11/06/2021 às 02h16min - Atualizada em 11/06/2021 às 02h12min

Sustentabilidade ambiental integrada à saúde humana

Pesquisadores alertam para o impacto do ser humano nos ecossistemas e os riscos que essas intervenções representam para a sobrevivência da própria humanidade

Carolina Dill - Editado por Talyta Brito
Foto/reprodução: arte pessoal

O aumento da temperatura média do planeta é um consenso científico que independe de localização geográfica, de ponto de vista ou de opinião política. As mudanças climáticas são percebidas em tempo real, reverberando consequências ao redor do território terrestre e para a humanidade. Nesse sentido, torna-se necessário compreender os impactos dos seres humanos no planeta e como esses impactos vêm causando repercussões na própria vida das pessoas. A saúde planetária, portanto, é um campo que se apresenta para analisar estes aspectos.

Em 2018, a revista científica The Lancet caracterizou as mudanças climáticas como a maior ameaça do século XXI para a saúde humana, isso porque ela está diretamente relacionada à saúde do planeta. Os sintomas na civilização de uma Terra adoecida surgem por meio das perturbações antrópicas nos ecossistemas naturais, no uso da terra, nas alterações no ciclo de nitrogênio e fósforo, na poluição química do solo, água e ar, na redução na disponibilidade de água potável, na perda da biodiversidade, na destruição da camada de ozônio, na acidificação dos oceanos, entre outras inúmeras ações. Por outro lado, retornam sobre a própria saúde e bem-estar da humanidade através do surgimento de novas doenças, do agravamento das doenças infecciosas e do aumento das incidência de doenças crônicas. 

Mayara Floss, médica de família e comunidade e membro do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) defende que tudo está conectado. “A gente não derruba uma árvore, uma floresta, sem ser afetado, sem sofrer as consequências”, sinaliza. De acordo com a médica, nos dias em que a poluição do ar está mais elevada, percebe-se o aumento no número de casos de Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou de doenças cardiovasculares. Em dias que estão muito quentes, com altas incidências de ondas de calor, surgem no consultório diversos casos relacionados ao estresse por calor. “Quando estou cuidando da minha saúde, eu tenho que estar cuidado do meu planeta, afinal não existe uma segunda casa, um planeta B”, afirma Mayara.

Mas para além de questões fisiológicas, a ação humana relacionada às mudanças ambientais globais geram impactos nas variações nos regimes de chuvas, provocando diversos desastres naturais, como enchentes, furacões e deslizamentos de terras. Além disso, as mudanças climáticas têm um impacto desproporcional sobre os países subdesenvolvidos, que não dispõem de meios para se protegerem comparado aos desenvolvidos. As populações mais pobres e vulneráveis são as que sofrem em maior grau com a fome, com a desnutrição e com a necessidade de realização de migrações. "Pensar em saúde planetária é pensar em uma questão de justiça, tanto justiça social quanto ambiental”, defende Floss.

Nancy Stoppe, doutora em Ciências Biológicas pela Universidade de Campinas (UNICAMP) e integrante do Grupo de Estudos em Saúde Planetária Universidade de São Paulo (USP) complementa: “o mundo é um só, os problemas são únicos, você tem que se preocupar, porque na hora que você mexe em um quadradinho de um ecossistema, você vai mexer com toda uma unidade”. Em um viés transdisciplinar, a saúde planetária permeia todas as áreas do conhecimento, seja nos aspectos biológicos, sociais ou econômicos. De acordo com Stoppe, o campo permeia todos os caminhos porque ele diz respeito a todo o planeta. Entretanto, tornar a pauta conhecida e fortalecida entre a população é um dos maiores desafios para os pesquisadores. Para a bióloga, o tema é de extrema importância, mas ainda é muito restrito à academia. Assim, a pesquisadora defende que aqueles que se apropriam do tema sejam multiplicadores para que o debate ultrapasse os limites físicos da universidade. 

Mayara apresenta consigo o seu próprio conflito “quando eu penso em saúde planetária, eu penso no ser uma humana neste planeta, uma humana que vive aqui, que precisa ter um planeta saudável para poder ter uma vida saudável”. A médica diz que o futuro já está sendo vivido e defende que é necessário trabalhar na coletividade para adaptar um planeta que já esquentou. Para isso, é preciso ter coragem para olhar para o passado e entender o presente, para que seja possível reescrever a história. “Ao longo de muito tempo, fomos desconectando a humanidade da terra. (...) Nós sempre achamos que cuidamos da natureza, que protegemos a natureza, mas nós não nos entendemos como parte dela”, conclui. 

     Sociedades saudáveis decorrem de ambientes saudáveis. Pensar em saúde planetária é pensar sobre a interação humana com o ambiente. É pensar como, em coletivo, a humanidade irá garantir a sobrevivência das espécies, dos ecossistemas e das suas próximas gerações. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) já afirma que a saúde é um estado de equilíbrio dinâmico entre organismo e ambiente. No qual, insere-se os diferentes povos, espécies e ecossistemas. 

 

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