23/04/2021 às 09h57min - Atualizada em 23/04/2021 às 09h52min

Crônica: A vida vizinha

Ana Paula Alves - Editado por Andrieli Torres
Foto: Pixabay/SookyungAn

Eu nunca falei muito com a vizinha que mora no mesmo andar que eu. Nunca houve nada mais profundo do que comprimentos e conversas de elevador, com comentários sobre o clima ou algo do tipo. Logo, não sei nada além do seu nome. Mas ao mesmo tempo, as paredes são finas, morar ao lado dela faz com que eu ouça muito do que ela faz.
 

Acredito que ela trabalhe em home office, assim como eu, pois raramente escuto o som da fechadura e da porta da frente abrindo e fechando.
 

Também consigo notar que essa mulher tem uma rotina. Toda segunda de manhã posso ouvir o aspirador de pó sendo ligado. Deve ser do tipo de pessoa que faz um planejamento sobre o que vai fazer em cada dia da semana, com um planner escrito a mão em letras decoradas e de caligrafia perfeita. Em segundas que não escuto o aspirador, penso se não aconteceu algo de errado para fazê-la abandonar a rotina.
 

E uma coisa que ouço com frequência, é o ritmo baixo de músicas animadas. Não é alto o suficiente para que eu identifique a música, mas parece ser algo pop ou eletrônico. Ela deve gostar de fazer as coisas do cotidiano com música, pois as mantém tocando quase o dia inteiro.

Acredito que ela faz as tarefas diárias cantando e dançando ao mesmo tempo, consigo visualizá-la fazendo uma dancinha improvisada enquanto lava a louça ou cantarolando enquanto responde emails. Provavelmente anda pela casa fazendo isso, a julgar pelos passos mais animados e pesados que escuto. Deve ser uma forma dela deixar seus dias mais alegres. Talvez eu devesse seguir o exemplo dela.

 

Mas certo dia, também ouvi gritos furiosos. Fiquei imaginando se ela não estaria brigando no telefone com um namorado ou namorada. Não conseguia entender bem o que ela dizia, mas parecia ser algo sério. Espero que o problema tenha sido resolvido e que seu relacionamento esteja indo bem agora, sei como esses tipos de brigas e discussões podem ser dolorosos.
 

Não faz muito tempo, também ouvi o barulho estridente da furadeira no outro lado da parede. Acho que ela estava mudando a decoração, pendurando um quadro ou adorno para deixar o apartamento mais aconchegante. Pode ser que ao passar mais tempo em casa, ela tenha percebido que lhe falta um "tchan", uma personalidade mais forte dentro do lar. Eu também comecei a ter esse sentimento com meu apartamento depois de um tempo em home office.
 

Ou talvez, ela não tenha uma rotina de verdade, só acaba coincidentemente tendo mais tempo livre na segunda para limpar a casa. Pode ser que deixe a música tocando simplesmente por esquecer de desligar o aparelho de som. Os passos animados podem ser apenas o jeito dela de andar normalmente. E quando eu ouvi gritos, poderia estar brigando com um restaurante que entregou o pedido errado e se recusou a trocar. A furadeira também pode ter sido usada simplesmente para colocar um porta chaves na parede, não uma decoração aconchegante.
 

Como eu disse, não sei nada sobre ela.


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