vezes se tornam muito abstratos para as pessoas. Janones soube se posicionar como antipolítico assim como Bolsonaro. Mas hoje quem faz isso melhor é o advogado mineiro. Com uma postura ‘’contra os extremos’’, Janones, hoje, cativa mais gente do que Bolsonaro. Num país que não se viu representado pelos modelos petista e bolsonarista, um cara que bate nos dois mas sem deixar de concordar em alguns momentos —,  que tem um engajamento enorme (que conta até com uma campanha para que ele seja candidato a presidente em 2022) e que defende pautas tão populares, tem tudo para se destacar.

 

André Janones é a transmutação do brasileiro médio. É a cara do ‘’político do bem’’. É o mito da democracia representativa tomando forma. Sua atuação resolve os problemas? Não. Mas cativa e dá esperança para as pessoas. Esperança que é facilmente destruída por pessoas como Janones políticos da democracia representativa. É tudo paliativo. 


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