19/03/2021 às 09h36min - Atualizada em 19/03/2021 às 09h19min

Rascunhos sobre amor romântico

A inviabilidade do projeto romântico-amoroso contemporâneo

Thiago de Oliveira - Editado por Roanna Nunes
Foto: reprodução/vídeo

Seja em relação ao materno, romântico ou fraterno, a polissemia da palavra ‘amor’ se encontra tão profundamente ramificada, emaranhada em conceitos diversos fincados em estruturas sociais, que dificilmente poderíamos compreender totalmente do que falamos quando este é o assunto. Muito menos temos a condição de colocarmos em ação aquilo a que chamamos amar. Amar é achar que ama. Ser amado é achar que é amado.

Não há sequer uma objetividade para a ideia de amor que possa esquivar-se de dúvidas na relação amorosa — quanto mais na relação romântico-amorosa. Por que insistimos em buscar algo que não sabemos de quê se trata? 
Por costume, claro. Mas quais?


O mito fundante do amor como temos hoje é a ideia de complementaridade. Seja na mitologia, na filosofia, na literatura ou na religião, muitos são os exemplos que colocam a ideia de amor como necessidade (às vezes, fundamentalmente como simples desejo; noutras, como necessidade quase que fisiológica). Outra corrente influente de ideias é a que define o amor como aproximação do belo e do verdadeiro — algo comum na idade clássica.

A historiadora Maria Célia de Menezes classifica a visão sobre o amor nas diferentes épocas. Na Idade Clássica, a aproximação romântica que temos do amor como temos hoje vem de Platão, que, no Banquete, vai, através de Sócrates, dizer que o homem será feliz se encontrar a metade arrancada de si: “Se portanto o Amor é carente do que é belo, e o que é bom é belo, também do que é bom seria ele carente”.

Já na Idade Média, consolidam-se as visões mais idealizadas do corpo. A ideia da virgem, que mais tarde vai retornar no movimento literário romântico, se entrelaça aos dogmas do cristianismo e fortalece o domínio masculino sobre o corpo feminino. São variadas as concepções sobre o amor que estruturam os tipos de relação que ainda hoje fazem-se presentes.

A ideia de que o amor é um complemento é uma das formas a qual o projeto do amor romântico contemporâneo recorre para justificar suas fantasias. Não há necessariamente relação causal entre os movimentos filosóficos e literários com o projeto amoroso que se sobressai nos dias atuais; todavia, é perceptível que muitos são os elementos presentes em ambas construções sociais.

Os rápidos e superficiais exemplos de visões sobre o amor na Era Clássica e na Idade Média estão aqui para elucidar o que foi dito no início deste texto: o amor é polissêmico. Estruturar uma vida em cima de uma ideia que você nem sabe do quê se trata, que só reproduz culturalmente aquilo que se manifesta no ambiente em que você está inserido, é uma das causas do fracasso do projeto amoroso contemporâneo. Em que consiste esse projeto?

 

Considerações

O edifício amoroso tal qual conhecemos, e que se manifesta na música, no cinema e em todo tipo de conteúdo cultural, está erigido sobre um mar de incongruências. Há uma enorme bibliografia que versa sobre essas incongruências, seja na psicanálise, na filosofia e em vários cantos do conhecimento. Aqui, tão somente instigo o leitor, através da confiança a mim conferida, a suspeitar que exista algo de errado com o projeto amoroso em que somos expostos desde que nascemos. Jornalismo é pôr em foco algo latente. Creio que haja algo aí.

Continuemos!
 

Amor romântico

Alma gêmea. Satisfação completa no objeto amado. Conquista irrevogável. Você nasceu para mim! Patriarcado, machismo, capitalismo, posse, ciúme, desejos conflitantes que não são postos em diálogo, medo incessante, falta de confiança, excesso de certezas falsas. Planos incondicionais. Amor incondicional.

O amor romântico tradicional contemporâneo é a culminação de uma construção social de séculos. Se manifesta em: monogamia compulsória, casamentos seguidos de divórcios conturbados ou 70 anos de infelicidade, famílias disfuncionais, preconceito passado de forma geracional e adoecimento mental. Você deve conhecer vários casos assim.

O que tento dizer é: não há o amor da tua vida, nem o amor para tua vida. Há formas saudáveis e não saudáveis de se relacionar. Infelizmente, a forma que impera é extremamente doentia. Descubra aquilo que te faz feliz, e não aceite o que lhe é dado. Seja monogâmico porque a monogamia é o que, esclarecidamente, te agrada. Seja não-monogâmico porque a não-monogamia é o que, esclarecidamente, te agrada.

Aceite seus ciúmes, mas não pense que isso é prova de amor. Converse sobre eles com seu(s) parceiro(s) ou com sua(s) parceira(s). Dialogue sobre o que te incomoda, desconstrua o sistema, se desconstrua, mas não tente encaixar num padrão irreal, macabro e baseado em estruturas completamente sádicas.

De todas as formas de achar-amar, eu fico com a da fabulosa Maria Homem: o amor é amplificar as potencialidades na relação a dois (ou a quantos forem). Quando eu digo 'eu te amo', quero dizer: eu sinto, ao estar com você ou sob sua influência, que a minha dor existencial diminui, e quero cultivar um sentimento de harmonia entre nós, porque você me faz bem, e acho que posso fazer bem a você.


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