03/10/2021 às 18h44min - Atualizada em 03/10/2021 às 17h52min

Direitos das mulheres afegãs e a ameaça de perdê-los com a volta do Taliban

No Afeganistão, os direitos conquistados ao longo de 20 anos são questionados

Evellyn Torres - Editado por Andrieli Torres
Mulheres protestam contra o Taliban - Foto: Getty Images
Simone de Beauvoir já dizia: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.” A pandemia da Covid-19 escancarou e acentuou a desigualdade social, de gênero e raça, presente na sociedade. Direitos conquistados pelas mulheres ao longo das décadas e séculos podem ser facilmente derrubados. 
A situação das mulheres e crianças no Afeganistão tornou-se foco de preocupação mundial com a tomada do poder pelo Taliban novamente. No dia 15 de agosto de 2021, o presidente, Ashraf Ghani, deixou o país e a capital, Cabul, foi assumida pelo grupo. No mesmo período, os Estados Unidos retiravam as tropas do Afeganistão, processo realizado desde o ano passado. 
Com a deixa de Ashraf, a retirada foi acelerada e muitos civis correram para os barcos e o aeroporto para deixar o país. Cenas de horror e desespero circularam nas redes sociais, com homens caindo de aviões em voo e crianças sendo entregues em navios.
Em vídeo divulgado pela Folha de São Paulo, no dia três de setembro, mulheres protestavam em Cabul e Herat, a terceira maior cidade do país, contra o novo regime e pela inclusão feminina nos cargos políticos novamente, que estavam sendo distribuídos entre os homens.

Desde o começo do século 20, as mulheres afegãs lutam por seus direitos, como maior liberdade e igualdade, passando por altos e baixos na história. Com a tomada do Taliban, há o medo que todo o avanço feito nos últimos vinte anos seja perdido.
De 1919 a 1929, esteve em vigor o reinado de Amanulá Khan, com tentativa de modernizar o país. No período, uma nova constituição foi proposta, com foco nos direitos das mulheres de frequentar escolas com os meninos, aumento da idade mínima para casamento e a liberação de vestimentas, retirando as regras rígidas. 
Os conservadores foram contrário e em 1929, o rei Khan foi derrubado e o progresso foi diluído. De 1933 a 1973, Muhammad Zahir Shah, comandou o Afeganistão, sendo o último rei do país, e substituto de seu pai, que voltou com o ideal de modernização de Khan. Os direitos das mulheres foram sendo retomados, juntamente com o privilégio de frequentar a escola, a criação de uma nova universidade, constituição e o direito de votar.
Encerrada a monarquia após dois séculos e instaurada a República, a mulher afegã passou a ocupar espaços políticos, na esfera pública e nas universidades. Porém, com pouco impacto nas áreas rurais. 
Em 1996, o Taliban tomou o controle pela primeira vez do Afeganistão e aplicou duras leis, principalmente às mulheres. O grupo fundamentalista religioso possui uma interpretação radical da Sharia, a lei islâmica. Nas regras, era permitido o apedrejamento em caso de adultério, punições como amputações e chicotadas em casos de roubo. Para os homens, a barba era obrigatória e as mulheres não podiam frequentar escolas ou trabalhar, quando saíssem deveriam estar na companhia de um homem e utilizar a burca azul ou preta, cobrindo todo o corpo, exceto os olhos.
Cinco anos depois, o grupo foi retirado do poder com a invasão dos Estados Unidos em 2001, como reação aos ataques do 11 de setembro às Torres Gêmeas. Os EUA afirmavam que estavam levando a democracia e acusaram o Taliban de abrigar o grupo terrorista Al Qaeda, responsável pelo atentado. 
Deste então, as mulheres foram retomando os espaços que ocupavam e conquistando outros, seja no trabalho, na política e nas escolas. Mas em 2021, o país já afetado pela pandemia da covid-19, viu o retorno do Taliban. Embora os representantes do grupo em discursos iniciais afirmem que não serão tão rigorosos na aplicação da Sharia, medidas já foram impostas. Com a obrigação da burca ao sair de casa e a companhia de um homem; a separação de mulheres de homens na faculdade; e vitrines com mulheres pintadas com tinta branca.
Nas redes sociais, campanhas e protestos também foram organizados, como as hashtags #DoNotTouchMyClothes (#NãoMexaNasMinhasRoupas) e #AfghanistanCulture (#CulturaDoAfeganistão). Criadas pela Dr.Bahar Jalali, historiadora e ex-professora de história da Universidade Americana no Afeganistão, mulheres divulgaram as roupas tradicionais do país, com diversidade de cores, bordados que representam a identidade das mulheres, diferente da burca imposta.
A ativista dos direitos humanos Spozhmay Maseed aderiu ao movimento e escreveu em seu Twitter: “Este é o nosso vestido afegão autêntico. As mulheres afegãs usam trajes coloridos e modestos. A burca preta nunca fez parte da cultura afegã”.
Malala Yousafzai, ativista paquistanesa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, também se pronunciou nas redes sociais, ela diz estar “profundamente preocupada com as mulheres afegãs, as minorias e os defensores dos Direitos Humanos” além de pedir ajuda humanitária a outros países. Malala foi baleada na cabeça por um membro do Taliban em 2012 por lutar pelo direito à educação pelas mulheres.

Em texto publicado no jornal The New York Times, a ativista afirma:

As meninas e jovens afegãs estão mais uma vez onde eu estive - desesperadas com a ideia de que talvez nunca mais tenham permissão para ver uma sala de aula ou segurar um livro novamente. Alguns membros do Taleban dizem que não negarão a mulheres e meninas educação ou o direito ao trabalho. Mas, dado o histórico de suprimir violentamente os direitos das mulheres pelo Taleban , os temores das mulheres afegãs são reais. Já estamos ouvindo relatos de alunas sendo rejeitadas em suas universidades, trabalhadoras de seus escritórios.”


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