16/04/2021 às 09h06min - Atualizada em 16/04/2021 às 08h45min

"Histórias que os jornais não contam"

Uma coletânea de crônicas que são um deleite para quem lê

Hellen Almeida - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: “Histórias que os jornais não contam” | Reprodução: Editora Nova Fonteira
Por favor, tente imaginar: um rádio ciumento, apartamentos rotativos, viajar de primeira classe ao lado de um cadáver… “Meu Deus, Hellen, você enlouqueceu?!”, possivelmente é a pergunta que paira na sua mente agora, mas em resposta: Não. Essas são apenas algumas temáticas das crônicas presentes no livro “Histórias que os jornais não contam”, de Moacyr Scliar.

Prazer, Moacyr Scliar!

Moacyr (1937–2011) foi graduado em Medicina, membro da Academia Brasileira de Letras e em vida colecionou mais de 70 obras, variando desde romances e crônicas até ensaios de temática médica.


Histórias que os jornais não contam

A literatura apresentada a você hoje se trata de uma coletânea das suas melhores crônicas escritas para o caderno cotidiano da Folha de São Paulo entre 2004 e 2008.

Como inspirações para esses contos de temas inusitados, usava trechos das notícias do próprio jornal. Todavia , como uma notícia factual pode se tornar tema para uma crônica? Na introdução do livro, o autor diz:

 

“Em geral, acreditamos que existe uma nítida linha divisória entre o real e o imaginário. Mas será que é assim mesmo? [...] Descobri que, atrás de muitas notícias, ou nas entrelinhas destas, há uma história esperando para ser contada, história essa que pode ser extremamente reveladora da condição humana. [...], são histórias que esqueceram de acontecer. O que o escritor faz é recuperá-las antes que se percam na imensa geleia geral composta pelos nossos sonhos, nossas fantasias, nossas ilusões.”

Essas crônicas abordam temas que vão desde o romance, situação financeira, acontecimentos inusitados até probabilidades matemáticas. Para contextualizar o leitor antes da imersão na obra, há o trecho da notícia que a inspirou. Tratam-se de escritas pequenas (1 a 2 páginas) e sempre apresentam um toque de humor.

Exemplo

Aqui, irei exemplificar para que tenha um gostinho da obra e, consequentemente, compreenda claramente como ela é estruturada:

"O rádio apaixonado", por Moacyr

Rádio de carro aumentou volume sozinho até pifar, afirma leitora. "Comecei a observar que o rádio esquentava o botão se a frente fosse deixada nele. Logo depois, começou a ficar louco: aumentava o volume sozinho, até parar de funcionar". Ela disse ainda ter notado um som estranho que saía do interior do aparelho. "Só posso escutar o rádio com o carro ligado e, a cada vez que o ligo, ele está todo desconfigurado. O meu MP4 queimou ao ser ligado ao rádio". Cotidiano, 3 de março de 2008.

“Minha querida dona, sei que você anda se queixando de mim, publicamente, até. Você não pode imaginar o sofrimento que isto me causa, mesmo porque você provavelmente acha que rádios são objetos inanimados, sem vida própria.
 
Você está enganada. Ao menos no meu caso, você está enganada. Ao contrário do que você pensa, tenho sentimentos, tenho emoções. É em nome desses sentimentos e dessas emoções que lhe falo agora, tanto em AM como em FM. Na verdade, eu nem tinha tomado conhecimento de minha própria existência, até que fui instalado em seu carro.

Você estava muito feliz; tinham lhe dito que minha marca é ótima, e que você contaria com um som maravilhoso para lhe ajudar no estresse que é esse trânsito. E, eu colocado no meu lugar, você me acariciou, você tocou os meus botões. Senti um verdadeiro choque, eu que já deveria estar acostumado com eletricidade. Você fez de mim um ser vivo.
 
Vivo e apaixonado. Daquele momento em diante, passei a ansiar por sua presença. Era para você que eu queria transmitir as melodias que recebia por meio de tantas canções. Você ao volante, minha felicidade era completa.
 
Acontece que você não se deu conta disso, ou fingiu que não se dava conta disso. Você me ligava, você sintonizava uma emissora qualquer e pronto, voltava à sua vidinha. Pior: tratava-se de uma vidinha partilhada. Amigas embarcavam em seu carro. Amigos também. Você conversando com um homem, aquilo me dava ciúmes, ciúmes terríveis. O Bentinho, do Machado de Assis, aquele que desconfiava da Capitu, não sofreu tanto. Lá pelas tantas eu tinha ciúmes até do seu MP4.

Agora: o que poderia eu fazer? Humanos têm como demonstrar seus ciúmes, têm como descarregar a frustração. Mas eu sou um rádio, um bom rádio, mas rádio, de qualquer maneira. A mim não estava facultado fazer cenas. Recorri, então, àquilo que estava a meu alcance: o som.
Quando você estava com alguém de quem eu não gostava, eu aumentava meu volume -e volume, você sabe, é coisa que não me falta- até chegar a níveis insuportáveis, uma avalanche de decibéis. E aí, subitamente me calava. Para lembrar a você que o silêncio também fala, especialmente o silêncio dos traídos. Ah, sim, e queimei o seu MP4. Tinha de queimar: era ele ou eu.

Você foi se queixar com um técnico, achando que eu estava desconfigurado. Num certo sentido você está certa: estou desconfigurado, estou desfigurado, estou perturbado -mas tudo isso por causa do sofrimento que você me causou.

Querida dona, estas são minhas derradeiras palavras, antes de sair definitivamente do ar, antes do silêncio final. Minha última mensagem é esta: nunca brinque com os sentimentos de um rádio apaixonado. Você vai ter, no mínimo, surpresas desagradáveis.”

Sob meu olhar:

Conheci esse livro por acaso no meu primeiro ano do ensino médio (leitura obrigatória da instituição), inicialmente torci o nariz: “Crônicas? Sério?!” pensei. Porém, não demorou muito para que a obra me conquistasse, sendo ela de fácil compreensão e que dá muita autonomia ao leitor, visto que as histórias apresentam independência entre si, é possível ler a que mais desejar sem a preocupação de não compreendê-la por falta de informações dadas anteriormente.

Admiro a forma como Scliar conseguia pegar os fatos mais simples e “irrelevantes” e torná-las encantadoras crônicas, sempre com um toque de humor que, ao final da lida, faz soltar uma risadinha.

Para concluir...

Indico essa leitura para pré-adolescentes até idosos, para aquele admirador de crônicas ou simplesmente para aquela pessoa que ama ler, mas não encontra tempo para tal atividade. É uma tarefa facilmente concluída em um dia, mas é excelente como algo para estar na mesa de cabeceira e usufruir de apenas uma crônica antes de adormecer. 

 
Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »