24/09/2021 às 15h47min - Atualizada em 24/09/2021 às 10h58min

Da era disco ao TikTok | Quem dança, se expressa

Como a dança, enquanto elemento cultural, pode trabalhar como instrumento de identificação, expressão e interação em meio as gerações.

Isabella Leandra - Revisado por Isabelle Marinho
(Foto / Reprodução: Propmark)

A dança e a linguagem gestual sempre estiveram presentes na vida dos seres humanos, como forma de se comunicar e se expressar, desde os povos mais primitivos. Ao decorrer da história, essas artes se aprimoraram e ganharam novas formas, intenções e ritmos e, até hoje, podem ser consideradas elementos fundamentais para a cultura de não somente lugares, mas também de gerações.

De onde veio esse movimento?

Pode parecer exagero, mas a dança já estava presente na vida do ser humano antes mesmo dele saber que tinha um nome. Antes de aprender a falar, os homens usavam de gestos para se expressar. Com códigos, expressões faciais e corporais utilizadas como elementos de sobrevivência, e claro, comunicação.
 
Anos mais tarde, em civilizações como o Antigo Egito, a dança ganhou um sentido ritualístico e sagrado, sendo amplamente utilizada como meio de adoração aos deuses. Na Grécia Antiga, a dança era utilizada, inclusive, para preparar os guerreiros para as batalhas, sendo até mesmo considerada como modalidade olímpica.
 
Com o passar das eras e gerações, a dança ganhou novos elementos, sentidos e atribuições e, na contemporaneidade, se alterou de forma ainda mais acelerada. Visto isso, atualmente, mais precisamente a partir do século XX, é possível observar danças características de cada década. Sendo assim, a dança ganhou uma atribuição não somente religiosa e cultural, mas também geracional, inclusive no Brasil

Nos embalos de sábado à noite

A década de 1970 é popularmente conhecida como a época “Boogie Oogie”, ou Era Disco. O movimento Black Power ganhou muita força, calças boca de sino e artistas como James Brown, Bee Gees Marvin Gaye estouravam nas paradas de sucesso. Vivendo o auge de sua juventude em meados dessa década, Gilson Jardim, hoje com 60 anos, conta um pouco sobre como a dança foi crucial nessa época, principalmente como elemento de inclusão.


O mineiro conta que logo que se mudou para o Bairro Floramar, na região Norte de Belo Horizonte, conheceu o grupo de jovens da Unijoc, onde teve seu primeiro contato com o Black e decidiu fazer parte do grupo. “Aos finais de semana nós íamos dançar nas escolas, onde tinha som, ou então nas sedes. Além disso, marcávamos de ir na casa um dos outros para poder dançar e interagir, que era a forma que tínhamos de fazer antes. E tomar muito KiSuco, Refrigerante Crush”, lembra.

 
Gilson ressalta então a influência da música nesse processo de interação e identificação com um grupo até mesmo dentro da família, visto que muitos grupos eram integrados por irmãos e primos, algo que, no seu ponto de vista, mudou um pouco na virada dos anos 80.
 
“A música nessa época era muito boa, ‘bacana’, justamente por isso. Ela ensinou a conviver com as pessoas e ao mesmo tempo, quando veio o heavy metal, fomos conhecendo outras pessoas e se separando, algo mais ´solitário´. Mas não deixou de ser uma época boa, um tempo bom”, relata com nostalgia. 

Será mesmo que domingo ela não vai?

Anos depois, já no final da década de 90 e anos 2000, a dança, sobretudo no Brasil, tomou novos rumos e se faz presente até hoje em toda reunião de família, festas de aniversário, formatura e até casamento. Foi a época principalmente do axé, de bandas como “É o Tchan” e muito samba.
 


Visto isso, Kenya Mendes, de 34 anos, conta sua trajetória com a dança e como ela foi importante não só para entreter ou interagir, mas no seu processo de identidade. Conviveu desde criança com a música e isso fez com que ela se atraísse pela dança desde cedo. Com influências do pai que “curtia seu som” nas folgas e finais de semana, aos 6 anos Kenya já amava dançar.
 
Passando pelo ballet, que foi o 
começo e base de tudo, ela ressalta que a dança ajudou a trazer postura corporal, responsabilidade, força e disciplina. Além disso, dança de ventre, afro, folclóricas, de salão, samba, danças circulares e sapateado fazem parte de seu repertório. “Eu falo que acho que já nasci dançando”, relata. 

