10/09/2021 às 20h59min - Atualizada em 10/09/2021 às 20h59min

COMO A DESINFORMAÇÃO AFETA O TRABALHO DOS PROFISSIONAIS DA SAÚDE EM TEMPOS DE COVID-19

Além de atingir a área da saúde, a veiculação de informações falsas em período de pandemia oprimiu o trabalho dos jornalistas, que passaram a reverter fake news constantes

Ana Luiza Bertelli Dimbarre - Ana Lívia Gonçalves
Foto: Você RH

Com a pandemia da Covid-19, as redes de desinformação, que já vinham tomando conta da internet, se intensificaram. Grupos que não acreditam no vírus são contrários à aplicação das vacinas e favoráveis ao uso de tratamentos precoces, publicam e compartilham diariamente informações não verídicas. Aqueles que não apresentam acesso aos dados confiáveis ou não têm interesse em buscar, de fato, as informações de qualidade, tomam por verdade o que veem e o que recebem, levando muitas vezes ao compartilhamento dos mesmos. 

Segundo uma pesquisa realizada pela Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene (ASTMH) ao final de 2019 e início de 2020, cerca de 6.000 pessoas foram infectadas e hospitalizadas e 800 morreram após acreditarem em um mito popular que o consumo de álcool concentrado mataria o vírus. Ainda de acordo com a ASTMH, “rumores, estigma e teorias da conspiração têm o potencial de diminuir a confiança da comunidade nos governos e agências internacionais de saúde. Os rumores se mascaram como estratégias confiáveis ​​de prevenção e controle de infecções e têm implicações potencialmente sérias se priorizadas em relação às diretrizes baseadas em evidências”.

No Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) direcionou uma parte de seu site com dados e informações para explicar as dúvidas mais recorrentes a respeito da pandemia. Materiais para download, boletins epidemiológicos e produções especiais envolvendo os programas de imunização, entre outros arquivos, estão disponíveis para o acesso da população no site da Fundação. Além disso, o Ministério da Saúde criou um canal*, gratuito, via whatsapp para o envio de mensagens dos brasileiros, como forma de combater as informações falsas que permeiam a Covid-19. Porém, mesmo com essas e outras iniciativas, as redes de desinformação continuam em alta em todo o país. 

Hoje, os principais meios para a veiculação de informações falsas são as redes sociais, sobretudo os grupos de whatsapp. Ângela Haas Dias, fiscal de vigilância em saúde da Prefeitura Municipal de Palmeira, no Paraná, afirma que essa desinformação gerada pelos meios de comunicação é parte da falta de leitura completa da população. “As pessoas gostam de informações curtas e rápidas e tomam isso como verdade. Vídeos e áudios que se propagam em grupos de whatsapp atrapalham a circulação de informações verdadeiras. Fatos e dados confiáveis você encontra em fontes científicas e não em sites de fofoca”, ressalta.  

Para Michele Zuber de Almeida, biomédica em Ponta Grossa-PR, grande parte das desinformações são baseadas em vias conspiratórias e que são veiculadas na internet. “A desinformação pode circular e ser absorvida rapidamente, mudando o comportamento das pessoas, expondo-as a riscos e situações críticas maiores, provocando o alcance da lotação dos sistemas de saúde”, pontua.

Dessa forma, a desinformação além de gerar altos danos para quem não vai atrás da verdade, atrapalha o trabalho dos profissionais da área da saúde. Pois, às pessoas ao não tomarem as atitudes corretas para se prevenir contra o vírus, faz com que o contraiam e possam vir a sofrer complicações mais graves. Quando isso ocorre e o indivíduo necessita de internamento hospitalar, ele contribui para a lotação dos pontos de atendimento e a sobrecarga do profissional que ali atua.

Segundo a especialista em gestão hospitalar e enfermeira de Ponta Grossa, Graziela Argenti, com o avanço e o alcance da internet, a desinformação em período pandêmico tem afetado da pior maneira a rotina desses profissionais. Pois, em inúmeros casos as pessoas fazem o uso de tratamentos sem prescrição médica e ao chegarem no hospital já estão em um nível avançado da doença, contribuindo assim para a sobrecarga física e mental dos profissionais da saúde. “A desinformação na pandemia está custando vidas. Há expectativas de que o procedimento que foi eficaz para um conhecido seja bom para mim também, e dessa forma, não é procurado a ajuda dos especialistas da área. Cada pessoa apresenta um corpo e um organismo, então as aceitações serão diferentes”,  explica. 

