15/04/2021 às 13h15min - Atualizada em 15/04/2021 às 12h41min

O vívido legado de Anne Frank

A jovem judia se tonou símbolo de esperança e de luta contra tiranias

Sara Moreira - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Edições do diário | Reprodução: Anne Frank Stichting, Amsterdã
Quando criamos um diário, a ideia que temos é que ali vamos poder relatar nossos pensamentos e medos, além de tudo que possa vir a acontecer em nosso cotidiano. Mas uma coisa é certa, nem sempre quem mantém um diário quer que ele seja descoberto e lido por diversas pessoas. Felizmente esse foi o destino que teve o diário de uma menina judia que muitos conhecem por Anne Frank.
 
Annelies Marie Frank nasceu em 12 de junho de 1929 e ganhou seu primeiro diário em seu aniversário de 13 anos. No mesmo dia, começou a contar sobre sua rotina ao lado de seus pais Edith e Otto Frank, além de sua irmã mais velha, Margot. Anne deixa claro em seu diário sua vontade de, no futuro, tornar-se uma jornalista ou escritora. Ela escreveu seu diário entre 12 de junho de 1942 a 1 de agosto de 1944, transmitindo toda a tensão que a família Frank sofreu durante o Holocausto.
 
“Há muito tempo você sabe que meu maior desejo é ser jornalista, e mais tarde uma escritora famosa". Anne Frank, 11 de maio de 1944
A situação na Alemanha não era a melhor, haviam poucos empregos e muita pobreza. Nesse cenário, Adolf Hitler e seu partido, que culpava os judeus pelos problemas do país, ganharam força e muitos adeptos. Por causa desse ódio aos judeus e da má situação do país, os pais de Anne, Otto e Edith Frank, decidem emigrar para Amsterdã, capital da Holanda, onde fundam uma empresa.
 
Na Alemanha, em particular, o antissemitismo ganhou mais força por conta de teorias biológicas racistas. Os judeus eram classificados como uma raça inferior, uma ameaça à “raça ariana”, que seria a linhagem mais pura dos alemães e europeus. Nessa visão preconceituosa, não eram só os judeus que deveriam ser perseguidos, mas outros supostos obstáculos à “pureza racial”, como os ciganos, os deficientes físicos e os homossexuais, também assassinados em grande número nos campos de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
 
Em maio de 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, a Holanda foi invadida pelos nazistas, e então começaram as restrições contra os judeus com uma série de decretos antissemitas (o antissemitismo é o ódio aos judeus como nação) em que deviam usar uma estrela amarela de identificação e eram submetidos a diversas proibições, como andar nos bondes, frequentar teatros, cinemas ou qualquer outra forma de diversão.
 
A partir de julho do mesmo ano, os judeus são convocados para campos de trabalhos forçados. Eles acreditam que estão sendo enviados para campos de trabalhos na Alemanha quando, na realidade, são transportados para campos de concentração onde serão mortos. Para evitar a deportação, Otto e Edith preparam um esconderijo secreto nos fundos do anexo do prédio da companhia de Otto. 

Margot Frank é uma das primeiras a ser convocada para os campos de trabalhos, em 5 de julho de 1942. Para fugir desse destino no dia seguinte, a família Frank vai para o esconderijo no prédio onde funcionava o escritório do pai, e que ficaria conhecido como “anexo secreto”. Os Franks dividem seu esconderijo com o sócio de Otto, Hermann va Pels, sua esposa Auguste e seu filho Peter. Os funcionários de Otto, Bep Voskuijl, Victor Kugler, Johannes Kleiman, Miep Gies e o marido dela, Jan, os abasteciam em segredo.
 
“Aflige-me a ideia de não se poder sair daqui e tenho medo de que nos descubram e nos fuzilem. É isto que pesa sobre mim de um modo horrível. Durante o dia não nos podemos mexer à vontade, não podemos pisar o chão com força e temos quase de cochichar em vez de falar, pois lá em baixo, no armazém, não nos devem ouvir". Anne Frank, 11 de julho de 1942
Em 4 de agosto de 1944, após uma denúncia anônima, a Gestapo (Polícia Secreta do Estado Alemão), descobriu o esconderijo e prendeu seus moradores. Em setembro de 1944, as autoridades colocaram os Frank e as outras pessoas com quem eles se escondiam em um trem para Auschwitz com 1.019 judeus a bordo. Homens e mulheres foram separados. As filhas de Otto e Edith são encaminhadas para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde foram selecionadas para trabalhar devido sua juventude.
 
De acordo com o Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos, Anne Frank morreu em fevereiro ou março de 1945, pouco antes de as tropas britânicas libertarem Bergen-Belsen, em 15 de abril de 1945. Anne Frank morreu com 15 anos de idade. Margot Frank morreu com 19 anos, também em fevereiro ou março de 1945. Ambas morreram de tifo.
 
De todos aqueles que se refugiavam no pequeno esconderijo, apenas Otto Frank sobreviveu. É graças a ele que Anne realiza seu sonho de ser escritora e, com isso, acaba se tornando um símbolo quando falamos do massacre que foi o Holocausto.
 