Entretanto, apesar das alegrias e amigos que a dança trouxe, ela também traz tristes lembranças. Kenya conta que por ser uma menina preta no ballet, não era fácil. Ela expõe suas experiências com o racismo, e que, inclusive, chegou a ouvir que no papel de “Cupido”, o anjo era branco e de cachinhos dourados, e que por isso ela não poderia representá-lo. 

Ela lembra sua alegria imensa mesmo ao descer e subir o morro para ir às aulas, sempre arrumada, com um coque bem feito, sapatilhas impecáveis e a saia rosa. “Ali me reconheci como pessoa capaz de correr atrás de tudo o que eu quisesse mesmo em meio aos obstáculos”, salienta.

Assim, passando por diversos 
repertórios e estilos, Kenya relata como outros gêneros sempre a acompanhavam em casa ou nas festas. Os ritmos como “É o tchan” e o samba marcaram sua geração e garante que ali mesmo começou seu processo de reconhecimento e identidade. “Eu era a menina preta que arrasava segurando o tchan”, brinca. “Era assim em todas as festinhas de amigos e família, essa era a geração na qual eu com certeza, pertencia”, conclui com orgulho.
 

E quando o grave bate forte, a gata quer jogar

Chegando nos dias atuais, desde 2010 as redes sociais dominam a cultura e o cotidiano das pessoas, principalmente da conhecida “geração Z”. Em 2020, com o início da pandemia, a plataforma TikTok estourou e trouxe uma nova tendência para a identidade musical da geração: as famosas “dancinhas”.Trazendo ritmos de funk, pop e resgatando hits antigos, a plataforma gerou um movimento de danças principalmente utilizando as mãos, e mesmo em distanciamento social, ajuda jovens a interagir para aprender os movimentos do momento.

Gabriela Lima, de 19 anos, traz a paixão pela dança consigo desde a infância, principalmente pela influência dos pais e da família. Ela declara, acima de tudo, o sentimento de liberdade e leveza que a dança lhe traz, e como essas sensações fazem com que se aproxime das pessoas e aproveite aquele momento de curtir e festejar. 

“Em todas as festas em que começo a dançar, chegam pessoas querendo aprender ou apenas dançar junto, fazendo com que todos se enturmam e divirtam”, expõe a estudante. “Na maioria das vezes, a dança faz com que seus sentimentos se aflorem, mesmo que a música seja de outra época ou geração, eu quero dançar e curtir, porque gosto de me sentir presente e acolhida naquele momento”.

 
Entendendo essa importância e influência da dança, há cerca de um ano a jovem começou a postar em suas redes sociais, principalmente no Instagram, coreografias que gosta e que aprendeu, com o intuito também de ensinar outras pessoas a adentrarem nas músicas e danças do momento. “A ideia veio de parentes que falam que danço bem, além de outras pessoas de fora que elogiam. Acredito que possa ter um impacto positivo, pois sei que outras pessoas também querem aprender”, argumenta. “Por isso, tento ensinar de uma forma clara e rápida, para que a compreensão dos passos seja mais tranquila” garante a futura dançarina.

Atualmente, Gabriela investe nos hits principalmente do TikTok e seu vídeo mais famoso conta com cerca de 29 mil visualizações. A plataforma revolucionou a indústria musical e as formas de se expressar dançando.
 

Quem não escuta a canção, não entende a gente dançar

Entendendo essa influencia da dança ao decorrer das gerações é possível observar como o sentimento de pertencimento e liberdade é quase unânime na maioria dos casos. Para isso, a fisioterapeuta, dançarina e coreógrafa Julia Belo, de 26 anos, conta os benefícios da dança, inclusive para o autoconhecimento e autoconfiança.
 



"Um dos vários benefícios da dança é de se libertar, se tornar mais seguro de si, confiante e autêntico. Faz você utilizar mais da sua criatividade e capacidade intelectual. Funciona também como uma terapia, sempre a melhor opção para extravasar e aliviar o que está dentro”, garante a profissional.

Além disso, pensando nesse sentimento de pertencimento, a dançarina salienta o quanto a dança permite que você se desafie e se descubra de diversas maneiras. “A partir disso, você começa a se identificar com pessoas que se assemelham a você, então acontece esse reconhecimento de identidade e pertencimento em algo, que de certa forma você não descobriria se não fosse por meio da dança ou arte em si”, ressalta.
 
Por fim, a profissional relembra sua trajetória desde os 9 anos com o hip hop e como a dança contribuiu para construir quem a Julia é hoje. Auxiliando na disciplina, autenticidade e expressão, ela se encontra como uma professora que acima de tudo respeita as diferenças, individualidades e tempo de crescimento de cada um. “Costumo falar que a minha alma é quem dança, meu corpo só transmite o que ela sente“, conclui a dançarina.


Link
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »