26/02/2021 às 08h41min - Atualizada em 26/02/2021 às 08h14min

Beleza tem padrão?

Procedimentos estéticos e cirurgias plásticas estão cada vez mais em alta no mundo

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Andrieli Torres
Fonte/Reprodução: Google
Cirurgias plásticas e procedimentos estéticos variados, são a solução que algumas pessoas procuram para se sentir melhor. Existe um padrão de beleza apresentado nas redes sociais, na publicidade, na mídia em geral que acaba por gerar uma cobrança pelo “padrão belo” que se sonha em alcançar por meio de uma intervenção cirúrgica ou de procedimentos estéticos. O problema é que nem sempre o resultado é positivo. Procedimentos mal sucedidos geram transtornos, muitas vezes irreparáveis a quem passa por eles.

Gao Liu é uma cantora e atriz chinesa que passou por um procedimento estético que deu errado, o tecido na ponta do nariz da atriz, morreu, ou seja, ficou necrosado. O procedimento foi feito em uma clínica na cidade de Guangzhou e durou quatro horas. Gao precisou ser hospitalizada por dois meses. Ela precisará esperar, pelo menos um ano, para poder fazer uma cirurgia reconstrutiva devido aos graves danos sofridos com a intervenção. A intenção era ficar mais bonita para seus trabalhos artísticos.



Ao pensar sobre o caso de Gao Liu, é preciso ter em mente que os padrões de beleza impostos na Ásia são rigorosos, há uma tradição cultural de cuidados com a aparência. Peles macias e cabelos luminosos são características trabalhadas em rituais de belezas antigos e mantidos como atributos da beleza importantes atualmente.

Na China, a imperatriz Wu, única mulher na história chinesa que ocupou o trono imperial, tem seus segredos de beleza que entraram para a história: máscara especial três vezes ao dia, bebia chá verde e praticava meditação. Outro ritual antigo é a água de arroz fermentada usada pelas princesas imperiais chinesas para manter seus cabelos longos e brilhantes. Em 320 d.C as chinesas começaram a usar pó de pérola moída na pele para alcançar uma aparência mais jovial. Também preocupadas com a fisionomia, desde o século VII, usava-se folhas de hortelã e rolos de jade para rejuvenescer e dar brilho à pele.


O documentário “Repense o elogio”, dirigido por Estela Renner, deixa claro como padrões de beleza são ensinados e vividos desde a infância. Demonstra como as meninas são cobradas desde pequenas a serem “princesas”, padrão esse que molda as atitudes e aparência feminina desde o início da infância. O documentário propõe a reflexão sobre o poder das palavras, a força dos elogios. Às meninas são dirigidos elogios como princesa, delicada, linda, elogios que acabam direcionando como devem ser, e isso aparece como um “peso”, como algo norteador de como se deve ser. Toda essa cobrança por um padrão belo contribui para que aumente a busca por cirurgias e procedimentos estéticos. As pessoas não conseguem se enxergar como únicas e belas em suas diferenças, há uma busca doentia para se encaixar no padrão apresentado.

“Repense o elogio” nos desafia a dirigir às meninas elogios além da aparência como os que são dirigidos aos meninos, dizer a elas que são inteligentes, espertas, fortes e corajosas. Esse modo de elogiar pouco comum entre meninas quando dito à elas, as impulsionam para um modo de vida diferente. Essas palavras têm o poder de deixar marcas importantes na vida dessas meninas e as conduzem para algo além das preocupações com a estética. Ser algo além de “princesa” amplia as possibilidades de como alguém que não precisa se limitar a ser “bela” e viver em função disso.

Com relação aos procedimentos cirúrgicos que deram errado, é preciso cuidado ao se posicionar diante de alguém que compartilha que está passando por essa situação. Em vídeo nas redes sociais, a psicóloga Cecília Dassi, problematiza a questão dos procedimentos estéticos e as reações das pessoas diante de alguém que passou por uma cirurgia mal sucedida. Ela pondera que naquele momento em que a pessoa está sofrendo com a consequência da decisão, os comentários do tipo “não precisava ter feito isso” são inoportunos. Cecília Dassi alerta:
“Ficar dizendo ‘por que fez isso?’ ou ‘não precisava’ deve fazer a pessoa se sentir pior, mais culpada, não ajuda em nada naquele momento”.

Um cuidado que devemos ter também é sobre julgar se alguém precisa ou não de intervenções estéticas para melhorar sua aparência. Diante dos padrões que temos em mente, inevitavelmente, opinamos sobre o que é belo e o que não é. E, assim, acabamos estabelecendo padrões sobre quem precisa ou não passar por transformações para melhorar sua aparência. Cecília também adverte sobre essa questão de “não precisava” e questiona “quem precisava?”
“Quando alguém vê um nariz no padrão, uma barriga ou seios dentro do padrão e diz ‘poxa, não precisava’... então quem tá fora do padrão precisava passar por aquilo? Precisava correr riscos? Precisava se expor ao risco de passar dores, deformações que alguns procedimentos podem deixar, prejuízos na qualidade de vida? Precisava? Enfim, só acho que é válido a gente refletir porque às vezes podemos ser parte do fenômeno social que estamos criticando. Às vezes a mesma pessoa que acredita que quem tem alguma característica fora do padrão ‘precisa’ passar por algum procedimento estético precisa passar por algum procedimento estético  independente do risco para ‘consertar’ aquilo de alguma forma, vai ser a mesma pessoa que vai fazer comentários críticos, às vezes ‘críticas construtivas’ sugerindo que a pessoa faça o procedimento X ou Y e depois quando alguém passa por algum problema ou complicação, (a mesma pessoa) critica dizendo ‘ah, tá vendo, as pessoas fazem tudo pela beleza, se expõe a tanto risco só pra serem aceitas, cedem à pressão estética’, e aí critica quem passa por isso.”

Beleza tem padrão? Será que todos precisamos estar nas mesmas formas para sermos aceitos? Viver ignorando os padrões que nos assediam a todo tempo não é fácil. É preciso um esforço consciente para se aceitar com suas singularidades e para valorizar quem você é. Qual o sentido de se encaixar em padrões? Reflita se realmente você quer e se será importante e saudável para você as transformações que o padrão de beleza construído na sociedade deseja lhe impor.

 
Referências:

AVON. Repense o Elogio. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PhLFszSFr3E. Acesso em: 24 de fevereiro de 2021.

https://www.felps.com.br/antigos-rituais-de-beleza-de-3-povos-asiaticos/







 

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