01/06/2019 às 18h19min - Atualizada em 01/06/2019 às 18h19min

Juntas pelas leituras e pelos afetos

Minha experiência com o projeto Leia Mulheres

Socorro Moura - Editado por Millena Brito
Leia Mulheres Teresina. Imagem: arquivo pessoal.

Leitura é uma atividade solitária. Você e o livro, você e o autor ou a autora. No transcorrer, a depender do tipo de encontro que se tem com a obra, o arrebatamento e toda sorte de sentimentos acabam transformando-se em outras necessidades. Eu diria, mais precisamente, a de compartilhamento. No entanto, a realidade que se manifesta é totalmente contrária ao mundo de borboletas amarelas que se esperava encontrar: quem mais perto de você gosta de ler? O primeiro impulso é arrastar a pessoa a vista para aquele monólogo, que logo se revela inútil e frustrante.

Pareço muito conhecedora de causa e incorporada aos detalhes. Porém, só acrescento um ponto: essa descrição não é ficcional e faz parte da minha rotina e, acredito, de muitas pessoas mundo a fora. A solução? A mais segura e imediata: um instagram literário. É útil? Bastante. Acontecem aproximações, troca de dicas, de likes, elogios, quando se tem sorte, alguém que discute algumas breves ideias através de mensagens. Que ótimo, não? Bom, para estar por dentro de lançamentos, atiçar o seu lado consumista, inflar seus seguidores, julgo eficiente sim. Mas e o arrebatamento inicial que faz você incomodar os parentes, amigos e crushs? Então, aquela rede que abriu portas, a depender de como se estabelece contatos, também pode fazer você reverter o quadro e ter novas perspectivas.

E as voltas com este meio eficaz de divulgação, deparei-me com o projeto Leia Mulheres. Um grupo de leituras presencial que promove – em meio as individualidades acentuadas pelo anonimato – encontro de pessoas para a discussão de obras escritas por mulheres, tanto nacionais, internacionais, como locais. É a reunião de leitores para a troca de impressões sobre uma obra escolhida previamente e divulgada lá naquele meio que te faz ficar escondida, mas que - bingo! - convergiu para algo mais caloroso. Brincadeiras à parte, os canais virtuais quando bem administrados são pontos de encontros – por ventura de desencontros – de divulgação, porém, o poder de coletivos de leitura vai muito mais além.

No último dia 25, carimbei minha quarta participação no Leia Mulheres existente em minha cidade natal, Teresina. Posso dizer que aprendi a olhar no olho das pessoas. Aprendi a parar e prestar mais atenção em quais sentimentos estava levando para os pontos de encontro. Enfim, a prestar mais atenção no outro. Gostei da leitura? Tive a grata oportunidade de demostrar. Não gostei? Não me refutei. Foi fácil? Obvio que não, pois sempre há o receio de criar antipatias com aqueles que encontraram algo de especial. Mas diante do outro e da obra, enfim, do todo se descobre a medida. Aquela que não afeta as subjetividades. Muito pelo contrário, só congrega.

Neste dia, a obra escolhida para debates foi da escritora Aline Bei, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria Melhor Livro do Ano – Estreante com menos de 40 anos, com “O peso do pássaro morto” (Editora Nós). Um livo que trouxe a tona a solidão feminina como fio condutor de uma trajetória pontuada nas idades da personagem. Uma prosa poética que teve como trunfo a escrita criativa e inovadora que imprimiu um ritmo leve a uma narrativa tocante e sofrida, em que ora me sensibilizei, ora me identifiquei. Imagina aí, várias identidades juntas a partilhar da empatia pela mulher, que em certo momento percebemos não ter nome, mas que oras bolas, é uma mulher! A outra estranha, sob os meus olhos, o meu coração e o meu julgar. Do grupo que se dispõe a separar um tempo, só para olhar uma para a outra e transmitir: “Viu, olha só o quanto me entreguei”. É o poder da afetividade, da leitura e do grupo incentivando pessoas a terem momentos para as trocas presenciais e consistentes.

Não deixo de observar que encontro curiosos e também os resistentes. Hoje, a rotina de encontros é algo natural, mas recordo que não foi fácil a quebra do gelo. Fantasia-se um ambiente intelectualizado, inacessível ou ainda de análises linguísticas e estruturais da literatura. Não recorra a esse expediente. No máximo que terá que enfrentar é você mesmo e uma súbita timidez. Mas guarda: o lugar é de acolhida. Um ato político por si só. Se interessou? Talvez tenha na sua cidade ou em uma mais próxima, pois o projeto já agrega mais de 100 cidades Brasil afora! Confira!


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