31/03/2021 às 19h44min - Atualizada em 31/03/2021 às 19h31min

Literatura da (e na) pandemia

Mercado literário passa por período turbulento, mas não deixa de apresentar grandes obras

Thiago de Oliveira - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Reprodução/Google

O mercado editorial, que já vinha em baixa no Brasil nos últimos anos, sofreu em 2020 um grande baque. A crise sanitária e, por conseguinte, as instabilidades na economia, em setores sociais e na cultura provocadas pela pandemia de covid-19  afetaram o mundo dos livros de maneira sem igual. No meio deste caos, escritores, editoras e livrarias tiveram de transpor ainda mais obstáculos no fomento da literatura no Brasil. Fenômenos que resultaram disso tudo são os livros que envolvem pandemia e/ou seus aspectos como um dos componentes principais.

 

"As regras do contágio", de Adam Kucharski

 

Para além da biologia, As regras do contágio: Por que as coisas se disseminam — e por que param de se propagar, do epidemiologista e matemático Adam Kucharski, põe luz em temas sociais e culturais que envolvem a disseminação de algo, seja uma epidemia ou uma notícia falsa. O livro lançado em 2020 relaciona a interconectividade contemporânea, a desinformação e a violência com as doenças contagiosas. Pondo foco no comportamento humano, Kucharski vai da gripe espanhola até aos vírus computacionais para analisar as regras do contágio. Fake news, folclore, redes sociais: tudo isso vira agente de um dispositivo chamado disseminação. A obra do epidemiologista trata muito mais de economia e sociologia do que biologia; o que, de forma alguma, representa algum demérito.

 

"Contágio: Infecções de origem animal e a evolução das pandemias", de David Quammen
 

Livro originalmente publicado em 2012, nos EUA, chegou ao Brasil em 2020 com texto inédito do autor. David Quammen, jornalista norte-americano, faz em seu Contágio… uma investigação de doenças conhecidas como zoonoses infecções transmitidas dos animais aos seres humanos. Considerado por muitos um livro que antecipa muitos aspectos que envolvem a covid-19, o livro do escritor e divulgador científico nada mais é que um estudo que aborda probabilidades e possíveis causas já observáveis no percurso de diversos flagelos.  A obra é escrita no formato de livro-reportagem. Quammen entrevista diversos especialistas e detalha os padrões seguidos em inúmeras epidemias e pandemias. Aids, ebola, gripe espanhola e SARS são algumas das pestes que ajudaram Quammen a traçar o caminho de pandemias como a da covid-19. Se as indicações do jornalista não foram suficientemente levadas em consideração nesta pandemia, quem sabe ajudará a prevenir outras.

 

"Crise e pandemia", de Alysson Leandro Mascaro
 

O ensaio do jurista Alysson Leandro Mascaro, publicado em abril de 2020, escancara não só as fragilidades do capitalismo em lidar com a crise, mas o seu papel na disseminação dela. As rupturas causadas pelo vírus e propiciadas pela estrutura capitalista já em crise são o ponto de partida do manifesto de Mascaro, que segue a linha de projeto de outros dois livros de sua autoria: Estado e forma política (2013) e Crise e golpe (2018). Em Crise e pandemia, põe-se em cheque as instituições políticas capitalistas, a responsabilidade do sistema na produção da crise e evidencia os problemas já existentes e potencializados na pandemia pelas contradições estruturais.

 

Literatura na Pandemia
 

Alguns livros que não foram lançados no período da pandemia movimentaram as livrarias brasileiras. Bons exemplos disso são A Peste, de Albert Camus (1947), e Torto Arado, de Itamar Vieira Junior (2019). A Peste figurou por muitos meses como um dos livros mais vendidos da Amazon no Brasil. Por tratar de questões análogas à que estamos vivendo hoje, o livro, que por si só já é excepcional, cativa ainda mais os leitores. A obra do escritor franco-argelino vencedor do Nobel de literatura se passa numa cidade da Argélia martirizada pela peste. Os cidadãos são acometidos por uma desesperança que muito convém comparar com a que o Brasil vive no momento

 

Já o livro de Vieira Junior não faz nenhuma analogia a alguma pandemia. Torto Arado, vencedor do prêmio Jabuti de melhor romance, já é, para muitos, apesar de sua recente publicação, um dos clássicos da literatura brasileira. A obra retrata o Brasil rural e suas desigualdades. O que faz o livro do escritor baiano conquistar os leitores é sua poética e fiel narração da degradante situação do sertão brasileiro. Torto Arado é resultado de uma longa vivência do autor junto aos trabalhadores e trabalhadoras do campo. O fato das mulheres serem personagens principais também contribui para o merecido sucesso do livro. O Brasil tem em Torto Arado um dos seus maiores trunfos dos últimos anos no cenário da literatura. A popularização que o livro de Vieira Júnior tomou desde o início da pandemia anima o cenário literário brasileiro. 
 


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