Outra situação é quando os tratamentos eficazes para o combate ao vírus são deixados de lado e o uso de remédios com a eficácia não comprovada pelas autoridades de saúde, como hidroxicloroquina e ivermectina, passam a ser prioridades. Apesar de já apresentar imunizantes contra o vírus, o Presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, ainda insiste em defender o uso dos medicamentos e propaga inúmeros discursos incentivando seus apoiadores a utilizarem. 

Falas iguais às que Bolsonaro prega contribuem para o avanço das informações falsas na internet e, dessa forma, contrapõe o trabalho de inúmeros profissionais que lutam diariamente para o fim da Covid-19. É o que aponta o estudante de medicina, Leonardo Menezes. “Nós temos um presidente que não colabora e não contribui para a melhora. Ele não acredita na ciência e na vacina. Nosso sistema de saúde está defasado e não tem estrutura para receber ninguém”. 

Para Ângela Haas, essas e outras posturas tomadas tanto pela população em geral, quanto por figuras públicas, descredibilizam uma cadeia de pessoas envolvidas no enfrentamento da pandemia. “A desinformação coloca a credibilidade dos profissionais de saúde em cheque. As pessoas acabam criticando o profissional em si, sendo que a informação muitas vezes não está completa ou está incorreta. As fiscalizações de vigilância e os serviços da guarda municipal também são prejudicados com essa desinformação”, afirma.

Com o início dos programas de imunização, os grupos contra vacinação iniciaram campanhas de informações falsas, influenciando a população a não se imunizar contra o vírus. De acordo com a União Pró-Vacina (UPVacina), entre dezembro de 2020 e janeiro de 2021, os dois maiores grupos antivacina do Facebook, no Brasil, publicaram 367 conteúdos falsos sobre as vacinas contra a Covid-19. Entre esses conteúdos estavam o perigo dos imunizantes, teorias da conspiração e conspirações políticas, alterações no DNA humano, a não eficácia e o uso de fetos abortados na produção das mesmas. 

Ambos os grupos do Facebook são acompanhados desde 2019 e durante a pandemia, a disseminação de fatos incorretos atingiu níveis altíssimos. Os volumes de interações com o público a partir dessas publicações também foram altos, como por exemplo os mais de 2.300 compartilhamentos, o que comprova a influência desses canais perante a população. Como forma de tentar combater essa veiculação, a UPVacina produz materiais a respeito de todo o processo dos imunizantes contra a Covid-19, sejam em áudios, fotos ou textos, e estão disponíveis para o acesso. 

De acordo com Lindomar de Aguiar, chefe do Pronto Atendimento do Hospital Universitário de Ponta Grossa, referência no atendimento da Covid-19 nos Campos Gerais, a veiculação de informações falsas sobre a imunização durante a pandemia faz parte de um histórico do país, que foi intensificado. “Eu acredito que isso venha de um histórico quando inventaram a primeira vacina e as pessoas achavam que ela iria gerar a morte da população. Até hoje o pessoal tem medo de se vacinar, e assim, inventam muitas histórias falsas a respeito”, explica Aguiar.

O mesmo apontamento é feito por Menezes, onde em décadas anteriores, já havia uma mistificação sobre os imunizantes. “É aquela história: ‘meu filho nunca se vacinou contra o sarampo e nunca pegou’. Mas você sabe o motivo dele não ter pego? É porque as pessoas ao redor dele estão imunizadas. Por isso a vacina é tão importante para a população”, ressalta.

Desde as eleições presidenciais de 2018, o país já vinha passando por uma forte onda de desinformação e naquela época, os programas nacionais de vacinação já sofriam ataques por apoiadores do atual governo. Neste ano, especificamente, apesar dos processos de produção dos insumos imunizantes estarem disponíveis ao acesso da população, poucas são as pessoas que pesquisam, o que afeta ainda mais todas as áreas pela falta de interesse. 

Além da falta de interesse, estão presentes outras duas realidades no país com relação à vacinação. Em locais como Lorena-SP, onde a estudante de enfermagem, Thaína Reis, mora, há uma parcela da população que não tem acesso à informação da imunização por meio das mídias digitais. “Enquanto estive presente na campanha de vacinação da minha cidade, observei que pessoas com menos escolaridade e que apresentam moradia rural, têm um menor acesso às informações, fato que fez com que perdessem o dia da sua faixa etária”. 

Em contrapartida, há aquelas pessoas que contam com grandes acessos às redes sociais e à internet, porém não acreditam na sua eficácia e só estão indo se vacinar por motivos alheios ao isolamento social. “Por mais que eu veja que a campanha de vacinação tenha sido bastante significativa, conheço pessoas que só estão se vacinando para que possam sair e viajar. O que também cabe aos profissionais da saúde mudar essa ideia e mostrar que ela tem efeito sim. Não é apenas uma questão política”, afirma a estudante de enfermagem de Ponta Grossa, Midiã Vanessa dos Santos Spekalski.  

