14/05/2021 às 11h38min - Atualizada em 14/05/2021 às 11h31min

A divisão entre “literatura” e “entretenimento”: necessário ou equívoco?

Romance de entretenimento, categoria criada pela 62ª edição do Prêmio Jabuti, traz uma discussão sobre a necessidade ou não dessa divisão

Larissa Bispo - Editado por Andrieli Torres
Foto/Reprodução: Google
Team Literatura ou Team Romance de Entretenimento?

Não é nenhuma novidade a discussão que abrange a separação entre literatura e entretenimento. No entanto, essa pauta trouxe uma nova discussão com um quê polêmico no tradicional Prêmio Jabuti de 2020, com a criação de uma nova categoria no gênero romance: o romance de entretenimento. Segundo o curador do prêmio, em uma entrevista para a Folha: “Buscamos com essa inclusão reconhecer os autores nacionais de ficção para que eles se tornem tão populares quanto Tolkien, Shelley e Bram Stoker, Julio Verne, Charlotte Brontë e José Mauro Vasconcelos e Agatha Christie”, diz Pedro Almeida.

O tema é complexo e envolve uma série de debates e controvérsias. Há quem acredite ser exatamente o que propõe o prêmio: uma nova maneira de prestigiar e dar espaço para autores que não costumam ser premiados. No atual cenário brasileiro no âmbito da literatura, é inegável que a valorização da literatura contemporânea em um prêmio conceituado pode, sim, trazer novos olhares para esses autores e levar seus nomes e obras a um reconhecimento maior.

Ainda, é possível pensar também em uma perspectiva costumeira quase oculta que esse ‘novo’ termo revela. Como me contou Pamela Simões, 24 anos, essa separação parte da maior parte dos leitores. “A gente que lê de tudo faz um pouco dessa segmentação de vez em quando (...) Se fosse pensar assim, nós criaríamos essa categoria direto”, diz a mestranda em administração e leitora assídua.

Mas há o lado que considera essa uma definição elitista. Afinal, essa divisão que coloca a literatura e o romance de entretenimento como polos opostos pode muito bem ser interpretado como se o último não agregasse valor literário, ou seja, como se definitivamente não fosse literatura. Contudo, não é uma surpresa se considerarmos que ainda há muitos olhares tortos para grandes best-sellers cujas narrativas se fazem das características do romance de entretenimento.

É uma divisão necessária ou um equívoco?

Pensando no que seria ideal, é possível considerar um equívoco – dos grandes – achar que romance de entretenimento reúne características que não podem ser consideradas literária. Se o primeiro tem o intuito de apenas entreter, com esse raciocínio nos leva a pensar que o segundo tem o propósito de entediar. Ou seja, é uma divisão que não parece sustentar muitos fundamentos.

Pensando logicamente, talvez o termo não seja o pior dos males dentro da esfera literária. Se o cenário do mercado editorial brasileiro fosse outro, possivelmente essa discussão teria uma resposta unânime e não estaríamos aqui conversando sobre o assunto. Mas essa injusta palavra, e que está longe de ser perfeita e adequada, pode ser uma maneira de trazer visibilidade, prestígio e colocar essas obras e autores em evidência – e isso é sempre importante.

Para Pamela, intitular uma obra como entretenimento pode ser quase considerado um elogio: “Quando você para pra pensar, dizer que uma obra é de entretenimento é quase um elogio. Eu não estou lendo só por ler, aquele texto traz prazer para mim”, e complementa salientando que “Dizer que uma obra é de entretenimento é deixar claro que ela dá prazer a quem a lê, e a única crítica nisso é àquelas que não tem capacidade de fazer isso.”

Paradoxo confuso, mas o debate, novamente é complexo; não se trata de uma briga sobre quem está certo ou errado. Não estamos falando de ciências exatas, afinal. Mas há um fato: a categoria é só um título. Simbólico, digamos assim, embora passível dessa discussão. Literatura entretém. E romance de entretenimento também é literatura. 

O que não é literatura?

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