25/06/2021 às 11h43min - Atualizada em 25/06/2021 às 11h31min

Como a fofoca edifica a literatura?

Ana Beatriz Diogo Rodrigues - Edição: Brenda Freire
wayhomestudio

Eu estou morto. Sim, morto e aqui vou contar a história da minha vida. Quero contar como foram as minhas paixões e as aventuras que me trouxeram até o dia da minha morte. Esse relato não segue uma linha cronológica, mas não é confuso. Fui filho de Elite, fui amante de Virgília e hoje eu sou um defunto-autor. 

Essa é a história de Memórias Póstumas de Brás Cubas, livro clássico de Machado de Assis. O romance é fundador do realismo brasileiro e conquista um público até hoje. Em 2020, ele estava presente na lista dos 20 melhores livros lançados no ano passado, feita pelo The New York Times. A obra é uma das leituras obrigatórias nas escolas brasileiras. Porém, muitos alunos não criam um interesse pelo fato de ser algo obrigatório ou até o modo que o livro é apresentado.

Porém, uma nova trend do TikTok está mudando a forma de apresentar os livros para os jovens. Os usuários do aplicativo contam a história dessas como se fosse uma fofoca, em primeira pessoa ou não. Esse tipo de vídeo estourou na rede e a #FofocaLiterária já possui mais de 66 milhões de visualizações. E quase todo mundo gosta de uma fofoca, não é?

Mesmo que a fofoca seja conhecida como algo fútil, ela foi elemento presente durante a evolução humana e é uma ferramenta social importante. Não se sabe exatamente a origem desse falatório todo, mas ele está muito tempo presente com os seres humanos. Além disso, uma pesquisa publicada no periódico Journal of Personality and Social Psychology, mostra que a fofoca pode ajudar a diminuir o stress e analisar o comportamento de outras pessoas. No entanto, Mariana Uhlmann, esposa de Felipe Simas, ator global, disse em um post que certa vez ao contar uma coisa para o marido, ele perguntou se aquilo iria edificar a sua vida. No caso dos tiktokers e a sua fofoca literária, essas histórias edificam muito.

As histórias são as mais diversas possíveis e têm para todos os gostos. Dos livros mais famosos na internet atualmente até clássicos. Um dos pregadores da palavra de livros clássicos é o Patrick, estudante de medicina e leitor assíduo, conhecido como Patzzic nas redes sociais. Ele já acumula mais de 210 mil seguidores no TikTok e mais de 8 mil no Instagram. O rapaz ganhou essa fama ao compartilhar os enredos de livros clássicos de uma forma em que criou interesse nos jovens. 

Patrick foi um dos primeiros no Brasil seguir essa trend e se inspirou em vídeos do TikTok gringo em que os usuários se passavam pelos personagens dos livros. Então, a sua ideia foi adaptar isso para uma grande fofoca com os livros clássicos. Em entrevista ao Lab Dicas, ele afirmou que teve essa iniciativa quando passou um dia inteiro nessa rede.

"Teve um dia que me senti muito criativo e falei ‘Vou falar de livros no TikTok’. Aí eu criei o vídeo e postei isso só pra uma amiga minha ver e deixei lá no TikTok só para uma amiga minha ver, não tinha nem cinco seguidores lá. Só que aí quando eu saí do tiktok, fui fazer umas coisas em casa e voltei o vídeo tinha viralizado.”, afirma. E assim começou a trajetória de Patzzic com a plataforma. 

É inegável a influência de trabalhos assim para os jovens e exemplo disso é a super venda do livro Mentirosos da autora E. Lockhart por causa da divulgação da obra no TikTok. Patrick comenta que “Eu sinto que todo mundo que tem participado dessas trends de falar de livros juntos lá no tiktok tem de certa forma cumprindo um papel social, em fazer divulgação literária na internet principalmente para um público jovem.” Mesmo com essa movimentação, ainda há muito para mudar na realidade dos jovens leitores no Brasil e o influenciador afirmou que está disposto a continuar fazendo esse trabalho e incentivando a leitura nacional. 

Algo que chama atenção no trabalho do Patzzic é a inserção dos livros clássicos, que os jovens não têm muita afinidade em uma plataforma em que o maior público é formado por adolescentes. “Depois que eu postei o primeiro vídeo sobre o clássico e vi que as pessoas gostaram eu passei a entender que o que havia na realidade não era uma falta de curiosidade das pessoas para com os livros clássicos e sim uma mistificação da ideia de que os clássicos são livros difíceis, são livros inacessíveis.”, disse o rapaz na entrevista. Porém a forma que ele aborda as histórias pode criar um interesse e motivar o público jovem.

Quando Patrick, e outros influenciadores, criam conteúdos que podem levar muito conhecimento eles agregam e incentivam essas pessoas a conhecerem coisas novas que antes elas não achavam acessíveis. O acesso ao conhecimento deve ser sempre pensado de forma democrática. Que pessoas como Patrick continuem edificando a leitura no nosso país e será ótimo se for através de uma fofoca. 

 

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