30/04/2021 às 11h24min - Atualizada em 30/04/2021 às 11h02min

Lutero: salvação somente pela fé e não por obras

Há 500 anos, no mês de abril, acontecia o julgamento de um questionador das doutrinas da Igreja Católica

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Andrieli Torres
Fonte: Wikipedia
Quando estamos envolvidos em um grupo ou uma causa não é simples nos atentarmos para possíveis falhas que ocorram. Não é ser alienado que está em questão, penso que quando escolhemos fazer parte de algo é porque nos identificamos e confiamos em quem nos dirige e orienta. Se, de repente, percebemos algo errado, a posição de discordar daquilo que é bem visto por todos, torna-se uma tarefa desgastante. Para enxergar além e questionar a “ordem” já estabelecida é preciso empenho e muita coragem. Um desejo de mudar as coisas traz inquietação e muitos desafios a líderes com esse propósito.
 
Compra-se salvação em Roma, essa foi a percepção de um líder religioso que se afligia com a imagem de um Deus punitivo e com a instituição que vendia a paz aos aflitos. A venda de indulgências era prática comum, vendia-se o perdão, ao pagar certa quantia era possível, até mesmo, livrar a alma de alguém do purgatório e liberá-la para o paraíso.
 
Um importante sujeito na história, questionador e que lutou por mudanças, foi Martinho Lutero. Ele nasceu na Alemanha em 1483, tornou-se um monge e professor de teologia. Levantou-se contra a venda do perdão e salvação praticada pela Igreja Católica. Com sua leitura e interpretação da Bíblia entende a fé, e não as obras, como caminho para a salvação. Em 1525, quando já não tinha vínculo com a Igreja Católica, casou-se com Catarina von Bora com quem teve seis filhos.
 
A publicação e disseminação das “95 teses” de Lutero em que questionava vários aspectos da doutrina da Igreja Católica rendeu-lhe consequências legais, ele foi levado a julgamento. Na cidade de Worms, nos dias 17 e 18 de abril de 1521, Lutero foi ouvido na Dieta de Worms, uma conferência governativa. A Dieta de Worms de 1521, foi uma assembleia imperial, do Sacro Império Romano Germânico realizada em Worms. Reuniam-se na dieta sob a presidência do imperador Carlos V.  Destaca-se que as decisões dessa assembleia valiam para todo o império.

Lutero foi convocado a se explicar e pensou que haveria uma discussão, um debate para expor as considerações que havia feito e assim poderia esclarecer seus questionamentos. Entretanto, foi informado que deveria dizer apenas uma palavra: revogo. ‘Revogo o que disse’ seria sua declaração. Ele considerou que renunciar suas obras seria impensado. Se renunciasse seus livros, analisou que estaria fortalecendo a tirania contra a qual havia se levantado. Não queria ser obrigado a aceitar, sem questionar, aquilo que a Igreja Católica impunha. De acordo com a consciência dele queria ser convencido pela Bíblia e não por papas ou concílios.  

Por ter negado a revogação da sua doutrina, foi publicado o Édito de Worms que baniu Lutero. Um decreto do imperador romano Carlos V, o Édito de Worms, proibiu os escritos de Lutero e o considerou como inimigo do Estado. Martinho, de acordo com a decisão, seria excomungado da Igreja Católica e banido da nação.  Devido ao envolvimento de Carlos V em questões políticos e militares em outros lugares, o duro Édito de Worms, não foi cumprido.


Carlos V foi convencido pelos oficiais da Igreja Católica que Lutero representava uma ameaça e, então, foi autorizada a condenação dele pelo Império. Lutero fugiu e se escondeu, com proteção do príncipe Frederico III, logo imaginaram que ele tinha sido morto, entretanto escapou à prisão e permaneceu em isolamento no castelo de Wartburg, na Alemanha, por vários anos. Enquanto recluso começou a traduzir o Novo Testamento da Bíblia para sua língua, o alemão.

O povo se revoltou contra a Igreja Católica incitados pelas indagações de Lutero e houve muitas mortes em conflitos. Os questionamentos de Lutero levaram o povo a se rebelar e agir com violência, mas ele não queria que ocorresse derramamento de sangue. Porém as consequências geradas na população não estavam sob o controle dele.

Após algum tempo, Lutero foi autorizado a regressar à vida pública. Sabe-se que ele foi figura fundamental na definição das bases para a Reforma Protestante a qual representou um rompimento com a Igreja Católica e possibilitou o surgimento de ramificações do Cristianismo. Uma dessas ramificações foi o luteranismo, a primeira religião protestante.

Martinho Lutero foi um importante líder que questionou de forma eloquente tudo que estava acontecendo e isso o levou a ser julgado. Questionar quem está no poder não é uma tarefa simples, ainda mais, na Idade Média quando viveu e atuou. É importante perceber que inúmeros benefícios são desencadeados desse tipo de ação embora haja prejuízos, principalmente pessoais, para quem se dispõem a agir para a transformação social. Sua iniciativa de tradução da Bíblia repercutiu positivamente, muitas pessoas não sabiam ler e com o interesse pela leitura da Bíblia foram alfabetizadas por meio da utilização desse livro com o desejo de poder ler e entender por si mesmos os ensinamentos divinos. Com certeza, não era interesse dos poderosos que todos tivessem acesso ao conhecimento, já que esse desperta questionamentos em quem o possui que podem gerar grandes transformações, contrárias aos interesses deles, como as realizadas pelo próprio Lutero.

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