30/04/2021 às 10h14min - Atualizada em 30/04/2021 às 09h53min

O Brasil de 2021: distopia ou realidade?

Receita Federal defende a taxação dos livros com o argumento de que "pobres não leem"

Adélia Lima Sá - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Charge - Ribs
Independente do período, na ficção ou na realidade, o primeiro alvo de um grupo que deseja o retrocesso da sociedade são os livros, visto que, através das obras, a sociedade pode acreditar em tudo o que chega e consegue argumentar ou discordar, o que é inadmissível para um grupo opressor.

Nos primeiros dias do último mês, a Receita Federal publicou um documento se posicionando como favorável às taxações dos livros que circulam no Brasil, essa é mais uma tentativa, em menos de um ano, de limitar o acesso à leitura e à cultura no país. O argumento utilizado foi de que "pobres não leem", favorecendo ainda mais a segregação social no Brasil.

A incineração do conhecimento por meio dos livros já foi descrita pelo escritor norte-americano Ray Bradbury, quando lançou em 1953 seu livro de ficção mais conhecido pelo público leitor, intitulado "Fahrenheit 451", em que apresenta uma sociedade submissa ao governo e censurada. Nesta "ficção", bombeiros não apagam incêndios e sim os ocasionam por meio da queima de livros. O próprio Ray não considera sua obra como ficção: “Ficção cientifica é uma ótima maneira de fingir que você está falando do futuro quando, na realidade, está atacando o passado recente e o presente”, afirmou o escritor.



De fato, distopias não são baseadas em devaneios dos autores e sim em acontecimentos prévios que podem se tornar uma realidade sombria e colocar toda uma sociedade oprimida e à mercê do governo.  

Os riscos da aprovação da proposta

Essa nova proposta sobre a taxação dos livros, se aprovada, favorecerá ainda mais o acesso aos livros apenas pela camada mais rica da sociedade brasileira e a exclusão da cultura para os mais pobres. Marcos Vinicius, universitário de Biologia, ao ser indagado sobre a sua relação com os livros e a sua visão sobre essa proposta, afirmou:
 

O Brasil é um país com desigualdade preocupante em que a educação não é muito valorizada. Uma vez que acontece essa proposta de taxação e ela é aprovada, há aumento nos preços dos livros e a limitação da educação é cada vez mais incidente. Acho que a alta nos preços dos livros é mais uma barreira na formação pessoal e coletiva da sociedade.

O argumento de que "pobres não leem" é infundada, visto que, de acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2020), 46% das pessoas com renda familiar de menos de um salário mínimo são leitoras. A educação deve ser de qualidade e acessível para todos, ela chega por meio de livros e profissionais de qualidade. Tanto o rico quanto o pobre precisam ter o contato com a leitura para a compreensão do mundo e do convívio em sociedade.
 
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