16/07/2021 às 00h42min - Atualizada em 16/07/2021 às 00h00min

É hora de falar sobre ele!

E se a gente começasse a discutir sobre o abandono afetivo paterno?

Letícia Aguiar - Editado por Talyta Brito
reprodução/internet
Daqui a dois domingos o nosso calendário vai marcar mais uma data comemorativa: o dia dos pais. Celebrado tipicamente com o enaltecimento da figura paterna e a chuva de comerciais, infelizmente, nem todo mundo vai poder comemorar esse dia com o seu pai, porque por trás da comercialização exuberante, existe uma realidade silenciosa que ainda perpassa por muitos lares: a do abandono afetivo paterno. 
 
Maria Júlia tinha apenas 3 anos quando seu pai se ausentou de sua criação. Agora aos 21 anos, a estudante de Ciências da Computação troca poucas palavras com o pai, apenas quando ele liga no dia do aniversário dela, para lhe dar um discreto “parabéns” e um “até breve”. Na infância, ela estranhava o fato de ser a única sem pai nas festinhas da escola. Com o passar dos anos, acabou se “acostumando” com a ausência, embora isso ainda lhe deixe algumas marcas. “Através da terapia, acabei descobrindo que muitas das minhas dificuldades de relacionamento e também problemas de confiança, vieram da ausência de uma figura paterna”, falou. 
 
Embora carregue cicatrizes, foi na terapia que ela também pôde compreender as dores causadas pelo abandono, e só assim, Maria Júlia se deu a chance de trilhar os caminhos da vida. “Acredito que o mais importante foi entender o que a sua ausência me causou, pois assim, eu consigo lidar com todos esses problemas que quando eu era menor tinha, mas não sabia a origem. Recentemente, procurei meu pai para conversarmos e só de saber que ele está bem, seguindo a vida, já foi suficiente”, disse. 
 
Contudo, Maria Júlia não está sozinha, o abandono paterno continua marcando presença em muitos lares, perpassando pela vida de milhares de crianças e futuros adultos. De acordo com o levantamento da Central Nacional de Informações do Registro Civil (CRC), 80.904 das crianças registradas nos cartórios brasileiros em 2020, tinham somente o nome da mãe nas suas certidões de nascimento. Ainda em números, em 2018 eram 5,74% de crianças sem registro no nome do pai. Em 2019, a porcentagem aumentou, chegando a 6,15%. No total, são 5,5 milhões de adultos que nunca tiveram o reconhecimento do progenitor e cresceram tatuados com as marcas do abandono.

Os impactos desse abandono podem ser profundos e levados por toda vida. De acordo com o psicólogo Gabriel Vasconcellos, pessoas que sofreram com o abandono paterno muitas vezes tem episódios depressivos ao longo da vida ou podem desenvolver esse transtorno no decorrer dos anos. Podendo ainda, ter transtornos de ansiedade e alimentares, além de stress e, terem, em algumas fazes da infância, o desenvolvimento da personalidade prejudicado.
Porém, remando contra a maré do abandono afetivo paterno, muitos pais ainda se fazem presentes na criação de seus filhos, pois tem plena noção de que essa não é uma tarefa apenas da mãe. Esse é o caso do corretor de seguros, Alexandre Freire, 53. Pai de dois filhos, ele sempre se fez presente, acompanhando desde a queda do primeiro dente de leite, até a entrada no ensino médio. Questionado sobre o abandono afetivo, Alexandre considera difícil julgar a situação de modo geral, mas fala que procurou ser atuante na criação de seus filhos. “Acho difícil julgar de modo genérico esse tipo de situação, agora, falando por mim, é algo que nunca passou pela minha cabeça, sempre achei essa responsabilidade uma missão, assim como meu pai fez comigo”, explicou.

A FORÇA DAS “PÃES” 
 
O ano era 2000. O novo milênio trouxe consigo algumas mudanças, MSN, Orkut, celulares dobráveis, as músicas agitadas do Rouge, foi uma época definitivamente marcante. Mas o período não trouxe apenas mudanças mundo a fora, nesse ano a vida de Vanessa Caldas, 40, ganhou um novo significado: o da maternidade. Em 2000, a funcionária pública engravidou do seu primeiro filho e foi ali que ela precisou usar a “superforça” das mães, porque estava para começar a sua caminhada como mãe solo ou “pãe”, ou seja, mães que exercem o papel de pai e de mãe. 
 
Vanessa é mãe de três filhos, ela nunca contou com o apoio financeiro e afetivo dos pais dos seus dois primeiros filhos. Enfrentou olhares de julgamento, críticas, mas seguiu firme, tentando dar o melhor de si para os filhos. Para ela, a parte mais difícil foi tentar suprir a lacuna afetiva causada nos seus dois primeiros filhos, pela ausência paterna. “A responsabilidade financeira você pode até conseguir na justiça, mas a responsabilidade afetiva a justiça não vai dar, ninguém vai obrigar o pai a dar carinho e amor para o filho. O abandono paterno nunca vai ser normal”, enfatizou.
Ao lado de Vanessa, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),  cerca de 12 milhões de mães chefiam os seus lares sozinhas. De acordo com Gabriel Vasconcellos, as mulheres que precisam cuidar e criar de seus filhos sozinhas, enfrentam estigmas sociais mesmo nos dias atuais. Elas têm dificuldades de encontrar emprego e de mantê-los, caso não haja uma rede de apoio por trás, como avós paternos ou maternos e adultos com quem essas mães possam dividir esta missão. Além do pouco apoio psicológico, que é negligenciado na maioria dos casos.
Mesmo com muitas pedras pelo caminho, Vanessa Caldas teve apoio dos pais e criou seus filhos com muita luta. Hoje ela se orgulha da sua trajetória e é um verdadeiro exemplo de resiliência. “Criar meus filhos sem um pai presente não foi um fardo para mim, foi difícil, foi sofrido, mas eu tenho orgulho de ter lutado para tentar ser tudo aquilo que meus filhos precisaram”, disse.



Ainda que muitas “Vanessas” tenham criado seus filhos como mães solo, a responsabilidade por um filho não é e nunca deveria ser apenas da mãe. Paternidade não é uma opção, é mais do que tempo de nós tirarmos o véu que esconde o abandono paterno, que transita silenciosamente por nossa sociedade. É preciso falar sobre ele, combate-lo e entender que ele nunca vai ser normal!


 
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