26/02/2021 às 06h28min - Atualizada em 26/02/2021 às 06h19min

Quem é José?

Obras célebres — e outras nem tanto — de Carlos Drummond de Andrade

Lívia Oliveira - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Poeta Carlos Drummond de Andrade | Reprodução: Google

Afinal de contas, quem é José? O que é José? Estava sentada no sofá, assistindo televisão, e ao meu lado diziam numa conversa ao telefone: "E agora, José?" Impressionei-me com o fato de um poema de Drummond ter se tornado um termo usado no dia-a-dia. Vi, assim, o impacto das obras desse modernista que viria a ser um dos maiores e mais influentes poetas brasileiros do século XX. 

 

Decerto, quando a obra é célebre, toca até quem não a conhece. Pensar que os versos livres e cenários cotidianos dos seus poemas poderiam estar "na boca do povo" não seria de longe uma utopia. Povo esse que possivelmente não tenha lido sua obra por completo, pode não saber de onde veio e, no máximo, vagamente lembra do seu nome das épocas de estudo. Mas e agora? Agora que virou coloquialismo das conversas alheias? 

 

Enquanto Rodrigues Alves iniciava seu mandato na presidência do Brasil e Oswaldo Cruz começava a embelezar a capital carioca, nascia, lá em Minas, Carlos Drummond de Andrade, em 31 de outubro de 1902, um amante nato das palavras e apreciador da literatura. Formou-se em Farmácia, porém tal ofício não foi executado. Funcionário público durante boa parte da sua vida, casou-se com Dutra Morais, com quem teve dois filhos: Carlos Flávio e Maria Julieta.

 

O imensurável apreço por Andrade veio após a publicação do seu livro "Alguma poesia", o qual contribuiu com uma generosa porção artística na segunda geração do modernismo brasileiro. Dentre os mais notáveis poemas de 1930, é certo encontrar Drummond por lá, brilhante, destacando-se. Suas seguintes obras também foram aclamadas, tornando ele um grandíssimo e influente poeta do século. Sejam poemas de sete faces ou da necessidade, trazem reflexões ao cotidiano e encantam a todos com sua profundidade.

 

Mas a festa ainda não acabou, José, ainda há luz, ainda há povo, ainda há calor à noite… É atemporal. Não existe coorte geracional com Drummond. O fato é esse. No entanto, como tantos outros, há obras deveras conhecidas, assim como outras nem tanto. Não existe só José, não existe só Carlos, não existe só uma pedra no meio do caminho… Há mais do que isso, bem escondidinho, guardados e esquecidos, datados antes mesmo da sua estréia ou até aqueles que não circularam como os demais. 

 

Isso porque alguns poemas não conhecidos de Drummond pertencem a uma coletânea de 1924, antes mesmo de publicar seu primeiro livro em 1930. Alguns deles não foram publicados em jornais, como costumeiramente. Também há o "Lira Itabirana", cujo reconhecimento deu-se após o rompimento da barragem de Mariana e Brumadinho, pois o tema em questão era um tanto polêmico e apontava versos cirúrgicos sobre o assunto. Profecia ou não (uma vez que sua publicação tenha sido em 1984), seus versos valem a pena serem lidos e analisados: 

 

“O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

 

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

 

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

 

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?”

 

A denúncia dos seus versos só alcançaram o público depois dos acidentes ocorridos em 2015 e 2019. Assim, mostra-se quão imortalizadas são as suas palavras. Para um notável artista, é de se esperar que tenha estátuas espalhadas pelo país (como o caso de "O Pensador", localizada em Copacabana) e um legado sólido na literatura brasileira. Faleceu no Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1987, tornando impossível de se imaginar a literatura brasileira sem o seu nome. 

 

Pois bem… O "e agora, José" escutado por mim num dia desses, traz uma reflexão não só sobre suas obras, mas para o significado em si. Porque, afinal de contas, quem é esse José que tanto falam por aí? Talvez seja você. Talvez seja eu. Talvez sejamos todos José. Seguimos em frente, mesmo que a festa tenha acabado, a luz tenha sido apagada, o povo tenha sumido, a noite tenha esfriado… Aonde vamos, José? 
 


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