09/04/2021 às 11h18min - Atualizada em 09/04/2021 às 10h38min

Jornalismo periférico: combate à desinformação

Através de coletivos de comunicação, notícias da comunidade ultrapassam os muros à margem da sociedade

Bianca Nascimento - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Douglas Cavalcante
Lixos aglomerados na rua. Fome. Falta de moradia. Desemprego. Empreendedorismo. Bibliotecas comunitárias. Arte. Literatura. Cultura. Diversidade. Há quem diga que a favela não produz pauta. Entretanto, o que falta nas comunidades é a visibilidade.

De acordo com o portal Atlas da Notícia, projeto que mapeia os veículos, existem cerca de 4 mil desertos de notícia, que são considerados os munícipios sem veículos independentes de jornalismo no Brasil. Esse número representa 17,9% da população que não tem jornalismo local, e não possui cobertura noticiosa própria.

A iniciativa de muitos jornalistas em revolucionar a informação nas favelas tem permitido que a comunicação se torne uma ponte para retratar os assuntos cotidianos que acontecem nas periferias.

Sem o controle de grupos políticos e parceria das instituições governamentais, a mídia independente encontra na tecnologia uma alternativa para transmitir as informações à população. O uso de recursos próprios, a força de vontade e a paixão por noticiar as histórias que se perdem na desvalorização das comunidades periféricas diante da sociedade são fatores que estão presentes na luta pela comunicação chegar aos desertos da notícia.

“Não somos uma só voz, somos uma sinfonia, ao mesmo tempo em que somos apenas umas das tantas vozes que ressoam neste país”, diz Mariana Belmont, jornalista e uma das criadoras da Rede de Jornalistas das Periferias, em coluna ao Uol.

De fato, o papel do jornalista periférico tem grande valor na sociedade brasileira, com a abordagem de diferentes temáticas sociais no estilo documental, essa estrutura do jornalismo quebra os paradigmas impostos pelo sistema social que privilegia a elite e traz uma visão imersiva a partir da realidade que a grande mídia não expõe.

Foi através do desejo em noticiar aquilo que não era exposto e quebrar os estereótipos sobre a vida nas comunidades, que surgiu as principais motivações para a existência das iniciativas dos veículos independentes de comunicação em São Paulo. Entre eles, destaca-se:
 
"Periferia em Movimento"

Fundada pelos jovens jornalistas Aline Rodrigues, Sueli Reis Carneiro e Thiago Borges em 2009, a Periferia em Movimento é um projeto que atua a partir do extremo sul de São Paulo até o centro da cidade. Como principal objetivo, busca expandir o jornalismo em todas as esferas da população paulista, produzir conteúdos jornalístico pautados na visibilidade de histórias de quem está nas frentes de luta pela garantia de direitos à cultura, saúde, educação, mobilidade, moradia, preservação ambiental, renda e ao trabalho, com questões de gênero, raça e classe de forma transversal.
 
"Desenrola e Não me Enrola"

Em 2013, surge como blog o projeto que hoje tem uma grande amplitude na área de jornalismo periférico. A iniciativa que se tornou um portal de notícias em 2017 apresenta como linha editorial a investigação das transformações sociais e a identidade cultural dos sujeitos e territórios periféricos.

Em maio de 2020, foi contemplado pela organização Artigo 19, como uma das iniciativas de comunicação para fazer parte do projeto #CompartilheInformação, iniciativa que visa difundir e estimular a produção de informação confiável nas comunidades periféricas de todo o Brasil, de forma a combater a desinformação.

"Preto Império"

Com o objetivo de materializar os sonhos da população preta e periférica, o projeto social da periferia da Zona Norte de São Paulo oferece atividades em torna da geração de renda, retorno socioambiental e vivacidade cultural.

Esses projetos fazem parte do Forúm de Comunicação e Territórios, iniciativa dos coletivos e comunicadores para produzir conhecimento sobre o campo da comunicação nas periferias e construir um projeto de lei que visibilize e estimule a comunicação.

Sobretudo, por serem iniciativas independentes e que não têm patrocinadores tradicionais e governamentais, os projetos contam com diferentes fontes de recursos e contribuições para a manutenção, como doações, parcerias e trabalhos voluntários.

Ademais, o principal objetivo dos jornalistas e comunicadores periféricos é que a comunicação nas periferias se amplie de forma que as histórias e assuntos escondidos alcance não somente os moradores da própria comunidade, mas toda a população de modo geral, para que as favelas sejam vistas com outros olhos e interpretadas de forma diferente, além dos estereótipos.  

 
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