“Nossos muitos amigos e conhecidos judeus estão sendo levados aos montes. A Gestapo está tratando todos eles muito mal [...] Se está tão ruim na Holanda, como estará nos lugares distantes e pouco civilizados para onde os alemães os estão mandando? Acreditamos que a maioria está sendo assassinada. A rádio inglesa diz que eles estão sendo mortos por gás. Talvez seja o modo mais rápido de morrer". Anne Frank, 9 de outubro 1942
A história desta pequena judia está entre as mais conhecidas dos seis milhões de judeus que morreram no Holocausto. Seu diário é o primeiro encontro que muitas pessoas têm com a história da tentativa da Alemanha nazista de assassinar todos os judeus da Europa durante a Segunda Guerra Mundial sob o comando de Adolf Hitler. Em 3 de abril de 1946, o mundo conheceu a trajetória de Anne Frank, que se tornou um dos símbolos do Holocausto e de todas as atrocidades causadas pela guerra.
 
Segundo o museu biográfico Casa de Anne Frank, Otto recebeu o diário da filha mais nova de Miep Gies, sua ajudante que guardou o caderno consigo quando o anexo secreto foi descoberto. Otto sempre achou que tinha uma boa ideia do que se passava na cabeça de Anne. Mas quando ele leu seus textos, percebeu que não era esse o caso. “A Anne que apareceu diante de mim era muito diferente da filha que eu havia perdido. Eu não tinha ideia da profundidade de seus pensamentos e sentimentos.”
 
Demorou algum tempo até que Otto concordasse que o que tinha em mãos era um importante documento humano, e que não deveria guardar os textos para si mesmo. Mesmo assim, não foi fácil encontrar uma editora logo após a guerra, porque a maioria das pessoas queria olhar para o futuro.
 
Com a ajuda de dois historiadores, foi escrita uma pequena coluna com trechos do diário da menina para o jornal Het Parool, com o título de “Kinderstem” (A voz de uma criança).  A coluna de Jan Romein despertou o interesse da Contact, uma editora de Amsterdã. Otto fez uma compilação do diário de Anne com seus textos reescritos e alguns contos. O livro foi publicado em 1947, cinco anos depois do décimo terceiro aniversário de Anne, o dia em que ela recebeu seu diário. Ela mesma havia inventado o título do livro: "Het Achterhuis" (O Anexo Secreto).

Até sua morte em 1980, Otto Frank continuou recebendo reações de leitores de todo o mundo, que se emocionaram com o livro. Com alguns deles, ele desenvolveu amizades íntimas. Sobre essas cartas, ele escreveu que “apesar de todas as diferenças, geralmente há um desejo de aprender com o passado e trabalhar para um melhor entendimento entre as pessoas.”
 
O livro se tornou um sucesso mundial, e as palavras de esperança daquela menina que sonhava em ser escritora conquista milhares de pessoas todos os dias com seus relatos sobre um momento obscuro da história da humanidade. Anne Frank teria quase 92 anos se estivesse viva, e sua trajetória permanece vívida tantos anos depois. O diário de Anne Frank agora está disponível em mais de 70 idiomas e também pode ser encontrada em filmes e quadrinhos, além do Museu Anne Frank, localizado em Amsterdã.
 
Em 2019, a Netflix produziu um documentário chamado “Anne Frank – Vidas Paralelas” sobre a histórias de cinco mulheres que fazem paralelo com a vida de Anne. Da mesma forma que Anne, as cinco de famílias judias foram enviadas para campos de concentração, mas felizmente conseguiram sobreviver.
 
São descrições dolorosas, intercaladas por conversas com estudiosos sobre o nazismo e por representações da época. Em diversos idiomas, elas recordam os angústias de uma período de dor, medo e perdas. De infâncias e adolescências interrompidas. Suas memórias mais uma vez trazem à tona uma devastadora quantidade de particularidades daquele inacreditável período.
 
No documentário, o paralelo fica por conta das sobreviventes e a nova geração, construída pela presença de seus filhos e netos, que contam como as histórias dessas mães e avós afetaram suas vidas. No caso de Anne Frank, essa conexão foi estabelecida pela jovem Katerina Kat, que começa visitando Bergen-Belsen, fazendo uma série de registros e postando sobre Anne em suas redes sociais a fim de saber mais sobre essa garota e as pessoas que morreram naquele campo de concentração. Com isso, ela embarca em uma viagem para Amsterdã, onde Anne Frank passou sua vida, enchendo seu caderno com palavras de incerteza e esperança.
 
Fragmentos de seu diário são lidos de forma comovente por Helen Mirren, que desempenha o papel da narradora costurando as trajetórias de Anne, Helga, Andra, Tatiana, Sarah e Arianna. São relatos de um período aterrorizante da história, mas que deve sempre ser lembrado para nunca mais ser repetido.
 
“Quero vir a ser alguém. Não me agrada a vida que levam a mãe, a Sra. van Daan e todas essas mulheres que trabalham para, mais tarde, ninguém se lembrar delas. Além de um marido e de filhos, preciso de mais alguma coisa a que me possa dedicar! Quero continuar a viver depois da minha morte. E por isso estou tão grata a Deus que me deu a possibilidade de desenvolver o meu espírito e de poder escrever para exprimir o que em mim vive”. Anne Frank, 4 de abril de 1944

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