26/05/2021 às 14h19min - Atualizada em 26/05/2021 às 11h28min

Resenha Crítica: Corte de Espinhos e Rosas - Sarah J. Maas

Como o BookTok influenciou a popularização de uma saga

Tamires Limurci - Editado por Talyta Brito
Reprodução/ Galera Record

 

Você já ouviu falar do BookTok? O lado literário do aplicativo TikTok é um grande grupo de livros on-line e com pessoas do mundo todo. Com mais de 9,5 bilhões de visualizações, a hashtag #booktok é o espaço onde os criadores de conteúdo - os Booktokers - recomendam seus livros favoritos, apontam erros nos livros que não gostaram, criam continuações (POVs) de sagas que já terminaram e desabafam sobre histórias que os fizeram chorar.  Entretanto, mesmo com o sucesso da plataforma, só recentemente que o mercado editorial brasileiro está utilizando das táticas de divulgação para encontrar novo público.

 

Observando a lista dos livros mais vendidos da Amazon, é notável a presença dos "queridinhos" do booktok. Os gêneros de Ficção e Infanto Juvenil dominam a literatura, sendo quase impossível não ver a presença de Sarah J. Maas, Holly Black e Rick Riordan nos mais recomendados. Para a Catharina Iavorski, acadêmica de Jornalismo e usuária do aplicativo, o Booktok não é apenas uma forma de divertimento, mas sim uma fonte infinita de sugestões. "Se estou em casa, estou no TikTok. E, toda vez que eu entro (no aplicativo), adiciono pelo menos 4 livros novos para a minha lista", afirma. Outro ponto citado pela estudante foi a indicação de livros não tão conhecidos e de autores nacionais - que, geralmente, publicam por conta própria.

 

Na primeira resenha dos 'famosinhos' do TikTok, o livro escolhido foi Corte de Espinhos e Rosas - ou Acotar para os íntimos -, da Sarah J. Maas. Lançado em 2015, pela Editora Galera Record, o primeiro livro da saga é uma releitura da fantasia "A Bela e a Fera", só que com fadas no lugar de bestas e Grão-Senhores ao invés de príncipes. A história, já traduzida em trinta e cinco idiomas, envolve o público com personagens carismáticos, um universo bem construído - que divide o mundo humano e o sobrenatural com uma muralha - e uma narrativa de 'Inimigos para amantes' que é um dos nichos mais comentados do momento.

 

     “Agradeça por seu coração humano, Feyre. Tenha piedade daqueles que não sentem nada.”

 

Com um início lento, somos apresentados à protagonista Feyre Archeron, uma humana que é forçada a se tornar caçadora para ajudar sua família. Com duas irmãs inúteis e um pai machucado, a caçula da família adentra os bosques ao redor da propriedade e, assim como na história original, "pega" algo emprestado do vilão do conto, só que nesse caso o objeto que ela rouba é a pele de um lobo gigante que ela mesma mata. Com isso, somos apresentados ao Tamlin, o Grão-Senhor da Corte Primaveril e agora proprietário da protagonista. Para aqueles que estão se perguntando, um feérico é um ser mágico e poderoso, quase como as fadas só que sem a magia dos desenhos. Grande parte do livro se passa na Corte e ao invés de termos “Bela ama livros e ganha uma biblioteca", temos “Feyre gosta de pintar e ganha um estúdio”. Então, a primeira parte da história é, basicamente, uma releitura quase exata do clássico e te deixa perguntando se o objetivo era apoiar a síndrome de Estocolmo.

 

Entretanto, da metade para o final, a narrativa - e a protagonista-  finalmente desenrolam e começam a finalmente cumprir o Hype prometido. Com a adição de novos personagens, uma trama própria e cenas de tirar o fôlego, Acotar consagra-se como um clichê romântico com um elemento a mais. O final aberto é ideal para convencer os leitores em modo desespero pelas sequências, que são três livros completos e uma história curta. O romance é uma parte integral do conto, entretanto ele se desenvolve de uma maneira diferente daquela imaginada e sem cair nos clichês comuns, sendo um ponto positivo para os leitores sedentos por um novo par romântico. Outro ponto muito bem desenvolvido é o universo fantástico. Com uma política formada e um contexto histórico, a geografia de Prythian é construída de um modo que é quase possível acreditar que existe e está a quilômetros de distância.

 

No final, o livro recebe merecidas quatro estrelas e é uma introdução ao gênero fantasia. Contudo, é preciso pontuar os problemas tanto na escrita quanto no universo. A falta de personagens de cor é um grande problema e que continua nos próximos livros, plots abandonados e conceitos esquecidos, também. Mas, o ponto que mais chama atenção (de forma negativa) é como parecem duas histórias em uma só, e as duas quase não tem relação nenhuma com a outra - é possível reler da metade pra frente com quase nenhuma dificuldade. Mesmo sendo bom, Corte de Espinhos e Rosas não deve ser tratado como uma obra-prima literária, mas sim, como um livro de fantasia adulta com o propósito de divertir, emocionar e ajudar aqueles que precisam. Além de conter cenas hot.


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