A partir do avanço da vacinação, houve o relaxamento das medidas restritivas. Festas clandestinas, aglomerações em estabelecimentos fechados, o uso inadequado de máscaras, conflitos entre comerciantes e clientes devido às imposições feitas pelos decretos municipais e estaduais, entre outros pontos, passaram a ser desrespeitados. 

Sendo assim, Luana de Medeiros, coordenadora do Bloco de Urgência e Emergência do Hospital Bom Jesus em Ponta Grossa, aponta que com a vacinação houveram duas posturas tomadas: a pessoa que acredita que a pandemia vai acabar e a pessoa que, ao se imunizar, pensa que não irá mais contrair o vírus. “A proposta da vacina é diminuir o risco da doença, porém a pessoa ainda está propensa a pegar. E o que vemos? Pessoas vacinadas e afrouxando as medidas protetivas. Isso é uma desinformação e é o que tem afetado a realidade dos hospitais”, destaca.
 

A DESINFORMAÇÃO E O JORNALISMO


                     Arte: Ana Luiza Bertelli e Ana Lívia Gonçalves
 

        Além de afetar o trabalho dos profissionais da área da saúde, as redes de desinformação prejudicam em grande escala o papel dos jornalistas, vindo a  descredibilizar a profissão. O jornalismo já vinha sofrendo nos últimos anos intensas implicações, porém com a pandemia, momento em que a profissão se fez ainda mais necessária, a situação e a postura adotada pelo presidente perante a imprensa piorou. 

O jornalismo assumiu um papel fundamental no controle das desinformações geradas e que circulam nas redes sociais sobre a doença. Informações falsas que eram também espalhadas pelo Governo Federal. Os discursos negacionistas à ciência e à vacina, em conjunto das as influências para a adesão de métodos não comprovados cientificamente, foram e se fazem muito presentes até o momento, afetando diretamente o papel dos jornalistas.    

Segundo o diretor da Repórteres Sem Fronteiras (RSF) da América Latina, Emmanuel Colombié, há estratégias para os ataques a jornalistas no Brasil, as quais permeiam desde Bolsonaro e vão até seus apoiadores, contribuindo para a dificuldade de atuação dos profissionais da comunicação no país. E isso fica ainda mais evidente ao analisar o crescimento dessas implicações. De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), em 2020, os ataques aos jornalistas cresceram em 106% com relação a 2019.

 Esses ataques contribuem para a queda da liberdade de expressão, o que fica claro por meio do Relatório da ONG Artigo 19, onde o Brasil, após a chegada de Bolsonaro ao poder em 2019, caiu para a 94ª posição entre 161 países, ficando apenas na frente da Venezuela, com relação aos países da América do Sul. Apesar das críticas e dos apontamentos, os jornalistas seguem buscando por seus direitos e por condições de trabalho no país, lutando contra a desinformação que se faz presente e procurando formas de evitar a propagação de informações falsas.

O combate às Fake News tem sido os papéis das agências de checagem, que, nos últimos anos, ganharam maior visibilidade no país devido às suas ações a partir das eleições de 2018. Kyene Becker da Silva é jornalista do Boatos.org, rede de checagem criada em 2013, ela afirma que o trabalho do Boatos.org, hoje, está totalmente voltado para desmentir as notícias e os fatos não verdadeiros já veiculados na mídia. “Nosso trabalho enquanto agência é mostrar para a população os motivos que levam aquela história ser falsa, como forma de diminuir esse avanço da desinformação. Ficamos muito felizes de ver que nosso papel tem sido fundamental na sociedade, por mais que ainda tenha muito para mudar”. 

É o que também aponta a estudante de jornalismo de Cachoeira Paulista, Milena Souza, para ela, durante a pandemia, os jornalistas assumiram papéis de extrema importância e comprometimento com a população. “Nós possuímos o dever de levar a verdade por meio das apurações e conhecimentos dos fatos, que ao envolver a Covid-19, é especificamente científico. A utilização de fontes confiáveis e a imparcialidade em momentos como esse que estamos vivendo, são essenciais para a construção de uma notícia de credibilidade”, conclui. 

PODCAST - DICAS SOBRE OS PROTOCOLOS SANITÁRIOS QUE DEVEM SER SEGUIDOS ATÉ O FINAL DA PANDEMIA

 


 

PARA MAIS INFORMAÇÕES COM O MINISTÉRIO DA SAÚDE:

*Número do Whatsapp (61) 99333-8597




 
 

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