24/10/2021 às 17h19min - Atualizada em 16/10/2021 às 11h39min

Detox digital

A era tecnológica e os reflexos negativos na saúde e no comportamento da sociedade

Sheyla Ferraz - Editado por Talyta Brito
Reprodução: Turismo sem censura
Cada vez mais o uso do celular tem se tornado frequente. O mundo está a cada dia mais conectado, porém, o ‘x’ da questão não é o quanto a sociedade está mais tecnológica, mas sim, o quanto a saúde emocional e psicológica do ser humano tem sido afetada por isso.Não há dúvidas de que o aparelho celular e aplicativos de relacionamento como o whatssap facilitaram muito a comunicação e trouxe agilidade em diversas tarefas do dia-a-dia, porém, o excesso pode desencadear uma série de fatores destrutivos na qualidade de vida. A começar pela mudança das relações humanas que tem se tornado cada vez mais líquidas e distantes, além das alterações no cérebro.

Micaella Santana, 25, sentiu a necessidade de pausar o tempo que gastava nas redes sociais. A jovem era acostumada a interagir muito com amigos através da internet, até que, sentiu que sua saúde emocional estava sendo afetada com o uso demasiado. Ela passou a comparar a sua vida com a de outras pessoas e sentia que sua realidade era inferior ao “glamour” que contemplava diariamente em sua time line. “Ficamos com uma imagem distorcida da realidade e de nós mesmos e estamos sempre nos comparando, tentando atingir padrões inalcançáveis”, disse.

A jovem também passou por momentos delicados durante à pandemia e acabou usando o Twitter como meio de desabafo, mas, infelizmente as consequências não foram boas, Micaella viu que estava se expondo demais e ficou por dois meses sem twittar e sem acessar sua conta do instagram.

Assim como a jovem Gislaine Morais, 26, que quando percebeu que as redes sociais estavam ocupando boa parte da sua vida, decidiu pelo off e não se arrepende. “A vida fora das redes é muito melhor, e com pouco tempo longe você percebe a importância de priorizar isso”, afirmou.
Para conseguir se desligar do mundo virtual, ambas excluíram os aplicativos de relacionamento do celular. Micaella quando se sentia tentada a desabafar nas redes sociais, gravava áudios e enviava para si mesma. Elas contam à experiência que o período longe da internet trouxe – maior produtividade, qualidade do sono, a minimização de conflitos internos e a apreciação do que há na vida “ao vivo e a cores”.
 
Estudos científicos indicam que o uso excessivo de telas encolhe e acelera o cérebro, bem como, o aumento de dopamina, o neurotransmissor responsável por estimular o vício, tornando refém quimicamente o indivíduo da mesma forma que a droga. Além disso, especialistas têm observado também o aumento da miopia.

O uso excessivo das telas pode tornar quimicamente refém o indivíduo, da mesma forma que a droga.

 
Já existe o transtorno chamado nomofobia, que significa – o medo de ficar sem o celular – capaz de levar as pessoas ao Hikikomori, termo em japonês conceituado como afastamento social severo, ou seja, o desconforto em estar em ambientes sociais.A psicóloga Laame Arcebispo destaca outros malefícios causados pelo excesso do uso de telas como; problemas na coluna e lombar, devido à má posição e muitas horas diante das telas e transtornos psicológicos como depressão e ansiedade. “Muitas pessoas que não conseguem ter contato pessoalmente, se veem refém do mundo virtual porque de certa maneira ela acaba não se sentindo sozinha”, reiterou a psicóloga.

 “Muitas pessoas que não conseguem ter contato pessoalmente, se veem refém do mundo virtual porque de certa maneira ela acaba não se sentindo sozinha”. (Psicóloga Laame Arcebispo)

 
Usar a internet como meio de fuga à solidão tem sido uma tentativa frustrada de fugir do problema, ao contrário, essa prática degrada ainda mais as emoções do indivíduo. A Drª Laame afirma que a comparação é um sentimento muito comum na rotina de quem consome por muito tempo os conteúdos de entretenimento expostos nas redes sociais. Neste caso, ela diz ser importante trazer luz à consciência de que nem tudo que acontece no universo digital é perfeito, nem tudo que se mostra ser de fato é.

Mas não é apenas na vida dos adultos que a exposição desmedida das telas faz mal, as crianças também são prejudicadas, pois a prática pode desencadear déficit de atenção, atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem, dependência digital, isolamento, distúrbio do sono, entre tantos outros fatores.

A psicóloga também ressalta sobre os riscos enquanto a criança acessa a internet, tornando-se, portanto, uma presa fácil para criminosos – “a criança é uma vítima em potencial. Muitos pedófilos usam das informações da criança e do contato com ela para poder aliciar”. Para evitar os danos, ela aconselha que os pais tenham um controle rígido sobre os filhos. O acompanhamento familiar é extremamente importante.   

Não há como falar sobre este assunto sem citar a procrastinação. Muitos usuários adiam suas atividades diárias o quanto podem, eles não percebem as horas e horas desperdiçadas em frente às telas: “O índice muito alto que nós temos nos consultórios é de que as pessoas não conseguem estabelecer uma rotina de estudo e de afazeres domésticos, por conta do uso do celular”.

“O índice muito alto que nós temos nos consultórios é de que as pessoas não conseguem estabelecer uma rotina de estudo e de afazeres domésticos por conta do uso do celular”. (Psicóloga Laame Arcebispo)


Para aqueles que precisam estar diariamente diante das telas por ser parte do seu trabalho, a especialista orienta, portanto, o uso consciente. Saber como manter o equilíbrio entre a necessidade e o passatempo. Momentos de qualidade com a família, amigos ou um programa de lazer, são alternativas para desconectar-se do mundo virtual e obter mais qualidade de vida.
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